Paulo Matos, diretor-geral da Tommy Hilfiger Brasil: “O papel do líder é ter uma visão clara de mercado e para onde você quer que ela vá. Não é a operação” (Rafael Fernandes/EXAME/Divulgação)
Repórter
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 12h21.
Última atualização em 18 de fevereiro de 2026 às 13h42.
Por anos, agenda cheia foi sinônimo de líder compromissado. Reuniões em sequência, convites aceitos no automático e a sensação de que estar ocupado é prova de relevância. Paulo Matos, diretor-geral da Tommy Hilfiger Brasil, tem ido na direção oposta: ao invés de lotar a semana inteira, ele decidiu proteger dias “em branco”.
A inspiração veio de uma frase que ele ouviu do empresário Roberto Justus e não esqueceu: o poder da “agenda vazia”. O conceito, segundo Matos, não é sobre improdutividade, é sobre flexibilidade.
“Ouvi um dia o Roberto Justus falar sobre o poder da agenda vazia. Ele comentou que, depois que virou consultor, passou a ter um papel mais interessante, parou de colocar a mão em tudo e ganhou flexibilidade para atuar no que realmente importa”, diz Matos, em entrevista ao podcast “De frente com CEO”, da EXAME.
Na prática, o executivo organiza a semana em dois blocos:
“Quarta, quinta e sexta eu deixo a agenda aberta. Se surge algum assunto ou problema, já sei que são os dias para resolver isso”, diz.
Matos reconhece que não dá para “ter agenda vazia” o tempo todo, especialmente quando ainda há muito a construir, mas defende que o líder precisa de margem para agir fora do roteiro.
Ao deixar metade da semana livre, ele evita o problema clássico de quem vive preso ao calendário.
“Agenda vazia não é falta de trabalho. É ter margem para decidir rápido quando algo importante surge. Se a agenda está sempre lotada, você acaba resolvendo tudo no sufoco,” diz o diretor geral da Tommy Hilfiger Brasil.
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O ponto central do argumento de Matos é escolher com honestidade onde a presença do líder agrega. Ele deu um exemplo direto: inauguração de loja.
“Eu não vou mais inauguração de loja”, afirma. Não por desprezo ao ritual, mas o executivo entende que seu impacto é maior antes da abertura, na análise do lugar, do formato e do potencial de cada cidade.
“Eu adoro fazer a expansão antes da expansão, é um estudo para você chegar lá e falar ‘caramba, a Tommy tem que estar aqui’, e não dá para delegar com tanta facilidade,” diz Matos.
Na inauguração em si, ele vê uma troca ruim: o time é quem tem protagonismo e repertório para executar, e é saudável que seja assim.
“Quem está lá tomando champanhe com o franqueado é o meu time, não sou eu”, diz, defendendo que abrir espaço é também um jeito de fortalecer lideranças abaixo dele.
A lógica da agenda vazia aparece conectada a outra ideia que Matos considera um marco: o líder só vira líder “de fato” quando consegue sair e o negócio continua funcionando.
“Eu acho que você só vira um líder de fato quando você pode ir embora e tudo funciona”, afirma.
Para ele, a função principal do cargo não é operar o dia a dia, mas definir direção, e puxar o time para essa direção.
“O papel do líder é ter uma visão clara de mercado e para onde você quer que ela vá. Não é a operação”, diz Matos.
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A leitura de Matos não pede uma revolução na rotina, pede um ajuste de intencionalidade. Na prática, a ideia se traduz em três movimentos:
No fim, a agenda vazia não é uma agenda leve. É uma agenda estratégica: menos sobre marcar tudo, e mais sobre estar disponível para o que só o líder pode (e deve) fazer.
Veja abaixo a entrevista completa de Paulo Matos, diretor geral da Tommy Hilfiger Brasil, ao podcast "De frente com CEO", da EXAME: