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Opinião: Escala 6x1: como fazer uma transição justa e responsável

Uma das propostas em discussão é a implementação gradual e setorial da nova regra. Em vez de aplicar a mudança simultaneamente a todos os setores, a transição poderia começar por aqueles em que menos da metade dos trabalhadores está em contratos de 44 horas semanais

Tadeu Barros
Tadeu Barros

Colunista

Publicado em 15 de março de 2026 às 08h01.

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganha força no Brasil e revela um desejo legítimo da sociedade: mais equilíbrio entre trabalho, descanso e qualidade de vida. A discussão, entretanto, precisa ir além da intenção e entrar no campo do desenho das políticas públicas. Mudanças na jornada de trabalho afetam milhões de trabalhadores, empresas e setores produtivos. E nada melhor do que diálogo e planejamento para chegar na melhor solução.

Do ponto de vista econômico, reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas sem reduzir o salário mensal significa elevar o custo do trabalho por hora. Na prática, é como pagar cerca de 10% a mais por hora trabalhada. A experiência internacional mostra que esse tipo de mudança pode gerar efeitos mistos. Em Portugal, por exemplo, uma reforma semelhante elevou o salário-hora em 9,2%, aumentou a produtividade por hora em 7,9%, mas também esteve associada a queda de cerca de 1,7% no emprego e de 3,2% nas vendas das empresas.

Quando simulados para o Brasil, os efeitos potenciais ajudam a dimensionar o desafio. Um estudo recém-divulgado pelo CLP aponta que, se a economia reagir de forma semelhante, a redução abrupta da jornada poderia levar a uma queda de 1,1% no emprego formal — cerca de 640 mil vagas — e a uma redução de aproximadamente 0,7% no PIB.

Isso não significa que o país não deva discutir a redução da jornada. Significa que a mudança precisa ser construída com responsabilidade e visão de longo prazo.

Escala 6x1: pontos em discussão

Uma das propostas em discussão é a implementação gradual e setorial da nova regra. Em vez de aplicar a mudança simultaneamente a todos os setores, a transição poderia começar por aqueles em que menos da metade dos trabalhadores está em contratos de 44 horas semanais. Em um segundo momento, a regra avançaria para setores com até 60% de contratos nessa jornada, depois para aqueles com até 80%, até chegar aos segmentos mais expostos, como comércio e serviços.

Essa lógica permite dois ganhos importantes. Primeiro, reduz o risco de impactos econômicos concentrados justamente nos setores com maior intensidade de mão de obra. Segundo, cria uma janela de avaliação real da política: é possível acompanhar dados de emprego, salários, rotatividade e informalidade e ajustar o ritmo da reforma caso os efeitos sejam maiores que o esperado.

Outro ponto fundamental é o diálogo entre trabalhadores, empresas e governo. Reformas estruturais dificilmente prosperam quando são impostas de forma abrupta. Elas funcionam melhor quando são negociadas, testadas e aperfeiçoadas ao longo do caminho.

No fundo, o debate sobre a escala 6x1 não deve ser tratado como uma disputa entre quem é a favor ou contra a mudança. A pergunta mais importante é outra: como fazer essa transição de forma inteligente.

Reduzir jornadas pode representar um avanço importante para a sociedade brasileira. Mas, como em qualquer decisão desta natureza, o sucesso não depende apenas do destino. Depende, sobretudo, do caminho escolhido para chegar até lá.

 

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