Nova NR-01 exige que empresas mapeiem riscos psicossociais para garantir saúde mental no trabalho (Perawit Boonchu/Getty Images)
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Publicado em 8 de abril de 2026 às 10h00.
Por Cecília Ivanisk, fundadora da Learn to Fly.
Pela primeira vez, riscos psicossociais entram oficialmente no radar da gestão de riscos das empresas com a atualização da Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01), a diretriz fundamental de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil.
Na prática, ela baseia todas as outras NRs e fatores como sobrecarga, pressão constante, falhas de liderança e ausência de segurança psicológica deixam de ser percebidos apenas como questões subjetivas.
Eles passam a fazer parte de uma agenda estruturada, mensurável e, sobretudo, inegociável para garantir a saúde mental no trabalho.
Mas talvez o ponto mais relevante dessa mudança não esteja apenas no que a norma regulamentadora exige, e sim no que ela revela. Durante muito tempo, o debate sobre saúde mental foi tratado como uma pauta de apoio ao indivíduo.
Como se o desafio estivesse na capacidade das pessoas de lidarem melhor com a pressão. A NR-01 atualizada vem para mudar esse olhar.
Ela evidencia que o impacto sobre a saúde não está no trabalho em si, mas nas condições em que ele acontece e na forma como ele é estruturado, liderado e vivido dentro das organizações.
Os dados ajudam a dar dimensão a esse cenário. Segundo a Gallup, 1 em cada 3 pessoas no mundo afirma não ter ninguém com quem possa contar em momentos de necessidade.
Milhões de trabalhadores passam semanas sem interações sociais significativas. Ao mesmo tempo, estudos mostram que a solidão crônica pode aumentar em até 29% o risco de doenças cardíacas, 32% o risco de AVC e 50% o risco de demência.
Isso muda o patamar da conversa. Relação não é um tema de clima. É um fator de risco e também de proteção. Aqui entra um ponto pouco explorado no debate corporativo.
A ciência por trás do comportamento humano já mostrou que não somos apenas impactados por estímulos negativos, mas profundamente potencializados por estímulos positivos.
A psicologia positiva, a partir dos estudos de Martin Seligman, trouxe uma virada importante ao investigar não apenas o que adoece, mas o que faz as pessoas florescerem.
O modelo PERMA, base da psicologia positiva de Seligman, mostra que o bem-estar sustentável não é construído apenas pela ausência de estresse.
Ele depende da presença de emoções positivas, engajamento, relações de qualidade, sentido e realização, combatendo diretamente os riscos psicossociais.
E, entre esses pilares, há um que se conecta diretamente com a agenda da NR-01: relações. Do ponto de vista da neurociência, isso não é abstrato.
Relações de qualidade ativam circuitos de recompensa no cérebro, reduzem níveis de estresse e aumentam a capacidade cognitiva.
Por outro lado, a rejeição social ativa as mesmas regiões associadas à dor física, o que ajuda a explicar por que ambientes tóxicos têm impactos tão profundos e duradouros.
Ou seja, não estamos falando apenas de percepção. Estamos falando de biologia. A contradição é que, mesmo com esse nível de evidência, muitas organizações ainda tratam saúde mental no trabalho como um benefício e programas pontuais.
A NR-01 atualizada desafia exatamente essa lógica. Cumpri-la de forma consistente exige ir além do diagnóstico superficial e entrar em um território mais complexo.
Isso inclui a revisão do modelo de trabalho: questionar metas, repensar dinâmicas de liderança, revisar estruturas que incentivam urgência constante e olhar para a qualidade das relações.
Se, por um lado, o aumento dos afastamentos por questões de saúde mental expõe fragilidades, por outro, ele também abre espaço para uma transformação.
Empresas que conseguirem olhar para esse momento não apenas como uma exigência regulatória terão a chance de redesenhar a forma como o trabalho acontece.
O próprio ambiente corporativo, quando bem estruturado, pode ser um dos espaços mais potentes para o desenvolvimento da saúde mental e social.
Dados mostram que profissionais que têm relações fortes no trabalho têm até sete vezes mais chances de se engajar e entregar trabalhos de maior qualidade.
Isso nos leva a uma mudança importante de perspectiva. Talvez a pergunta não seja mais "como evitar o adoecimento", mas "como criar ambientes que potencializam o melhor das pessoas".
É nesse ponto que a conversa deixa de ser apenas sobre mitigação de riscos psicossociais e passa a ser sobre desenvolvimento humano e performance sustentável.
E se a felicidade não for consequência do sucesso, mas condição para que ele aconteça? A NR-01, ainda que não trate disso explicitamente, aponta na mesma direção.
Ao reconhecer os fatores de risco, ela abre caminho para que as empresas deixem de atuar apenas na contenção de danos e passem a construir contextos mais saudáveis.
No fim, não se trata apenas de estar em conformidade com uma norma regulamentadora, trata-se de entender que desempenho e bem-estar não são forças opostas.
São resultados do mesmo sistema. Quando ele é bem desenhado, com liderança consciente, o trabalho deixa de ser um fator de desgaste e passa a ser um espaço real de crescimento.