O futuro da cibersegurança em 2026 se define por fazer bem o essencial, de forma disciplinada e contínua (Getty Images)
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Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 15h00.
Por Sergio Muniz*
Mesmo que as ameaças à cibersegurança se tornem cada vez mais sofisticadas, 2026 representa uma oportunidade para voltar aos fundamentos que fortalecem e tornam mais resiliente a proteção de todos os sistemas informáticos.
Isso inclui a Inteligência Artificial (IA). 2026 será o ano em que a segurança cibernética parecerá algo futurista, globalmente e também em nossa região.
Será o ano em que as organizações entenderão algo incômodo, porém decisivo: a maioria dos ataques mais danosos não entra por falhas sofisticadas, mas por brechas básicas que nunca foram fechadas.
Enquanto falamos de inteligência artificial, muitas vezes sem ter conscientizado os funcionários sobre conceitos essenciais de segurança e privacidade, os atacantes já estão usando essas mesmas capacidades.
Embora hoje existam ferramentas defensivas com IA cada vez mais avançadas por parte dos fornecedores, algo tão simples e esquecido como aplicar corretamente os fundamentos básicos de segurança poderia mitigar uma parte significativa do risco.
A tecnologia avança, mas os fundamentos continuam sendo o ponto mais fraco. E em nossa região, por diversas razões estruturais e culturais, essa fraqueza sai cara.
Como alerta Haider Iqbal, Diretor de Marketing de Produto em gestão de identidades e acessos do Thales, o maior risco para 2026 não é a inteligência artificial em si, mas a distração que ela gera.
A "febre do ouro" da IA está levando muitas organizações a implantar novas camadas tecnológicas sem terem assegurado o essencial. O resultado é conhecido: mais superfície de ataque, menos controle real.
O dado é contundente e não admite eufemismos. As ameaças relacionadas à identidade explicam hoje a maioria das brechas graves.
Não porque os atacantes sejam excepcionalmente brilhantes, mas porque continuam encontrando portas abertas: identidades mal geridas, acessos excessivos, configurações incorretas e patches que nunca chegaram.
Marco Venuti, diretor de Aceleração de Negócios de Gestão de Identidades e Acessos da Thales, resume com franqueza: as equipes de segurança passam mais tempo integrando ferramentas do que gerenciando riscos. Em 2026, isso já não será sustentável.
Na América Latina, há avanços acelerados na digitalização financeira, em serviços ao cidadão online, na disponibilização de nuvens para usuários, empresas e órgãos públicos.
Muitas vezes essas melhorias no dia a dia carecem de uma disciplina sólida de segurança. Por isso, é necessário parar de adiar o básico.
A eficiência se tornará a verdadeira métrica da resiliência cibernética. Não mais ferramentas, mas melhores decisões.
A isso soma-se um risco que aparece, e reaparece, de forma consistente em pesquisas, fóruns e relatórios globais: a cadeia de suprimentos, ou "supply chain".
O World Economic Forum volta a destacá-lo com clareza em seus relatórios mais recentes. O risco da "supply chain" não só persiste, como escalou de maneira significativa durante 2025.
Isso ocorreu precisamente porque muitos de seus controles dependem de fundamentos básicos mal resolvidos: visibilidade limitada, dependências não mapeadas, acessos herdados e confiança implícita em terceiros.
Esse contexto exige também uma mudança cultural dentro das organizações. A segurança deve deixar de ser vista como um custo técnico e passar a ser uma responsabilidade empresarial mensurável.
Em 2026, os conselhos de administração já não perguntarão apenas se estamos protegidos, mas qual é o custo real de não estarmos.
A quantificação do risco cibernético será tão relevante quanto qualquer indicador da matriz de risco do negócio, e os responsáveis pela segurança deverão falar esse idioma.
Como alerta Daniel Toh, vice-presidente da área de engenharia da Thales, as organizações devem projetar assumindo que os fornecedores falham, que a nuvem erra e que acessos mal configurados existem.
Finalmente, há um risco que cresce em silêncio: o fator humano em um contexto de inteligência artificial democratizada.
O acesso massivo a capacidades ofensivas elimina os picos previsíveis de ataque e gera uma pressão constante.
Nesse cenário, validar identidades, monitorar comportamentos e reduzir privilégios internos será tão importante quanto defender‑se de ameaças externas.
Qual é o risco para o negócio se um ataque tiver sucesso porque não se tomaram ações prioritárias e básicas?
O futuro da cibersegurança em 2026 se define por fazer bem o essencial, de forma disciplinada e contínua. Fechar as brechas básicas é condição, em definitiva, para não fechar os caminhos ao desenvolvimento.
*Sergio Muniz é Diretor de Vendas de Gestão de Acesso e Identidades para a América Latina.