Seguro-desemprego (Jornal Brasil em Folhas/Flickr)
Especialista em mercado de trabalho
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 17h13.
O Brasil melhorou seus indicadores oficiais de emprego. É fato. O problema começa quando transformamos um número correto numa explicação completa sobre como o brasileiro está trabalhando.
O desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, o menor resultado da série histórica para o período, iniciada em 2012.
Mas 5,3% significa que o problema do trabalho no Brasil está perto de ser resolvido?
Não.
E dizer isso não é negar o dado. É levá-lo a sério.
Faz parte da minha rotina rodar o Brasil em fóruns e palestras para debater o tema em ambientes dos mais diversos. Fóruns de RH, educadores e gestores de empresas. Ambientes quase opostos.
Em especial, estive no V Encontro de Líderes do IDV, conversando com algumas das maiores lideranças do varejo brasileiro. Gente que precisa contratar, formar, aumentar produtividade e fazer operações gigantescas funcionarem todos os dias.
Foi aí que o número dos 5,3% apareceu ou, na verdade, desapareceu.
E a conversa ficou mais interessante.
Segundo o IBGE, o Brasil tinha 103,3 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 5,8 milhões de desocupados no trimestre até julho de 2026.
Daí vêm os 5,3%.
Só que desemprego tem uma definição estatística específica. Para entrar nessa conta, é preciso estar sem trabalho, ter procurado efetivamente uma ocupação e estar disponível para trabalhar.
Não é manipulação. É metodologia.
O problema vem quando tratamos essa taxa como um atestado geral da saúde do trabalho brasileiro.
O próprio IBGE mostra outra fotografia. No mesmo período, havia 2,3 milhões de desalentados, aqueles que gostariam de trabalhar mas deixaram de procurar. E a subutilização, que junta desempregados, subocupados e força de trabalho potencial, alcançava perto de 15 milhões de pessoas.
Tem ainda a informalidade. E aqui é preciso honestidade dos dois lados. A informalidade vem caindo no Brasil desde 2022. No começo de 2026 ela chegou a 37,5% da população ocupada, o menor nível desde 2020. Isso é bom e merece ser dito.
Só que 37,5% ainda são cerca de 38 milhões de trabalhadores. Mais de um terço de quem trabalha no país.
A taxa cai. O contingente segue gigante. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Informalidade também não significa automaticamente precariedade ou ausência de qualquer proteção. Por isso vale olhar outra estatística.
O Ministério da Previdência calcula a proteção previdenciária dos trabalhadores ocupados entre 16 e 59 anos. O último dado anual consolidado disponível é de 2024, e ele sai com essa defasagem justamente por ser anual. Naquele ano, dos ocupados nessa faixa etária, cerca de 27 milhões estavam desprotegidos.
Quase três em cada dez.
Agora coloque os números lado a lado, respeitando que são de períodos diferentes:
5,3% de desemprego (julho de 2026).
Cerca de 38 milhões de informais (início de 2026).
Perto de 15 milhões de subutilizados.
27 milhões sem proteção previdenciária (2024).
Todos são números oficiais.
Todos são verdadeiros ao mesmo tempo.
O dado não está errado. Nossa interpretação dele é que pode estar preguiçosa.
Seria igualmente desonesto contar apenas o lado ruim.
O emprego formal está crescendo.
O Novo Caged registrou saldo de 58.568 postos com carteira em julho e acumula 972.203 novos vínculos em 2026. A PNAD também registrou recorde de 39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado.
São resultados relevantes. Vale notar, aliás, que o saldo de julho foi o menor do ano, sinal de que o ritmo de geração de vagas está desacelerando no segundo semestre.
Mais um motivo para calma.
O Brasil está, portanto, fazendo várias coisas ao mesmo tempo: reduzindo o desemprego, aumentando o emprego formal, reduzindo lentamente a informalidade e ainda convivendo com uma massa enorme de trabalhadores informais e desprotegidos.
A realidade não cabe nem no "está tudo ótimo", nem no "nada melhorou".
E foi justamente essa tensão que apareceu na conversa com o varejo.
Quem administra uma grande operação sabe que sua concorrência por trabalhadores já não é apenas a empresa do outro lado da rua.
Quem trabalha faz uma conta muito mais ampla: quanto entra no bolso, quanto custa chegar ao emprego, quanto tempo perde no transporte, quem fica com o filho e quanta autonomia terá sobre a própria vida.
O emprego formal passou a disputar pessoas com modelos que prometem flexibilidade, autonomia e dinheiro imediato.
Prometem é a palavra.
Flexibilidade não significa necessariamente boa renda. Autonomia não é proteção. Ganhar mais hoje não significa construir segurança econômica para os próximos vinte anos.
Mas responder a tudo isso dizendo que "as pessoas não querem mais trabalhar" é cômodo demais.
Querem.
Só estão fazendo uma conta diferente.
É aqui que precisamos subir o nível da conversa.
A legislação trabalhista tem uma função legítima e indispensável: proteger quem trabalha. E não há consenso, entre os próprios economistas, de que ela seja a causa principal da informalidade brasileira. Há quem defenda que custo e rigidez empurram gente para fora da carteira, e há quem mostre que a informalidade cai quando a economia cresce, não quando se desregulamenta. A briga não está ganha por nenhum dos lados.
Mas, se as relações de trabalho mudaram, é perfeitamente legítimo discutir se as instituições que as organizam também precisam evoluir.
Talvez a discussão não devesse ser escolher entre proteção ou flexibilidade.
Talvez o desafio brasileiro seja finalmente conseguir oferecer as duas.
Depois desses dois dias, minha maior conclusão foi outra.
Precisamos colocar a bola no chão.
"Essa geração não quer trabalhar."
"Falta mão de obra."
"O desemprego está no menor nível da história."
Cada frase pode carregar um pedaço da verdade. Nenhuma explica o Brasil.
Falar de trabalho é falar também de educação, renda, moradia, transporte, saúde, creche, formação, segurança e perspectiva de futuro.
Queremos entender o comportamento das pessoas dentro do trabalho sem entender a vida que elas levam fora dele.
Os educadores enxergam uma parte. As empresas enxergam outra. O governo mede outra. E o trabalhador vive todas ao mesmo tempo.
O desemprego de 5,3% merece ser comemorado.
Mas calma lá.
Se cerca de 38 milhões de brasileiros ainda trabalham na informalidade e, na última medição disponível, 27 milhões de trabalhadores entre 16 e 59 anos estavam sem proteção previdenciária, ainda existe uma enorme distância entre ter trabalho e ter trabalho protegido, sustentável e capaz de melhorar uma vida.
Comemorar o número é fácil.
Fazer com que ele represente uma vida melhor é o que separa estatística de resultado.