'Queremos voltar a ser o principal parceiro comercial do Brasil'

Em entrevista exclusiva, o embaixador americano Thomas Shannon afirma que os EUA - hoje o terceiro parceiro comercial do Brasil - querem voltar ao topo do ranking

São Paulo - Em entrevista exclusiva a EXAME.com, o embaixador americano Thomas Shannon diz que a visita do presidente Barack Obama deve catalisar oportunidades em investimentos e negócios em setores estratégicos como energia, aviação e o agronegócio. Para Shannon, os Estados Unidos - hoje o terceiro parceiro comercial do Brasil - querem voltar ao topo do ranking.

EXAME.com - O que os Estados Unidos e o presidente Barack Obama esperam de sua visita ao Brasil?

Thomas Shannon - O presidente Obama tem que falar por si mesmo, mas posso falar pelo governo dos Estados Unidos e também de maneira genérica pela Casa Branca. É óbvio que a decisão do presidente de visitar o Brasil mostra claramente seu interesse em reconhecer a presidência de Dilma Rousseff como uma presidente histórica, como a primeira mulher a governar país. É preciso reconhecer também que os Estados Unidos e o Brasil vivem um momento de grandes oportunidades nas relações bilaterais, que têm ressonância e relevância para o povo do Brasil e para o povo dos Estados Unidos. E o comércio e o investimento terão um papel importante por várias razões. Primeiro, porque historicamente os Estados Unidos foram o primeiro parceiro comercial do Brasil. Hoje não. Hoje, [na balança comercial brasileira] primeiro é a China e a Argentina e depois os Estados Unidos. E em investimento primeiro vem a China e depois os Estados Unidos. E os dois países [Estados Unidos e Brasil] reconhecem que isso não é bom para os Estados Unidos e não é bom para o Brasil. Porque nossa relação comercial e de investimentos no Brasil tem se dado através empresas [americanas] com sede no Brasil com o propósito de aumentar o valor agregado e capacitação nacional. E a ideia [da viagem] é promover esse tipo de comércio e investimento. Hoje, a grande diferença em relação ao passado é que empresas brasileiras também investem nos Estados Unidos quase o mesmo que os Estados Unidos investem no Brasil. É o caso das aquisições por grupos brasileiros de empresas americanas como a Burger King, Anheuser Busch e de uma série de siderúrgicas. Isso indica uma relação entre parceiros e que a cada dia nossas economias e empresas são mais interdependentes.

EXAME.com - Os Estados Unidos querem ser novamente o principal parceiro econômico brasileiro? Em caso positivo, quando isso aconteceria?

Thomas Shannon - Esta pergunta eu não sei responder, mas precisamos de um horizonte. É importante notar que hoje o Brasil tem um comércio e uma fonte de investimentos bem diversificada. E isso é importante e positivo. É uma conquista do Brasil que aplaudimos. Mas neste mundo de economia diversificada, nós queremos ser o parceiro número 1 do Brasil. Acabamos de promover a nossa Parceria de Diálogo Econômico [entre os dois governos] para conversarmos sobre nossas economias, indo além das disputas de comércio, examinando nossa relação em sua totalidade, no setor de aviação civil, transporte, infraestrutura e no setor agrícola etc. O objetivo é encontrar [setores] com possibilidades de atuação numa agenda positiva para avanços em relação aos dois governos. E vamos organizar o Fórum dos CEOs vinculado à visita do presidente Obama, onde a ideia não é ter um diálogo entre governos, mas entre CEOs, com os governos presentes. O objetivo é entender as necessidades das grandes empresas e também das mais modernas [dos dois países]. O que elas precisam de nossos governos para melhorar seu trabalho? Nosso papel é ajudá-las a construir uma visão estratégica em suas relações com os Estados Unidos ou com o Brasil.


EXAME.com - O que foi alcançado até agora nas edições anteriores do Fórum dos CEOs?

