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PLAY: a pseudodisputa entre dubladores e inteligência artificial 

Esta semana, Danilo Vicente fala sobre dublagem, inteligência artificial e a possibilidade de filmes dublados com as vozes originais dos atores

Voiceover artist voice actor in vocal recording studio with larg diaphragm microphone and antipop shield. (eduardolive/Getty Images)

Voiceover artist voice actor in vocal recording studio with larg diaphragm microphone and antipop shield. (eduardolive/Getty Images)

Danilo Vicente
Danilo Vicente

Sócio e diretor-geral da Loures Consultoria - Colunista Bússola

Publicado em 28 de outubro de 2023 às 07h00.

Ouvir Morgan Freeman falando em português. Ou William Bonner apresentando o Jornal Nacional em inglês. Talvez um narrador de futebol de rádio, como Eder Luiz, falando freneticamente em japonês. Tudo isso em breve será possível. 

Em setembro, o Spotify anunciou um projeto-piloto para tradução de conteúdo com a própria voz da pessoa. A iniciativa, chamada Voice Translation, realizada em parceria com a OpenAI, criadora do ChatGPT, simula a voz original de quem está falando para geração de conteúdo em outro idioma.

No mesmo mês, o Google apresentou formalmente uma iniciativa semelhante: Aloud, ferramenta de dublagem que traduz a voz de um youtuber em outro idioma. Além de inglês e espanhol, o português está contemplado nos testes.

Parece bom. Na verdade, muto bom. E é. Porém, semana passada a imprensa veiculou protestos de dubladores brasileiros. A pergunta deles é: se hoje há esforços para se reproduzir vozes de podcasters e youtubers, o que acontecerá quando a possibilidade chegar a programas de TV e filmes? Na visão deles, desemprego de dubladores é apenas o começo.

É realmente provável que, neste caminho, a profissão sofra um baque. E de jeito nenhum torço para isso. Mas vou me permitir copiar Elio Gaspari, que em sua mais recente coluna em jornal criticou o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, por ser contra carros elétricos por supostamente ameaçarem empregos.

“Assim como os carros a gasolina eram uma ameaça aos fabricantes de carruagens e o navio a vapor ameaçava os fabricantes de velas”, escreveu Gaspari.

Ele tem razão. E o mesmo pensamento vale para os dubladores brasileiros. Um manifesto supostamente apoiado por cerca de 1.500 profissionais do mercado e por empresas de dublagem diz que a “inteligência artificial não deve ser usada para reproduzir vozes de atores em outros idiomas para Língua Portuguesa Brasileira com a finalidade de substituir os dubladores.” 

Ainda segundo os organizadores, a dublagem, “como toda manifestação cultural, também representa o momento em que o povo está vivendo e isso uma IA nunca vai conseguir emular. Então, é mais do que simplesmente manter trabalhos, é manter a representação da nossa cultura”.

É de assustar. Os dubladores brasileiros querem uma reserva de mercado com o argumento de que uma manifestação cultural será encerrada? Parece-me uma alegação igual ao que vendedores de enciclopédia poderiam ter feito. Afinal, eles distribuíam cultura. Os lanterninhas de cinema também facilitavam o acesso a cultura.

De maneira nenhuma quero menosprezar o trabalho de dublagem brasileiro, um dos melhores do mundo. Entretanto, pensar em impedir o avanço tecnológico é tão absurdo quanto tentar impedi-lo.

A dublagem brasileira tem, sim, de mostrar seu valor. E não tentar um lobby em Brasília para impedir um avanço que, se bem realizado, será benéfico para o consumidor.

Ninguém tem saudade das carruagens. Se os dubladores mantiverem este viés, também serão esquecidos.

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