Pontos de recarga precisam ser prioridade (Michael H/Getty Images)
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Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 17h00.
Por Clemente Gauer*
O Brasil vem consolidando uma trajetória notável na transição para fontes de energia sustentáveis, superando a média global. A crescente integração dos biocombustíveis na matriz energética nacional demonstra a capacidade do país de inovar, gerar desenvolvimento e reduzir emissões.
Ao mesmo tempo, com uma matriz elétrica 87% renovável e atualmente em situação de excedente de energia, o Brasil tem uma oportunidade única de acelerar a eletrificação do transporte de cargas — um dos maiores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Em 2024, o Brasil registrou suas menores emissões de gases de efeito estufa em 16 anos: 2,14 bilhões de toneladas, uma queda de 16,7% em comparação com 2023, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).
Esse resultado reflete o impacto das políticas de combate ao desmatamento e recoloca o país na vanguarda da descarbonização no cenário internacional, especialmente por recuperar rapidamente uma trajetória de redução que muitos grandes emissores ainda não conseguiram alcançar.
Ainda assim, o ritmo atual não é suficiente para alinhar o Brasil às metas climáticas globais. Para consolidar essa liderança e preencher a lacuna existente, será crucial acelerar a descarbonização de setores estratégicos, especialmente o transporte de cargas, responsável por uma parcela significativa das emissões remanescentes.
Reduzir as emissões de CO₂ não é apenas um compromisso climático, mas também uma estratégia para aumentar a competitividade, reduzindo custos e melhorando a eficiência. Alinhar-se à Agenda 2030 e aos ODS abre novas oportunidades de negócio e fortalece setores que combinam inovação e impacto positivo.
Nesse contexto, os veículos pesados eletrificados surgem como um caminho central para a descarbonização.
As tecnologias de baterias avançaram significativamente, oferecendo químicas mais estáveis, melhor gerenciamento térmico, maior durabilidade e possibilidades de aplicações de segunda vida e reciclagem.
Em fevereiro de 2025, o Brasil já contava com mais de 14.800 estações de recarga públicas e semi públicas — um aumento de 22% em três meses.
Políticas como o Programa MOVER, que prevê incentivos de R$ 19 bilhões até 2028, estão construindo as bases para a eletrificação reduzindo custos iniciais e incentivando pesquisa e desenvolvimento, além de cortes mensuráveis nas emissões.
O relatório “Dez razões para o Brasil liderar o uso de caminhões elétricos na América Latina”, da campanha Gigantes Elétricos, destaca a importância dos investimentos em infraestrutura. Para viabilizar a eletrificação em larga escala, o país precisará de cerca de 15.000 pontos de recarga nos próximos anos.
Isso abre oportunidades de longo prazo para investidores e fabricantes, além de estimular inovação em logística e serviços digitais. Experiências internacionais mostram que países que se antecipam no desenvolvimento da infraestrutura aceleram a adoção e consolidam liderança no setor.
Iniciativas como o projeto Laneshift e-Dutra demonstram que a colaboração entre indústria e governo pode superar barreiras estruturais.
A maior parte do transporte de cargas no corredor Sul-Sudeste já opera dentro da autonomia dos modelos atuais de caminhões elétricos, comprovando que a transição é tecnicamente viável hoje.
Para as montadoras, investir agora (da expansão da infraestrutura de recarga ao aumento da oferta de veículos) significa destravar ganhos ambientais e econômicos e garantir liderança no mercado.
Além dos benefícios econômicos, os caminhões elétricos eliminam emissões locais e podem reduzir em até 46% as emissões setoriais de GEE até 2050.
Eles também contribuem para cidades mais saudáveis, evitando bilhões em custos associados a doenças relacionadas à poluição. A transição elétrica representa uma oportunidade econômica, industrial e social para redefinir o modelo de desenvolvimento do Brasil.
Cada Real investido gera retornos ainda maiores em empregos, inovação e competitividade. O desafio é garantir uma transição justa, com políticas que promovam a requalificação da força de trabalho e a inclusão em novas cadeias produtivas.
Assim como os biocombustíveis marcaram uma revolução energética no final dos anos 1990, a eletrificação agora impulsiona uma nova fase da transição econômica do Brasil: mais limpa, mais eficiente e preparada para o futuro.
O país tem a chance de reafirmar sua vocação histórica para a inovação, proteger o planeta e garantir prosperidade para sua população.
*Clemente Gauer é diretor da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e parceiro da iniciativa Gigantes Elétricos.