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'Sem um tiro': megaoperação contra PCC mostra necessidade de inteligência policial, diz especialista

Leonardo Carvalho, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que a operação mostrou como as organizações criminosas formam "um grande ecossistema", com uso de negócios legalizados para lavagem de dinheiro

Operação contra PCC: A investigação mostrou que mais de 1.000 postos em 10 estados participaram do esquema (Receita Federal/Divulgação)

Operação contra PCC: A investigação mostrou que mais de 1.000 postos em 10 estados participaram do esquema (Receita Federal/Divulgação)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 28 de agosto de 2025 às 15h29.

Última atualização em 28 de agosto de 2025 às 15h58.

A megaoperação Carbono Oculto, considerada a maior ação já realizada contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizou inteligência e foi cirúrgica. Esta é avaliação de Leonardo Carvalho, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em entrevista à EXAME, sobre a ação que mira um esquema bilionário. 

"Olha o volume de provas, bens e impactos desta operação, sem um tiro sequer disparado. Esse é o tipo de operação que esperamos: inteligente, cirúrgica, minimizando os riscos para a população e os agentes envolvidos", disse.

Segundo informações da Receita Federal, a organização criminosa movimentou mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, infiltrada em toda a cadeia de combustíveis e no sistema financeiro nacional.

As investigações revelaram que o grupo criminoso controlava desde a importação até a venda ao consumidor final, usando centenas de empresas para sonegar tributos, adulterar combustíveis e lavar dinheiro. Segundo a Receita Federal, só em créditos tributários federais já foram constituídos mais de R$ 8,67 bilhões contra os envolvidos.

Carvalho diz que a operação mostrou como as organizações criminosas formam "um grande ecossistema", com uso de negócios legalizados para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

Por isso, o especialista recomenda que os órgãos cada vez mais "sigam o dinheiro" e aumentem a capacidade de investigação policial para combater o tráfico. 

 

"Não adianta apenas apreender drogas, porque nunca vamos saber quanto de droga está realmente circulando. É preciso também acompanhar o fluxo do dinheiro. As autoridades precisam criar um ecossistema de combate tão robusto quanto o ecossistema de atuação das facções", afirmou.

 

A investigação mostrou que mais de 1.000 postos em 10 estados participaram do esquema, recebendo recursos em espécie ou via maquininhas para movimentar o dinheiro do crime. Parte dos locais nem mesmo funcionavam, mas mesmo assim receberam R$ 2 bilhões em notas fiscais simuladas.

Fortalecimento do COAF

Para o pesquisador do Fórum, é preciso verificar o que virá após essa operação, principalmente na relação da regulação e fiscalização das fintechs utilizadas pelo crime para lavar dinheiro. Carvalho destacou a necessidade do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).

"É necessário empoderar e estruturar cada vez mais as agências reguladoras, como o COAF, para que elas consigam investigar de forma eficaz. Hoje, a estrutura do COAF não está pronta para lidar com o volume de novas tecnologias, como criptoativos e fintechs. Precisamos de uma unidade de inteligência financeira robusta para acompanhar essas movimentações", afirma.

Mais cedo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a Receita Federal vai enquadrar as fintechs como instituição financeira, fazendo com que elas cumpram “rigorosamente” as mesmas obrigações que os grandes bancos. A mudança será realizada por meio de instrução normativa.

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