Em nova fase, mercado de inovação exige modelos com fundamentos e eficiência operacional (CSA Images/Getty Images)
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Publicado em 24 de junho de 2026 às 13h00.
Por Guilherme Skaf Amorim*
O ecossistema de startups passou boa parte da última década confundindo abundância de capital com maturidade de mercado. Captar investimento era quase um símbolo automático de validação. Rodadas bilionárias aconteciam em sequência, valuations disparavam em poucos meses e a velocidade parecia importar mais do que a solidez do negócio. Hoje, o cenário é outro.
Segundo a CB Insights, o venture capital global movimentou cerca de US$469 bilhões em 2025, maior volume desde 2022, mas com um número menor de transações. Isso indica que o capital continua circulando, porém de forma muito mais criteriosa.
Parte do mercado interpreta esse movimento como uma retração. Eu vejo de outra forma. Depois de anos marcados por excessos, o venture capital começa a retomar a lógica que deveria ter sustentado o setor desde o início, com decisões mais ancoradas em fundamentos, eficiência e capacidade real de execução.
Isso não significa que o dinheiro desapareceu, mas sim que ele deixou de ser distribuído de forma indiscriminada. E talvez essa seja a principal ruptura do momento atual.
Os ciclos baseados exclusivamente em liquidez, como presenciamos, costumam produzir distorções difíceis de sustentar quando o cenário macroeconômico muda. E ele mudou. O aumento global das taxas de juros reposicionou o custo do capital e trouxe de volta uma pergunta que havia perdido espaço nos últimos anos: esse negócio realmente é sustentável?
Parece básico, mas essa questão deixou de ocupar o centro de muitas decisões no auge da euforia tecnológica. Em diversos casos, o mercado financiou muito mais expectativa futura do que capacidade concreta de execução.
O resultado foi um ecossistema inflado por métricas artificiais e valuations desconectados da realidade operacional das empresas. Em algum momento, a lógica do venture capital começou a se aproximar mais de uma dinâmica especulativa do que de um modelo disciplinado de alocação de risco.
Por isso, a seletividade atual é menos um problema de retração e sim um mecanismo de correção. O investidor voltou a analisar fundamentos, governança, eficiência de capital e clareza estratégica com profundidade. E isso inevitavelmente muda o perfil das empresas que conseguem avançar. Narrativas continuam importantes, mas já não sobrevivem sozinhas.
Existe uma outra consequência positiva, e menos discutida, desse movimento. Períodos em que o capital se torna mais seletivo costumam formar empreendedores mais preparados. Fundadores passam a construir empresas pensando em resiliência, e não apenas em crescimento acelerado. As decisões deixam de ser tomadas exclusivamente para agradar uma próxima rodada e passam a considerar a sustentabilidade de longo prazo.
Isso não significa defender um mercado avesso ao risco. Venture capital continua sendo, por definição, uma indústria movida por apostas. Mas existe uma diferença importante entre assumir riscos calculados e financiar crescimento sem critério.
Os períodos mais saudáveis para o ecossistema são aqueles em que investimento, ambição e disciplina conseguem coexistir. E o momento atual talvez seja justamente o início desse reencontro.
O ambiente de startups perdeu uma certa ilusão de abundância infinita. E isso é bom. Porque dinheiro nunca foi sinônimo de consistência, embora durante algum tempo os dois conceitos tenham sido tratados como equivalentes dentro do ecossistema. O excesso de liquidez acelerou empresas, mas também mascarou problemas básicos de execução, produto e sustentabilidade.
Agora, com investidores mais criteriosos, muitas dessas fragilidades ficaram visíveis ao mesmo tempo. E talvez esse seja o choque de realidade mais importante que o setor precisava enfrentar, porque existe uma distância enorme entre criar empresas que sabem captar recursos e criar negócios que sabem sobreviver sem depender constantemente deles.
No fim, o que parece um ciclo mais seletivo é, na prática, excesso de aprendizado. O que mudou não foi a disposição de investir, mas a tolerância em confundir potencial com performance.
*Guilherme Skaf Amorim é Head da Rosey Ventures, Corporate Venture Capital do Grupo Marista