Thomas Shannon - Avançamos bastante, no sentido de que concluímos um acordo de troca de informações tributárias que é parte da base do tratado de bitributação. Esse acordo passou na Câmara e está no Senado brasileiro. Mas esse tipo de tratado é péssimo para negociar, porque a Receita Federal aqui e o Internal Revenue Service [órgão equivalente à Receita], nos Estados Unidos, não gostam de renunciar a recursos que seriam pagos como impostos, [abraçando] a ideia de que iriam arrecadar mais no futuro. Mas estamos negociando e é nossa esperança de que a visita do presidente Obama ajude no processo. Ele vai atuar como um “energizador” nas negociações.Na questão dos vistos, desde maio de 2010, conseguimos aumentar o prazo da emissão de cinco para dez anos [para os brasileiros]. O trabalho do Fórum tem sido importante, mas temos que fazer mais em setores estratégicos, através de uma visão compartilhada entre os setores privados brasileiro e americano, articulando sua visão aos governos. A última reunião do Fórum foi em 2010, em Denver, no Colorado, no Laboratório Nacional de Energias Renováveis. Foi super interessante porque mostrou claramente o enfoque em setores estratégicos. Os CEOs saíram de lá com a ideia de pensar como poderiam ajudar o Brasil a ter eventos bem sucedidos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O Brasil precisa de estrutura, segurança, saúde pública. É preciso começar um diálogo estratégico sobre a maneira como o setor privado, trabalhando com os governos, poderia assegurar o sucesso dos jogos.

EXAME.com - O que a vinda do presidente Barack Obama pode significar para as negociações entre o governo brasileiro e a Boeing, que participa do projeto FX, uma disputa para a venda de caças aéreos às Forças Armadas brasileiras? No Brasil, há um grau considerável de ceticismo sobre a possibilidade de transferência tecnológica da Boeing.

Thomas Shannon - Em primeiro lugar, é preciso dizer que a transferência de tecnologia não é estática. É dinâmica e complexa, pois sempre está evoluindo. Não é como um pacote que se entrega: “— aqui está a tecnologia: boa sorte!” É mais uma relação e a vontade de ajudar a estabelecer a capacidade de usar e avançar essa tecnologia. E não há outro país no mundo com quem o Brasil tenha melhor relação na área de ciência e tecnologia do que os Estados Unidos. Estamos tentando aprofundar essa relação, para mostrar claramente que o Brasil bem sucedido na área de ciência e tecnologia e em engenharia é bom para o Brasil e para os Estados Unidos, porque isso indica uma compatibilidade nas economias. E permite também a habilidade de trabalhar em alta tecnologia e inovação, um aspecto importante no futuro. Sobre os caças, a oferta da Boeing melhorou com o tempo porque o Brasil é um bom negociador. E isso é interessante, porque indica que nós temos a capacidade de ampliar e melhorar a oferta e também que temos confiança para construir uma parceria estratégica com o Brasil. E o que estamos oferecendo ao Brasil é igual ou melhor do que estamos oferecendo a outros parceiros estratégicos, como a Índia. A Boeing está oferecendo ao Brasil a oportunidade de fabricar componentes importantes do caça F-18 dentro do país, indicando que o Brasil e os Estados Unidos estão vinculados na produção. Para mim, isso deve resolver as dúvidas que existam sobre nossa confiabilidade como parceiros. Além disso, o F-18 é o melhor caça do mundo. A Força Aérea e a Marinha dos Estados Unidos já fizeram pedidos para o F-18 que irão garantir que ele será o principal caça dos Estados Unidos por pelo menos mais duas décadas. Se o Brasil fizer uma parceria com a Boeing na construção dessa aeronave, ela vai durar muitos anos. E com essa parceria, a cada dia que trabalhamos juntos, teremos mais confiança mútua. Queremos uma parceria de verdade. Para nós, a ideia de que o Brasil tem que comprar um avião de menor capacidade para obter mais tecnologia é uma falsa escolha. O Brasil deve ter o melhor avião e a melhor oferta de tecnologia. E acho que estamos oferecendo isso com o F-18 da Boeing. Outro aspecto importante é a cooperação bilateral na área de biocombustíveis para aviação. Para nós, isso é super interessante, porque o F-18 usa etanol e a Boeing é líder na tecnologia de biocombustíveis para aviões. Entre as três empresas competindo no projeto FX, ela é o único que tem o lado militar e o lado civil.


