(Divulgação/Divulgação)
Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 10h46.
Aos 17 anos, Igor Moreira deixou o sistema socioeducativo em Belo Horizonte com a vida em suspenso. “Eu traficava, roubava, vivia perdido”, lembra.
Na unidade, conheceu o curso de panificação e, mais tarde, ao ingressar como jovem aprendiz na Rede Cidadã, encontrou o ponto de virada. “Foi como uma boia de salvação. Eu queria uma vida nova”, diz.
Hoje, Igor é confeiteiro e vendedor de alfajores e a trajetória que o tirou da marginalidade sintetiza o impacto de uma metodologia que vem atraindo atenção de empresas e especialistas em gestão de pessoas.
Fundada há 23 anos, a Rede Cidadã une empresas, poder público e sociedade civil para promover a integração de pessoas em vulnerabilidade ao mundo do trabalho. Mais de 150 mil brasileiros já passaram por seus programas de aprendizagem, estágio e projetos sociais visando a inclusão produtiva.
A base da metodologia socioemocional é simples, mas profunda, pois promove o autoconhecimento, o desenvolvimento emocional e o senso de responsabilidade como pilares da formação profissional, por meio das três dimensões do eu: pessoal (consciência interna), interpessoais (relações) e transpessoal (sentido e propósito).
O método reflexivo-vivencial não se limita apenas ao cognitivo. É preciso senti-lo, vivê-lo, pois a emoção está no corpo, não na mente. Para isso, a forma de aprendizado inclui abordagens como meditação, comunicação não-violenta (CNV), teatro do oprimido, respiração circular, biodança clínica e movimentos sistêmicos.
Os reflexos da metodologia podem ser mensurados em números. Um estudo conduzido pela Accenture mostrou que jovens que participam dessa formação têm taxa de permanência três vezes maior no emprego em relação a outros programas de inclusão produtiva – após 12 meses, 74% dos que têm acesso ao método da Rede Cidadã permanecem no trabalho, enquanto os demais chegam a apenas 24%, no mesmo período.
“Trabalhar o emocional é tão importante quanto treinar o técnico”, afirma Fernando Alves, presidente da Rede Cidadã e autor do livro O Valor da Vida no Trabalho.
“Quando as pessoas aprendem a reconhecer seus valores, a lidar com frustrações e a compreender o propósito do que fazem, tornam-se mais estáveis e comprometidas e as empresas percebem isso de forma direta, com menos rotatividade e melhor clima organizacional”, ressalta.
Fernando explica que a metodologia atua em quatro dimensões — pessoal, social, profissional e integral —, combinando momentos de reflexão e vivências práticas que estimulam empatia, escuta ativa e responsabilidade coletiva.
“O que se aprende é aplicável no trabalho e na vida. Não se trata de uma teoria, mas de uma prática que reorganiza o olhar do indivíduo sobre si e sobre o outro”, explica.
A transformação é também uma nova visão de carreira e liderança. Para Fernando, a trajetória profissional sustentável se constrói no equilíbrio entre propósito e resultado. “O mercado não precisa de profissionais perfeitos, mas de pessoas conscientes das suas limitações e potências, capazes de crescer junto com o negócio. É isso que o socioemocional ensina”, assinala.
Essa combinação entre performance e humanidade tem sido o ponto de virada para companhias que enfrentam desafios de retenção e engajamento.
“As empresas que adotam práticas socioemocionais economizam recursos, reduzem o estresse nas equipes e fortalecem sua reputação como lugares que cuidam de gente”, complementa Fernado Alves. Prova disso é que 75% das pessoas que passam pelo método permanecem mais de um ano no trabalho.
Os resultados começam a aparecer em dados e, depois, em cultura. Empresas parceiras relatam queda significativa na rotatividade, melhora na comunicação interna e crescimento na produtividade de equipes formadas por profissionais que passaram pela metodologia.
“Quando o colaborador entende o porquê do seu trabalho, ele entrega mais, precisa de menos supervisão e se engaja de verdade”, observa Fernando. “A liderança também muda, porque aprende a escutar, a mediar conflitos e a conduzir equipes com empatia — uma competência cada vez mais valorizada na gestão moderna”, diz.
Para Acácia Aguirre, de 41 anos, o processo começou quando ela entrou no Programa Operação Trabalho (POT), em São Paulo. Mãe de seis filhos, estava afastada do mercado havia anos.
“Eu só queria um emprego, algo que me permitisse cuidar dos meus filhos”, conta. Ao participar das vivências socioemocionais, descobriu algo maior. “Aprendi a desacelerar, a respirar, a me olhar. Eu achava que autocuidado era luxo, mas entendi que era o primeiro passo para cuidar dos outros.”
Hoje, Acácia é agente de ação social da própria Rede Cidadã e aplica, em seu trabalho, os aprendizados que transformaram sua rotina. “A metodologia me ensinou a identificar meus limites e planejar meus objetivos. Isso reflete diretamente no meu desempenho e no modo como ajudo outras pessoas.”
Fabíola Botelho dos Santos também teve sua vida transformada após conhecer a Rede Cidadã em 2024.
Após um ano desempregada, ela se inscreveu na Trilha de Desenvolvimento, em parceria com a Suzano, buscando uma vaga. “Entrei pensando no emprego, saí transformada pela formação”, diz.
Durante o processo, participou de oficinas sobre empatia, comunicação consciente e propósito. Pouco depois, foi contratada pela própria instituição.
“Eu já me sentia parte da Rede antes mesmo da entrevista”, lembra Fabíola, hoje supervisora de projetos.
“Em um ano e meio, cresci mais do que imaginei. Aprendi que sucesso é também fazer os outros crescerem”, avalia.
O alcance da metodologia vai além das histórias individuais. A Rede Cidadã articula uma rede com 3.600 empresas privadas, 700 organizações sociais e 2.700 voluntários, conectando aprendizado humano e resultado econômico. Para Fernando Alves, esse é o ponto em que o desenvolvimento pessoal se converte em impacto coletivo.
Segundo ele, quando uma empresa investe em competências socioemocionais, ela está contribuindo para a vitalidade do território em que atua. “Profissionais mais conscientes criam ambientes de trabalho mais estáveis, e ambientes estáveis geram economias locais mais equilibradas”, resume.
No âmbito pessoal, os impactos da metodologia incluem a restauração da autoestima. No coletivo, ela fortalece o senso de pertencimento e amplia a empatia, gerando maior consciência social. Além disso, há aprimoramento da comunicação, ao reconhecer que ela nasce das necessidades internas e que o outro também possui as suas, favorecendo o diálogo e a resolução de conflitos.
A ressignificação dos vínculos familiares e relações de trabalho, fortalecendo redes de apoio e confiança, e a promoção da coerência existencial e clareza de projeto de vida, alinhando propósito pessoal e ação do mundo, são outros benefícios proporcionados pela metodologia socioemocional.
A Rede Cidadã planeja expandir, nos próximos anos, seus programas voltados à tecnologia, sêniores, pessoas em situação de rua e medidas socioeducativas. A meta é ampliar o alcance da metodologia e consolidar uma nova visão sobre o trabalho — não apenas como meio de subsistência, mas como espaço de crescimento humano e social.
Ao final, o ciclo que começa com o autoconhecimento se traduz em produtividade, engajamento e desenvolvimento econômico. Como resume Fernando Alves, “a empresa que aprende a cuidar de pessoas descobre o seu verdadeiro diferencial competitivo”.