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Vida corporativa: Como era trabalhar antes do WhatsApp

Um guia rápido de emergência para profissionais da nova geração, caso o mundo acabe de novo

Por Rodrigo Pinotti*

Segunda-feira, 4 de outubro de 2021. Meio-dia. Caiu tudo — WhatsApp, Facebook, Instagram foram os mais famosos, mas o Teams também deu pau (isso a Globo não mostra), a internet inteira oscilava e, catástrofe das catástrofes, até o Telegram estava meio instável. Se o Twitter também tivesse saído do ar, seria o caos generalizado e a queda das Instituições da República.

O Facebook foi lançado em 2004, o WhatsApp em 2009 e, nesse meio-tempo, tivemos o Orkut — esses dias um moleque de 20 anos perguntou “o que esse app fazia?”, então melhor deixar para lá. A questão principal é que, nestas últimas duas décadas, muita gente entrou no mercado e conhece apenas esta realidade, sem nem desconfiar que tudo era muito diferente antes da internet mudar o jeito que nos relacionamos com os outros.

Este texto é para você, Geração Z, que nunca viu um fax funcionando. É também para você, cringe saudosista, que tirou onda esta semana quando o mundo voltou a ser analógico e se sentiu em casa de novo. E fica de registro para facilitar o trabalho de algum arqueólogo digital que daqui a 200 anos talvez esteja escavando os primórdios da rede para recontar a história destas décadas atrasadas:

Existia (e incrivelmente ainda existe) uma coisa chamada telefone

Na segunda-feira, meu telefone começou a se comportar de uma maneira estranha, apitando sem parar e mostrando mensagens que eu nunca tinha visto, “chamada recebida” e “atender”. Apertei o botão verde e uma pessoa começou a falar sem parar, enquanto eu não achava o botão de pausar. Lembrei então que antes, nos escritórios, cada mesa tinha um telefone (juro), e que antes disso essa tecnologia era algo tão fantástico que você precisava ser acionista da empresa estatal que vendia as linhas para poder ter um em casa. Usávamos o telefone até para pedir pizza, veja você. Sim, o telefone ainda existe e pode ser uma ferramenta fantástica — falar com as pessoas é muito mais rico e com mais elementos do que apenas escrever uma mensagem, e o uso do tom de voz e da fluência de uma conversa ajuda a evitar muitos mal-entendidos. Para questões sérias, prefiro sempre um telefonema a uma mensagem.

As pessoas falavam umas com as outras, pessoalmente

Hoje todo mundo reclama de gente que grava podcasts no WhatsApp, mas antes das redes sociais e dos apps de mensagens todas as conversas eram feitas em áudios. A diferença é que o áudio era ao vivo e instantaneamente apagado: não ficava gravado em lugar nenhum, a não ser que você usasse um gravador (essa é outra história). A interação social presencial talvez nunca mais seja a mesma após a internet e a pandemia, mas ela traz vantagens inegáveis, como o supracitado tom de voz e a linguagem corporal — não, não é a mesma coisa que fazer pelo Zoom. Fora que é possível rachar uma cerveja ou ter companhia para o almoço, se sobrar tempo.

Era preciso ir até os lugares

Eu sou jornalista de formação e comecei minha carreira em redações, onde se dizia que lugar de repórter é na rua. Não sei como é hoje, mas sei que as pessoas precisam sair muito menos para resolver seja lá o que for. O deslocamento físico ainda é realidade para muitos trabalhadores (no comércio, nas indústrias etc), mas nos últimos tempos tornou- se uma opção quase nunca escolhida para o pessoal dos pisos corporativos. Há uma cena de De Volta para o Futuro III na qual Doc Brown conta para um cowboy do Velho Oeste que, no futuro, as pessoas corriam por diversão, e o cowboy solta uma gargalhada. Bem-vindo ao futuro.

Não dava para jogar no Google, não existiam tutoriais no YouTube

Antes da internet, se tínhamos alguma dúvida sobre algo, nós perguntávamos para outras pessoas que supostamente sabiam mais do que a gente (ou que enganavam bem), ou procurávamos informações em objetos feitos de papel, com letras dentro, chamados livros. Corrijo-me: até existiam tutoriais, mas em formato de livros — ou manuais. Talvez valha a pena refazer a biblioteca para o caso de o mundo acabar — ou deixar algumas baterias extras carregadas para o Kindle.

Almoçava-se olhando para a comida (ou para outra pessoa)

É verdade, ninguém tirava fotos da comida. Juro. As pessoas conversavam durante o almoço — o que, pensando em termos pandêmicos, é realmente um pouco nojento. Se você estivesse sozinho, também podia-se ler uma coisa que se chamava revista.

Escrevíamos as coisas à mão e não dava para mudar a fonte

Por isso havia algo chamado Caligrafia, que supostamente servia para aprendermos a desenhar as letras de forma bonita. A eficácia disso é duvidosa, visto que muitas pessoas (como eu e todos os médicos do mundo) nunca conseguimos deixar de produzir apenas um garrancho indecifrável. Se era o caso de mandar uma mensagem escrita antes do WhatsApp, pois, escrevíamos em um pedaço de papel. Se fosse pequeno, chamávamos de bilhete. Se fosse grande, chamávamos de carta. Não, o email também não existia.

Tudo era mais lento

Por conta de tudo o que vai acima, a vida passava mais devagar. Afinal, prestar atenção nas pessoas, ir fisicamente aos lugares, procurar coisas na biblioteca, tudo isso consome mais tempo. Claro, a produtividade no trabalho subiu com as ferramentas online, assim como a qualidade e a capacidade criativa de todos (OK, há controvérsias sobre este último ponto e o Ctrl+C / Ctrl+V está aí para me desmentir). Por outro lado, nossa capacidade contemplativa diminuiu, e isso talvez esteja realmente fazendo muita falta para todos.

O novo nem sempre é ruim. Pelo contrário, o novo é feito para ser ótimo. Mas o velho muitas vezes ainda é capaz de nos ensinar lições preciosas. No passado, muita coisa era mesmo mais difícil. Mas, asseguro, podia ser bem mais divertido do que é hoje.

*Rodrigo Pinotti é sócio-diretor da FSB Comunicação

 Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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