EXAME.com - O que a visita de Obama deve significar para a diminuição de barreiras americanas, como subsídios, tarifas e cotas, à entrada de produtos agrícolas nos Estados Unidos?

Thomas Shannon - O presidente Obama e seu governo mostraram claramente sua capacidade de entrar nesse tipo de conversa [a disputa bilateral] do algodão [no âmbito da Organização Mundial do Comércio]. Ou seja, [houve] habilidade do Brasil e dos Estados Unidos em chegar a um acordo para seguir com um diálogo sobre o algodão e os subsídios, não caindo na armadilha da retaliação. Houve claramente boa vontade e amadurecimento dos dois lados e também um reconhecimento da importância de seguirmos conversando para procurar soluções. Isso é importante, porque se tivermos sucesso em expandir o comércio, teremos não só mais investimentos, mas também mais atritos. Essa é a natureza do comércio entre os países. Nossos parceiros [comerciais] mais importantes são Canadá e México. E sempre temos fricções comerciais, porque é natural. Mas é crucial termos a capacidade para o diálogo e a confiança dos dois lados para chegar a acordos que vão representar os interesses dos dois lados. E o governo do presidente Obama mostrou claramente que temos esse interesse, boa vontade e essa capacidade.

EXAME.com - Que perspectivas existem para a conclusão da rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, em que Brasil e Estados Unidos são negociadores chave?

Thomas Shannon - Na última etapa das negociações, Brasil e Estados Unidos tiveram um bom nível de entendimento sobre o que o futuro poderia ser. Recentemente [o secretário do Tesouro] Tim Geithner foi indagado sobre Doha, e ele disse que seria oportuno fazer um esforço para se chegar a um acordo, porque os países estão saindo da crise e os países emergentes estão relativamente mais fortes do que os países mais desenvolvidos e que esse seria um bom momento para sentarmos de novo na mesa de negociação. Mas essas negociações não são fáceis. São difíceis, mas a única maneira de concluir o acordo é negociando.

EXAME.com - Por outro lado, no âmbito do G20, Brasil e Estados Unidos têm manifestado interesses comuns, seja na crítica à política cambial chinesa ou na reação à proposta do presidente francês Nicolas Sarkozy para a regulação do mercado de commodities agrícolas.

Thomas Shannon - Esses pontos são importantes. E a capacidade de coordenar nossas atividades dentro do G20 é importante tanto para o G20 como para a nossa relação bilateral, porque indica uma visão compartilhada e uma capacidade diplomática de coordenação, sem perdermos a capacidade de atuar independentemente. Os dois lados também acham que devemos aprofundar nosso diálogo na área financeira. E a última reunião entre o ministros Mantega e Geithner foi um passo neste sentido. Com a visita do presidente Obama, os dois governos vão procurar uma maneira de formalizar esse diálogo para que ele tenha mais estrutura e profundidade. E isso é importante, especialmente na forma com que o Brasil segue crescendo economicamente no mundo. Hoje é o país é membro do G20, membro importante do Fundo Monetário Internacional, membro importante do Banco Mundial, membro importante em várias instituições internacionais financeiras. [O Brasil] também está chegando à cena global como doador e promotor de desenvolvimento econômico. À medida que possamos coordenar ações e compartilhar entendimentos e interesses, isso ajudará a nós, à região e ao mundo.

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