Carreira

Onde está sua marca pessoal no conteúdo que a IA cria em seu nome?

Você publica mais do que nunca, só não sabe mais se o que publica ainda te representa

Use a IA, mas use-a como se usa um bom editor (Pin People/Divulgação)

Use a IA, mas use-a como se usa um bom editor (Pin People/Divulgação)

Renata Vegha
Renata Vegha

Colunista

Publicado em 9 de julho de 2026 às 11h53.

Tudo sobreDicas de carreira
Saiba mais

Outro dia, uma amiga pediu que eu lesse uma publicação que ela fez no LinkedIn. Era bem escrita, organizada, com aquele travessão elegante no meio da frase e uma estrutura de tópicos que parecia saída de um manual de redação. Comecei a ler, mas, em algum momento, me deu um estalo. Parei porque percebi que não estava mais lendo ela, na realidade, estava lendo uma versão pasteurizada dela. Produzida, gramaticalmente correta, com qualidade, é verdade, mas sem aquela malemolência que só a criatividade humana tem e que faz um texto cativar o interesse.

Foi fácil pensar: a culpa só pode ser da IA. E olha que eu dava tantos créditos a essa amiga, especialmente por ser uma jornalista daquelas que fazem as palavras dançarem no texto. Ali, justamente onde se esperava jogo de cintura, ele faltou. No fim, tirei um tempo para refletir: o problema não é a IA, é que ela havia desaparecido dentro do próprio texto.

Tem uma contradição interessante acontecendo. As mesmas pessoas que humanizam a IA – que chamam o Claude de Claudinho, que tratam o ChatGPT como psicólogo – são as que entregam para ele a tarefa de representá-las. A gente humaniza a máquina e desumaniza o próprio discurso. Contraditório? Muito.

Outro sinal que você provavelmente já notou: a pessoa que só se comunica por áudio, o que, por si só, já diz algo sobre ela, mas quando o assunto fica difícil, aparece um textão com travessão, com emojis ilustrando os pontos-chave, com aquela estrutura de "nem isso, nem aquilo". Você lê e pensa: ela não sabia o que responder e foi perguntar para a máquina. Pode até ter razão nos argumentos, mas o estrago na percepção já estava feito.

O cenário ficou ainda mais confuso porque o movimento contrário também existe, como uma espécie de caça às bruxas, em que qualquer texto um pouco mais articulado já é lido como “made in Chat GPT”, mesmo quando não é. Os detectores de conteúdo gerado por IA prometem resolver isso, porém nenhum chega perto de 100% de precisão, conforme apontou a Universidade de San Diego. Há casos documentados em que o algoritmo acusou o humano e absolveu a máquina.

Ficamos num limbo curioso, sem ferramenta confiável para provar e dependendo de um sexto sentido coletivo, aquele "hm, ela nunca escreveria assim…" que vem da intuição, da memória de como aquela pessoa se comunica, da imagem que ela transmite de si, de algo que nenhum detector consegue codificar. É irônico. No meio de tanto curso sobre como usar IA, o que talvez esteja faltando seja um sobre etiqueta a respeito de quando usar, quanto usar, e como usar a seu favor.

Há uma vergonha não declarada em admitir que se usa IA, parecida com a vergonha de assumir que aplica canetas emagrecedoras, alfinetou a empresária Natalia Beauty após ser confrontada sobre o uso de inteligência artificial para elaborar seus artigos de opinião. Para o azar de Natalia, o que chamou a atenção não foi a articulação argumentativa, mas o fato da coluna abordar temas que pareciam tão distantes do universo dos negócios e da beleza, os quais não há dúvidas de que ela é bem-sucedida.

E aí vem a questão que mais me interessa. Marca pessoal não é (somente) o que você posta, é o que permanece de você depois que a ferramenta faz o trabalho. Se a marca pessoal existe justamente para tornar visível quem você é nos pontos de contato onde as pessoas te encontram, que trabalham com você, o que acontece quando todos esses pontos passam pela mesma ferramenta, com o mesmo tom, a mesma estrutura, com a mesma cara?

Daqui a alguns anos, vamos olhar para esse período com uma certa estranheza estética. A voz metalizada dos áudios criados pela inteligência artificial, as imagens com aquela aparência plastificada, os textos… ah, os textos. Vai ser como olhar para uma foto publicada no Instagram em 2013, vamos recordar que era assim que as pessoas soavam quando ainda não sabiam bem o que estavam fazendo.

A curva de adoção da IA é exponencial, talvez a mais rápida que vimos até então, contudo, em algum momento também vai atingir um platô. O que vai restar desse ciclo é a valorização daquilo que a máquina não consegue imitar, ou seja, o autoral, o que só existe porque tem uma história por trás, o repertório, o gingado.

Use a IA. Por favor, use, mas use-a como se usa um bom editor: alguém que organiza, que aponta o que não está claro, que melhora o que já é seu, e não alguém que escreve no seu lugar e assina com o seu nome. Se você está terceirizando para a máquina justamente os skills mais humanos que tem, alguma coisa na dinâmica precisa ser revisada. Para o bem da sua marca pessoal, a revisão não é daqui a pouco, é agora.

Nesses tempos, a citação atribuída a Paul Tudor Jones parece ter ganho ainda mais valor: "nenhum homem é melhor do que uma máquina, mas nenhuma máquina é melhor do que um homem com uma máquina". O que vai fazer você ser lembrado não é a qualidade do prompt que você usa, é o que há de você por trás dele e o quanto de você transparece naquilo que você comunica.

Acompanhe tudo sobre:Dicas de carreira

Mais de Carreira

Quais são os 4 tipos de líder? Especialista explica como desenvolver uma liderança consciente

Os 'Jogos Olímpicos' da Allianz: como esse campeonato virou ferramenta de liderança e saúde mental

Como responder às perguntas mais comuns de uma entrevista e aumentar suas chances de contratação

Ele é físico e professor. Um MBA ajudou a mudar sua rota: ‘Não conhecia esse universo’