Liderar não é preencher todos os vazios com opinião (10'000 Hours/Getty Images)
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Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 15h00.
Por Edson Alves*
A cena é comum. Reunião marcada, dados organizados, indicadores na tela. A resposta certa aparece rápido. Mesmo assim, o problema volta na semana seguinte.
A operação segue funcionando, mas algo ali insiste em não encaixar. Já vi isso acontecer mais vezes do que gostaria de admitir.
No começo da jornada como líder, saber mais ajuda. Dá segurança. Sustenta decisões. Em empresas menores, esse modelo funciona por um tempo. O fundador resolve, decide, ajusta.
Só que a empresa cresce. As pessoas crescem. E o mesmo repertório que trouxe até aqui começa a perder efeito.
Não é falta de preparo técnico. Nem de dedicação. É curioso observar como, quanto mais a estrutura aumenta, menos óbvio fica onde o problema realmente nasce.
Em operações maiores, o ruído se espalha rápido. O que antes chegava direto ao líder agora passa por camadas. Relatórios ficam mais completos. Dashboards mais bonitos.
Ainda assim, certas falhas continuam aparecendo no mesmo lugar.
Na rotina, isso surge de um jeito bem simples. Um time entrega dentro do prazo, mas sem convicção. Um processo funciona no papel, mas gera retrabalho no dia a dia.
Um cliente não reclama, mas também não volta.
O líder percebe. Analisa. Ajusta o plano. Só que o ajuste não atinge a raiz. Porque a raiz não estava nos dados. Estava no que não foi dito.
À medida que a empresa escala, escutar vira uma habilidade essencial. Não no sentido genérico, mas operacional mesmo. Escutar o que não vira slide.
O comentário atravessado no corredor. A dúvida que ninguém leva para a reunião porque parece pequena demais.
Muita empresa subestima isso. Investe em ferramentas, indicadores, processos. Tudo certo até aí. Mas esquece de desenhar o espaço onde a escuta acontece de verdade.
Sem esse espaço, a informação chega filtrada. E decisão tomada com informação filtrada costuma custar caro depois.
Escutar bem não depende só de boa vontade. Depende de estrutura. Ritmo de conversa. Proximidade com quem executa. Capacidade de sustentar silêncio quando a resposta não vem pronta.
Na prática, isso significa aceitar ouvir problemas ainda mal formulados. Situações desconfortáveis. Pontos que não têm solução imediata.
É nesse estágio que muita liderança escorrega, tentando organizar rápido demais aquilo que ainda precisa ser compreendido.
Com o tempo, fica claro que liderar não é preencher todos os vazios com opinião. É sustentar alguns vazios tempo suficiente para que o time se sinta seguro para ocupá-los com verdade.
Escutar melhor não deixa a liderança mais lenta. Pelo contrário. Evita correções constantes, reduz retrabalho, aumenta estabilidade.
A operação flui com menos atrito porque as decisões passam a refletir o que realmente acontece, não apenas o que é reportado.
Em algum ponto, o líder percebe que não precisa saber tudo. Precisa criar as condições certas para que o que importa chegue até ele.
Quando isso acontece, a empresa muda de patamar. Não por discurso. Mas porque finalmente começa a funcionar como um sistema vivo, que aprende e se ajusta de dentro para fora.
*Edson Alves é CEO da Ikatec.