O Brasil no azul?

Para encontrar números positivos na economia brasileira é preciso procurar com lupa. Pois, nos últimos dois meses, o país nos brindou com um desses índices impensáveis até pouco tempo: nossa balança de transações correntes ficou positiva em 1,6 bilhão de reais em abril e maio. Foi a primeira vez em sete anos que o país fechou um mês no azul. Fechar assim dois meses seguidos não acontecia desde 2007. A explicação simples é: enviamos mais dinheiro para o exterior do que recebemos por meio de investimentos e compras. Nas entrelinhas, porém, entender os porquês desse número ajuda a explicar a leve recuperação que aponta no horizonte da economia brasileira.

A balança de transações correntes é formada por outras três balanças: a comercial, composta pelo comércio de bens e serviços, a de rendimentos e a de transferências para o exterior. Esse número é normalmente negativo em países em desenvolvimento, o que significa que o país está se financiando com dinheiro externo para o crescimento. Pode estar construindo fábricas, estradas e portos que vão permitir um crescimento no futuro, ou gastando com supérfluos.

O Peru, o país que mais cresce na América Latina, acumula déficits de mais de 4% do valor do PIB nos últimos três anos. O mesmo acontece com Colômbia, África do Sul, Índia, e outros. Na outra ponta, a Alemanha, que investe muito em outros países e exporta muito mais do que importa, teve um superávit de quase 9% do PIB em 2015.

O problema do Brasil é que, aqui, a diferença chegou a um patamar preocupante. Em 2014, o pior ano da história, o déficit foi de 104 bilhões de dólares, ou 4,3% do PIB. Em 2015, foi de quase 59 bilhões. O número foi alto por diversos motivos. O real estava sobrevalorizado, o que facilitava a compra e o aluguel de serviços no exterior, as importações e dificultava exportações. Além disso, o dólar barato também facilitava os gastos de brasileiros no exterior. Na história recente, o Brasil teve superávit nas transações entre 2003 e 2007, quando o alto preço das commodities fez com que as exportações fossem muito maiores que as importações.

O mês com um fluxo positivo de capitais tem suas vantagens. Embora o déficit menor possa significar menos dinheiro para investimento no curto prazo, o país fica menos sujeito às variações problemáticas da economia internacional. “Em um cenário de lento crescimento global, com a China desacelerando, as commodities baratas, a grande volatilidade financeira internacional e as condições mais difíceis de financiamento externo, a correção do déficit em conta corrente deve ajudar o Brasil”, diz Shelly Shetty, chefe de ratings soberanos para a América Latina da agência de classificação de risco Fitch.

Por enquanto, abril e maio foram apenas dois meses atípicos. A previsão para maio, por exemplo, era de um déficit de 3,4 bilhões de dólares. Com isso, nos últimos 12 meses, o déficit ficou em 1,7% do PIB, frente a 4,5% no mesmo período no ano passado. Se a balança continuasse com um déficit tão alto, como nos dois últimos anos, mudanças na conjuntura econômica externa poderiam complicar a dinâmica interna.

O copo meio vazio

O problema é que as causas para a melhoria na balança de transações são quase todas negativas. Com exceção do aumento acima do esperado de investimento direto vindo do exterior, o que surpreendeu analistas, o país está importando menos por causa da recessão profunda pela qual está passando, os investimentos externos diminuíram e o real desvalorizou. Com tudo isso somando, chegou-se a especular que o Brasil poderia terminar o ano com um número próximo ao positivo.

Embora os números de exportação e importação de bens continuem ruins, a fraca atividade econômica do país e o dólar valorizado fizeram com que as importações caíssem mais do que a exportações nos últimos meses. O superávit comercial de maio, divulgado nesta semana, foi de 6,9 bilhões de dólares. No acumulado do ano até agora, o superávit é de 19,7 bilhões de dólares, maior do que o ano passado todo, quando a conta ficou em pouco mais de 17 bilhões.

Mas a melhoria na balança de transações não tem a ver com a mudança de perspectivas na política e na economia com a chegada de Michel Temer e a nova equipe econômica ao poder. Tem mais relação com o fundo do poço mesmo. Pela lógica, a menos que a economia do país sofra uma intervenção constante, o índice se autorregula. No Brasil, isso não aconteceu em 2014, quando o governo mantinha forçosamente a taxa Selic baixa, para valorizar o real, ajudar as importações e conter a inflação.

O dólar só passou dos 2,50 reais em novembro daquele ano, por isso o déficit foi tão alto. Com câmbio flutuando normalmente, a desvalorização do real aumenta as exportações e prejudica as importações, além de tornar barato investir no país, o que ajuda a corrigir o déficit. O cenário econômico ruim aumenta o risco país.

De acordo com o banco Itaú, a previsão é de em 2016 a balança de transações correntes fique com um déficit de 15 bilhões de dólares, e em 2017 em sete bilhões, ou 0,4% do PIB. “Não existe um número mágico, mas a ideia é que o tamanho do déficit bata com a possibilidade que o país tem de atrair financiamento externo”, diz Julia Gottlieb, economista do banco.

Com o país retomando o crescimento, a previsão é que o déficit volte a crescer se estabilize entre 40 e 50 bilhões de dólares entre 2020 e 2025. Isso se tudo der certo até lá.

(Gian Kojikovski) 

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