Mobilidade em crise: o transporte público precisa recuperar passageiros para evitar o colapso urbano
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Publicado em 17 de abril de 2026 às 07h00.
Por Richele Cabral*
As escolhas diárias de deslocamento da população ilustram um dos maiores desafios da atualidade no planejamento urbano.
O colapso viário que tanto criticamos diariamente é resultado direto da conveniência individual que passamos a priorizar.
Ao celebrarmos pela primeira vez o Dia Internacional do transporte público nesta sexta-feira, 17, numa iniciativa da União Internacional do Transporte Público (UITP), temos a oportunidade de refletir sobre as medidas necessárias para reverter esse quadro com urgência, sob o risco de sufocar a mobilidade urbana nas regiões metropolitanas, especialmente no Rio de Janeiro.
Levantamento recente da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revela uma mudança drástica ao comparar os cenários de 2017 e 2024 no Brasil.
Há sete anos, os ônibus transportavam 45% da população, atualmente esse índice diminuiu para 31%.
Ao analisar o destino desses passageiros, o uso de automóveis particulares subiu de 22% para 30%, e o de motocicletas de 5% para 11%.
No entanto, os aplicativos de transporte registraram crescimento ainda mais expressivo, passando de 1% para 11%.
No Estado do Rio, especificamente, metade dos passageiros pagantes deixou de utilizar ônibus municipais e intermunicipais nos últimos dez anos, segundo levantamento da Semove.
Assim, estamos diante do principal desafio contemporâneo: a perda de protagonismo do transporte público frente ao individual.
Os aplicativos de transporte privados, seja sob o serviço de carros ou motos, inseriram-se no mercado com a promessa de atuar como alternativa ao automóvel particular e ao táxi, incentivando a redução de veículos nas vias.
A comodidade do serviço porta a porta, a percepção de segurança ao evitar esperas em vias públicas e as tarifas que, muitas vezes, chegam perto do valor de uma passagem criaram uma ilusão de vantagem.
Na prática, passaram a competir com os ônibus e outros modos coletivos, impactando a mobilidade urbana de toda a sociedade pela falta de fiscalização e regulamentação.
É preciso entender que um sistema de transporte público não promove somente o deslocamento da sua população.
Incentiva a inclusão social, com a adoção de políticas tarifárias que beneficiam os mais vulneráveis.
Estimula também a economia com o fortalecimento do comércio local, viabilizando a integração entre regiões distantes.
Colabora ainda para a redução da violência no trânsito e contribui, significativamente, para a redução das emissões de poluentes.
Mas não podemos atribuir o aumento caótico do número de veículos nas ruas somente a uma escolha individual.
Sem o financiamento adequado ao longo dos anos, o sistema de transporte coletivo se tornou menos atrativo para o passageiro, que busca cada vez mais previsibilidade em seus deslocamentos.
O custo do transporte continua sendo um fator importante, mas não o único.
Viagens mais rápidas se tornaram um desejo expresso para aqueles que almejam mais tempo livre para sua vida pessoal.
Investir na infraestrutura do transporte coletivo se tornou primordial para atender aos anseios da população e tornar as cidades mais acessíveis, organizadas e integradas.
O custo dessa transição é elevado. Ao ignorar o transporte coletivo em favor do individual, a sociedade enfraquece a exigência por melhorias no setor público.
Para romper esse ciclo, a solução não consiste em restringir a tecnologia, mas em restaurar a eficiência do transporte público.
Por essa razão, a aprovação do Marco Legal do Transporte torna-se a solução estrutural mais urgente da atualidade.
Configura-se como o único instrumento necessário para reverter a desvalorização do transporte público, atraindo os passageiros de volta por meio de escolhas conscientes, e não por escassez de alternativas.
A nova legislação ataca o problema na raiz ao estabelecer um foco rigoroso em indicadores de qualidade, criando metas claras de rapidez, eficiência e necessidade de renovação da frota.
O passageiro precisa, e merece, ônibus novos, limpos, frequentes e rápidos.
Para que isso saia do papel, o projeto estabelece garantias de financiamento.
O modelo atual de custeio, baseado exclusivamente na tarifa paga pelo usuário na catraca, demonstra-se insustentável.
O Marco Legal do Transporte traz segurança jurídica e fontes extra tarifárias para garantir que o sistema se sustente de forma saudável.
Essa diversificação de recursos e a distribuição equitativa dos custos viabilizarão a manutenção de tarifas módicas e acessíveis, devolvendo a competitividade do ônibus frente aos modos individuais.
No Dia Internacional do Transporte Público, o coletivo não pode ser visto apenas como uma alternativa para quem não tem condições de utilizar o transporte individual.
Deve ser visto como uma opção estratégica consciente de gestores públicos para torná-lo a espinha dorsal de uma cidade inteligente, funcional e sustentável.
Aprovar o Marco Legal do Transporte é um dos caminhos viáveis para sair desse impasse, que deve ter também o apoio e a participação direta de municípios e estados na valorização do sistema público de transporte.
Caso contrário, corremos o risco de não trazer o passageiro de volta e assistir ao colapso da mobilidade urbana nas grandes cidades.
*Richele Cabral é Diretora de Mobilidade da Semove e Vice-Presidente da Associação Internacional do Transporte Público (UITP) da América Latina.