Paisagem panorâmica das montanhas Dolomitas, destacando o relevo desafiador (Christophe Pallot/Getty Images)
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Publicado em 25 de junho de 2026 às 13h00.
Por Renata Farah*
Estamos hiperconectados e profundamente isolados. No ecossistema corporativo atual, a eficiência digital atingiu o seu ápice, mas a profundidade das relações humanas despencou. O executivo moderno inicia o dia com dezenas de mensagens no Slack, passa por sucessivas reuniões no Zoom e encerra a jornada adicionando conexões automáticas no LinkedIn.
No entanto, ao final da semana, a sensação predominante é de superficialidade.
O networking tradicional, moldado por salas de reunião frias, coquetéis corporativos engessados e trocas mecânicas de cartões de visita, faliu. Em um mundo onde a IA consegue simular interações e automatizar abordagens de vendas, a presença autêntica transformou-se no ativo mais escasso — e, portanto, no maior diferencial competitivo do mercado.
É nesse cenário de saturação digital que emerge o conceito de HumanTech: o uso do design de experiência e da intencionalidade para projetar as pessoas de volta ao mundo físico, criando as condições exatas para que a confiança se torne inevitável.
Não se trata de negar a tecnologia, mas de reposicioná-la como meio, e nunca como fim.
Em uma mesa de negociações ou em um painel de debate, líderes são condicionados a performar. Títulos, cargos e conquistas passadas funcionam como escudos institucionais. Contudo, grandes parcerias de negócios não nascem de CNPJs; nascem da fricção e da identificação entre CPFs.
Para que a verdadeira confiança se estabeleça entre tomadores de decisão de alto escalão, é preciso desarmar essas defesas. E nada faz isso de forma mais rápida do que o movimento e o desafio físico compartilhado.
Quando um grupo de CEOs e investidores troca o terno por equipamentos de montanhismo para encarar uma rota de ciclismo pelas Dolomitas ou uma escalada em encostas alpinas, a dinâmica muda completamente. Na subida de uma montanha, o crachá perde o valor. O cansaço é real, o oxigênio é o mesmo para todos e o esforço mútuo substitui a bajulação.
O status dá lugar à vulnerabilidade. E é exatamente na vulnerabilidade, quando ninguém está performando, que as conversas impossíveis em uma sala de conferências tornam-se óbvias.
O movimento gera conexão; a burocracia da reunião, não. Ao tirar o corpo da inércia das cadeiras ergonômicas e colocá-lo em ambientes naturais, ativamos gatilhos biológicos e psicológicos de cooperação que o ambiente digital jamais conseguirá replicar.
A transição para essa nova era de conexões corporativas exige uma mudança de mentalidade estruturada em quatro pilares fundamentais:
O digital como meio: Dados e plataformas digitais não devem servir para reter a atenção do usuário em telas, mas para aproximar perfis complementares e viabilizar o encontro real. A eficiência deve dar espaço à empatia.
Presença como valor: O olho no olho e o tempo dedicado exclusivamente a uma interação física tornam-se o novo luxo do ambiente de negócios.
O corpo como interface: A atividade física e a superação de limites compartilhados funcionam como o verdadeiro catalisador de parcerias de longo prazo.
Tecnologia com alma: Soluções corporativas desenhadas para valorizar humanos de verdade, vivendo experiências reais e gerando capital social autêntico.
Para os líderes que ditam os rumos do mercado, o diagnóstico é urgente. Continuar operando o networking sob a lógica da quantidade digital é uma estratégia de retornos decrescentes.
O futuro dos negócios pertence àqueles que compreenderem que as parcerias mais profundas, duradouras e lucrativas são forjadas no mundo real, sob o impacto de experiências genuínas. Menos telas, mais trilhas. Menos discursos ensaiados, mais desafios compartilhados.
Afinal, as melhores decisões de negócios raramente acontecem quando estamos olhando para um slide de PowerPoint; elas acontecem quando estamos olhando para o horizonte.
*Renata Farah é fundadora e CEO da Rekonnekt, plataforma criada para fortalecer conexões presenciais no ambiente de trabalho