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Fim da linha para os celulares irregulares?

Queda nas vendas de aparelhos irregulares mostra eficácia da fiscalização e mudança no comportamento do consumidor

O consumidor brasileiro está mais atento (Aleksandr Zubkov/Getty Images)

O consumidor brasileiro está mais atento (Aleksandr Zubkov/Getty Images)

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Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 10h00.

Por Flavio Peres*

O mercado brasileiro de smartphones vive um ponto de inflexão importante. Depois de anos de avanço do mercado cinza, a tendência começou a mudar. Em 2023, segundo dados da Abinee, estimava-se que um em cada quatro smartphones vendidos no país — cerca de 25% — fosse irregular, o equivalente a mais de 6 milhões de unidades.

Em 2024, esse percentual recuou para cerca de 20%. Agora, em 2025, as projeções apontam nova queda, chegando a aproximadamente 14%. Mesmo com o ticket médio desses aparelhos ainda mais alto, o que mantém o prejuízo fiscal significativo, a queda em volume mostra que as medidas de combate finalmente começaram a surtir efeito.

O mercado cinza, formado por aparelhos não homologados e que chegam ao consumidor sem garantia, sem tributação e sem rastreabilidade, sempre representou um desafio para a indústria e para o país. A falta de controle gera perda de arrecadação, prejudica fabricantes que operam regularmente e expõe o consumidor a riscos de qualidade e segurança.

Por isso, a redução observada em 2025 é um marco, especialmente porque vai na direção oposta do crescimento contínuo registrado até 2023, quando esse tipo de venda atingiu seu pico histórico.

Fiscalização e mudança de comportamento

Essa mudança é resultado de uma combinação de fatores, que vai desde a intensificação das operações de fiscalização da Anatel e da Receita Federal — que apreendeu mais de 650 mil celulares irregulares em 2024, segundo levantamento divulgado pelo setor — somada a esforços da indústria para conscientizar o consumidor e melhorar o acesso a produtos verificados, contribuiu para reequilibrar o mercado.

Ao mesmo tempo, o comércio de celulares recondicionados e certificados ganhou força e confiabilidade, oferecendo alternativas acessíveis e seguras para quem precisa trocar de aparelho sem assumir o risco de um produto irregular.

O consumidor brasileiro também está mais atento ao que compra. A percepção de que preço é apenas um dos critérios na escolha de um smartphone se tornou evidente. Garantia, procedência, suporte técnico e sustentabilidade passaram a ter peso real no processo de decisão.

Nesse cenário, o recondicionado deixa de ser visto como segunda opção e passa a ser uma escolha racional, enquanto o irregular se torna um risco que muitos não estão mais dispostos a correr.

Projeções para o setor e os usados

As projeções para 2026 reforçam o movimento de formalização. Estudos do setor indicam que o mercado informal pode recuar para menos de 10%, enquanto o segmento de usados e recondicionados deve crescer mais de 10% ao ano, alcançando entre 6,5 e 7 milhões de unidades, o equivalente a cerca de 15% das vendas totais de smartphones no Brasil.

Esse avanço consolida um novo comportamento de consumo baseado em confiança, previsibilidade e acesso. A redução do mercado cinza beneficia todos os elos da cadeia. O consumidor passa a ter mais segurança e suporte. O Estado recupera arrecadação e previsibilidade.

Benefícios para o mercado formal

A indústria compete em um ambiente mais justo. Mas, acima de tudo, esse movimento mostra que o Brasil caminha para um ecossistema mais sustentável e moderno no consumo de tecnologia, no qual a escolha de um aparelho considera não apenas preço, mas também qualidade, responsabilidade e transparência.

A queda do mercado cinza não é apenas uma boa notícia econômica. É um sinal de maturidade do consumidor brasileiro e do fortalecimento de um mercado que valoriza confiança, formalidade e inclusão.

O movimento beneficia tanto o cliente final, que passa a ter acesso a produtos mais seguros e garantias reais, quanto as empresas formais que operam com responsabilidade e investimento contínuo em qualidade. É um cenário de ganho mútuo, no qual consumidores e negócios sérios avançam juntos.

*Flavio Peres é CEO da Trocafone.

 

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