Sucessão não é apenas sobre quem assume o cargo, mas sobre como o processo é percebido por investidores (baona/Getty Images)
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Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 17h00.
Por Gilson Faust*
A troca de CEO costuma ser apresentada ao mercado como um movimento natural, planejado e, muitas vezes, revestido pelo discurso da continuidade estratégica.
Na prática, porém, a sucessão no comando executivo é um dos eventos mais sensíveis da Governança Corporativa, com potencial de gerar impactos relevantes sobre valor de mercado, percepção de risco, cultura organizacional e capacidade de execução, mesmo em grandes companhias.
A mudança de liderança não se resume à substituição de um nome no organograma; trata-se de um momento que reabre expectativas, revisa apostas e testa a solidez das estruturas de governança.
Um caso recente no setor de meios de pagamento ilustra com clareza esse dilema. Ao anunciar a transição de seu principal executivo, a companhia buscou sinalizar previsibilidade e alinhamento estratégico, reforçando a ideia de continuidade.
Ainda assim, a reação negativa do mercado evidenciou um ponto central para o debate de governança: sucessão não é apenas sobre quem assume o cargo, mas sobre como o processo é percebido por investidores, analistas e demais stakeholders.
A empresa comunicou a saída programada de seu CEO e a escolha de um sucessor interno, executivo com histórico relevante na organização e profundo conhecimento financeiro do negócio. A narrativa adotada enfatizou que a estratégia de longo prazo permaneceria inalterada e que a transição ocorreria de forma ordenada.
Do ponto de vista formal, o movimento reúne elementos frequentemente associados às boas práticas de governança, como planejamento prévio de sucessão, valorização de talentos internos e preservação da memória institucional por meio da permanência do executivo que deixa o cargo em posição relevante no Conselho.
Apesar disso, o mercado reagiu de forma adversa ao anúncio. A queda das ações logo após a comunicação sugere que, para os investidores, a promessa de continuidade não foi suficiente para neutralizar as incertezas inerentes a uma troca de liderança.
Esse descompasso entre a intenção da companhia e a leitura do mercado é particularmente relevante sob a ótica da Governança Corporativa, pois revela que a eficácia de um processo de sucessão não se mede apenas por sua lógica interna, mas também pela confiança que ele é capaz de gerar externamente.
A reação a trocas de CEO costuma refletir menos um julgamento imediato sobre a competência do sucessor e mais uma reavaliação do risco.
Mesmo quando a estratégia permanece formalmente a mesma, sua execução está profundamente ligada à figura do principal executivo.
CEOs concentram decisões-chave, definem prioridades e influenciam diretamente a cultura organizacional.
A mudança no comando reabre dúvidas sobre ritmo de execução, capacidade de adaptação a cenários adversos e consistência na entrega de resultados.
Há também um componente relevante de assimetria de informação. O mercado conhece o histórico do CEO que deixa o cargo, mas ainda precisa formar convicção sobre o novo líder. Até que o sucessor demonstre, na prática, sua capacidade de conduzir a empresa em diferentes ciclos econômicos e estratégicos, é natural que o prêmio de risco aumente.
Esse movimento tende a ser ainda mais sensível quando o executivo que sai esteve fortemente associado a um período de recuperação, crescimento ou transformação da companhia.
Nesse contexto, outro ponto sensível diz respeito ao equilíbrio entre continuidade estratégica e independência de gestão.
A permanência do CEO anterior em posição relevante no Conselho pode ser interpretada como um fator de estabilidade, ao preservar conhecimento e facilitar a transição.
Ao mesmo tempo, pode gerar questionamentos sobre o grau de autonomia do novo CEO e sobre a real distribuição de poder na condução da estratégia.
Trata-se de um debate clássico de governança, no qual o desafio está em oferecer suporte ao novo líder sem comprometer sua capacidade de imprimir visão própria e responder a novos contextos.
O episódio reforça que sucessão deve ser encarada como um processo contínuo, e não como um evento pontual. Escolher um nome é apenas uma das etapas.
Preparar o mercado, alinhar expectativas, comunicar riscos e demonstrar como a governança sustentará a nova liderança são fatores igualmente relevantes.
Em um ambiente de elevada volatilidade e crescente escrutínio por parte de investidores, comunicação clara e consistente tornou-se parte indissociável da boa governança.
Esse episódio também desmonta a ideia de que escala e maturidade blindam empresas contra os efeitos de uma transição de liderança.
Grandes corporações, justamente por sua relevância e visibilidade, tendem a sentir de forma mais intensa os impactos simbólicos e financeiros de mudanças no topo da gestão.
Quanto maior a companhia, maior a atenção do mercado e maior a exigência por sinais claros de estabilidade e previsibilidade.
A troca de CEO é, portanto, um dos testes mais relevantes da Governança Corporativa. Mesmo quando há planejamento e intenção declarada de continuidade, o mercado pode reagir negativamente se perceber aumento de risco ou falta de clareza sobre o futuro.
Em um cenário em que confiança é um ativo cada vez mais escasso, conduzir bem a sucessão tornou-se tão estratégico quanto conduzir o próprio negócio.
*Gilson Faust é diretor e consultor sênior da GoNext.