Simone Grossmann, da Icatu: "Liderar jovens significa construir ambientes em que exigência venha acompanhada de clareza" (Icatu Seguros/Divulgação)
Redação Exame
Publicado em 9 de julho de 2026 às 12h01.
Por Simone Grossmann, Diretora de Pessoas e Sustentabilidade da Icatu Seguros
Muito se fala sobre os desafios de liderar a nova geração. Fala-se da ansiedade, da velocidade, da necessidade de propósito, da busca por maior equilíbrio de vida, da menor tolerância a hierarquias rígidas e da abertura a experiências mais diversas. Mas talvez o maior erro das lideranças seja partir do pressuposto de que o desafio está apenas nos jovens.
E se a pergunta mais importante não for “como preparar essa geração para o mercado?”, mas “o quanto o mercado está preparado para aprender com ela?”.
Ao longo da minha trajetória em Recursos Humanos, aprendi que toda geração chega ao mundo do trabalho trazendo tensões que são absolutamente naturais. Foi assim antes e continua sendo agora. A diferença é que, hoje, essas tensões aparecem em um contexto de transformações muito mais rápidas: novas tecnologias, novas formas de se relacionar, novas expectativas sobre carreira, bem-estar, desenvolvimento, pertencimento e liderança.
Por isso, quando falamos de programas de estágio, não estamos falando apenas de uma porta de entrada para jovens talentos. Estamos falando de uma das formas mais concretas que uma empresa tem de entrar em contato com o futuro do trabalho antes que ele se imponha de maneira definitiva. Uma oportunidade ímpar de aprendizado, crescimento e inovação.
Estagiários chegam às organizações em processo de formação, claro. Mas chegam também com um olhar ainda livre dos vícios do ambiente corporativo. Eles fazem perguntas que muitos profissionais experientes deixaram de fazer ou perguntas que simplesmente ninguém dentro da empresa faria. Simplesmente porque trazem novas perspectivas. O chamado “olhar fresco” estranha, questiona, indaga sobre processos que já foram naturalizados, sobre rituais, linguagens e modelos de liderança que, muitas vezes, seguem existindo mais por hábito do que por eficiência. E isso pode incomodar. Mas também pode ensinar. Razão pela qual é tão poderoso.
Dentro da empresa, nem sempre é fácil entender essa nova perspectiva. Existe uma tendência de transformar diferença em problema. Quando um jovem pede mais contexto, interpreta-se como falta de autonomia. Quando busca sentido no que faz, chama-se de impaciência. Quando questiona uma forma antiga de trabalho, lê-se como falta de experiência. Quando quer aprender rápido, parece ansiedade. Mas talvez parte desses comportamentos esteja apenas revelando que modelos de liderança anteriores (ou, falando de forma explícita, antigos) já não respondem mais às demandas do presente. Estão ultrapassados.
A nova geração traz uma provocação importante para a liderança. Liderar jovens significa construir ambientes em que exigência venha acompanhada de clareza, desenvolvimento venha acompanhado de escuta e diálogo, performance venha acompanhada de sentido e trabalho e compromisso venham acompanhados de equilíbrio.
E são os gestores que transformam a experiência cotidiana em desenvolvimento real quando contextualizam em vez de apenas distribuir tarefas, quando formam visão no lugar de apenas acompanhar entregas, quando estão abertos a sugestões e não apenas mostram como as coisas funcionam.
Essa troca é especialmente poderosa porque o estágio ocupa um lugar único: ele conecta a academia e o mundo educacional ao mercado, a teoria à prática, a cultura digital às estruturas corporativas, os debates sociais às decisões de negócio. Os jovens chegam trazendo referências que muitas vezes ainda não chegaram plenamente às empresas. Novas linguagens, novas tecnologias, novas formas de consumir, se informar, se posicionar e de construir identidade.
Recentemente, pude ver essa construção mútua acontecer na prática. Na Icatu Seguros, nosso programa de estágio conta com encontros periódicos com executivos e com o CEO. Em um desses encontros, uma estagiária participou do mapeamento de um desafio interno, estruturou uma análise e propôs caminhos tão consistentes que passou a liderar o desenvolvimento da iniciativa. Esse exemplo mostra que, quando existe espaço para confiança, o impacto não depende do cargo, mas da qualidade da escuta e da maturidade da liderança em reconhecer contribuições onde elas aparecem.
É claro que jovens em início de carreira precisam aprender sobre a construção consistente de uma carreira. É parte do processo de evolução. A carreira não é uma sequência imediata de recompensas. Nem sempre haverá efetivação ao fim do estágio, muitas vezes por questões estruturais e não por falta de talento. Ainda assim, uma experiência de estágio bem conduzida pode trazer para esse profissional em formação uma excelente oportunidade de amadurecimento, repertório, conhecimento, networking e abertura de caminhos futuros.
E assim como os estagiários evoluem e aprendem com essa experiência, as empresas também precisam estar abertas a aprender. Líderes precisam saber explicar melhor suas escolhas, comunicar com mais transparência, dar feedback com mais frequência, criar ambientes em que perguntas sejam normais e não um desconforto, construir times cada vez mais diversos e inclusivos, e assim reconhecer que diversidade geracional é uma vantagem competitiva.
No fim, o futuro do trabalho não chegará apenas por meio de grandes tendências, relatórios ou tecnologias. Muitas vezes, ele já está sentado à mesa, fazendo uma pergunta simples, propondo um caminho diferente ou mostrando que existem outras formas de pensar carreira, liderança e colaboração. É essencial estarmos abertos e curiosos para acolher essa grande oportunidade.