O PSDB na muda

A semana começa com um rearranjo total dos partidos em Brasília. O PT vai precisar reaprender a ser oposição. O PMDB volta a ocupar a Presidência interinamente depois de 24 anos. Uma série de partidos médios (como PSD, PP, PTB, PRB e PSB) sonha novamente com um protagonismo no governo. Uma das grandes perguntas é o que vai acontecer com o PSDB. Após 22 anos como protagonista — ou na Presidência, ou comandando a oposição —, o partido presidido pelo senador Aécio Neves fica na desconfortável posição de coadjuvante do governo de Michel Temer. Na melhor das hipóteses, terá papel secundário num governo de sucesso. Na pior, será cúmplice do fracasso.

Como o PSDB chegou a essa situação? Quais são as divisões internas que o impedem de ir ainda mais longe?

O partido fundado por Fernando Henrique Cardoso possui atuação parlamentar, não tem raiz social, das ruas. Ele surgiu após uma reunião de alguns dissidentes do PMDB diante de insatisfações que tomaram forma na Assembleia Constituinte. O debate sobre o sistema de governo (os insatisfeitos queriam instituir o regime parlamentarista) e o mandato de cinco anos para José Sarney foram a gota d’água para que um grupo de peso resolvesse deixar de vez o PMDB para fundar o Partido da Social Democracia Brasileira em 1988.

Nomes como José Richa, que foi senador e governador do Paraná; Geraldo Alckmin, atual governador do estado de São Paulo; Franco Montoro e Mário Covas, também governadores de São Paulo; o senador José Serra, atual ministro das Relações Exteriores; Pimenta da Veiga, ex-deputado federal e candidato ao governo de Minas Gerais em 2014; e o senador e atual presidente do partido, Aécio Neves. A predominância de políticos do Sul e do Sudeste, especialmente de São Paulo, acabaria sendo decisiva para os rumos do partido nas décadas seguintes.

As principais bandeiras do PSDB eram a defesa da social-democracia, o parlamentarismo e a ideia do Estado mínimo, que abre espaço para a iniciativa privada. Por ter nascido no Parlamento, o PSDB carrega em sua essência a distância dos movimentos sociais, dos sindicatos. Por isso não faz parte de sua personalidade endossar protestos, ir às ruas buscar apoio.

“Se acontecesse com algum líder do PSDB o que aconteceu com Lula, jamais veríamos a massa que se mobilizou para defender o ex-presidente”, diz Fernando Schüler, cientista político do Insper. O contexto internacional na época da criação do partido (queda do Muro de Berlim, redemocratização da América Latina e abertura do comércio entre os países) fez o PSDB trazer para o Brasil as ideias da chamada “terceira via”: reforma do Estado, responsabilidade fiscal, abertura ao mercado e políticas inclusivas.

Em 1994, com apenas seis anos de vida, o PSDB chegou à presidência da República apoiado pela enorme parcela da população que via no partido os ideais dos países desenvolvidos e globalizados. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, de voz calma e ideias no lugar, era um contraponto ao som e à fúria da gestão de Fernando Collor. Em sua gestão, ele executou um amplo programa de privatizações, e a economia se abriu ao mercado internacional, o Plano Real conseguiu manter a economia estável, e a inflação ficou em 9% no primeiro mandato e em 8% no segundo.

As divisões 

Os tucanos, como se sabe, deixaram a Presidência em 2002, e o petista Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao poder com 61% dos votos contra José Serra. Lula manteve a política econômica, aumentou os investimentos em programas sociais e surfou um momento ímpar na economia internacional. O Partido dos Trabalhadores acabaria ficando 13 anos no poder. Nesse período, o PSDB viu sua bancada cair à metade na Câmara — hoje tem 123 deputados estaduais, 53 deputados federais, 11 senadores e seis governadores. Além disso, perdeu quatro eleições presidenciais consecutivas — Serra, em 2002 e 2010, Geraldo Alckmin, em 2006, e Aécio Neves, em 2014.

Essas derrotas seguidas escancararam também a divisão interna do partido. Fernando Henrique é a voz que tenta dar uma liga a três políticos que têm a ideia fixa de chegar à Presidência em 2018 — justamente os três derrotados nas eleições anteriores. As prévias para a disputa municipal de São Paulo escancararam as disputas internas. João Dória, apoiado por Geraldo Alckmin, acabou derrotando Andrea Matarazzo, que contava com o apoio de Aécio Neves, do senador Aloysio Nunes, de Fernando Henrique e de José Serra. Derrotado, Matarazzo deixou o partido acusando o adversário de compra de votos e de fazer propaganda irregular.

No governo do presidente em exercício Michel Temer, após um intenso bate-boca sobre assumir ou não assumir cargos, cada ala tem um ministro indicado. José Serra é o titular das Relações Exteriores. Aécio Neves, segundo políticos próximos ao tucano, indicou o deputado pernambucano Bruno Araújo para comandar a pasta das Cidades; Alexandre de Moraes, novo ministro da Justiça, é da cota de Geraldo Alckmin.

Temer deve pôr em prática muitas das propostas econômicas defendidas pelo PSDB. Se der certo, será um argumento a mais para o partido pleitear novamente a Presidência em 2018 com chance de vitória. Até lá, o PSDB vai tentar reavivar a discussão sobre o parlamentarismo e aparecer como for possível no novo governo. Com cargo de destaque, Serra, na teoria, está em vantagem. Mas, em se tratando de PSDB, é bom não ter certeza de nada.

(Rafael Ihara)

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