No Brasil, ter faculdade faz dobrar o salário — por que isso é ruim

Com 70% dos jovens fora da faculdade, diploma segue sendo mais importante para o aumento da renda no Brasil do que em países desenvolvidos

Entrar na faculdade ainda é passaporte para uma boa renda no Brasil, muito mais do que em outros lugares. Em países como Canadá, Estados Unidos, Suécia ou Reino Unido, quem tem graduação ganha quase o mesmo do que os trabalhadores que se formaram apenas no Ensino Médio.

A média entre os países da OCDE, grupo que reúne as nações ricas, é de um salário 40% maior para quem tem diploma de graduação. Já um residente brasileiro formado no Ensino Superior ganha, em média, mais que o dobro (140%) de quem só cursou o Ensino Médio; com pós-graduação, pode-se ganhar um salário mais de quatro vezes maior (350%) na comparação com quem só se formou no Ensino Médio, segundo o relatório Education at a Glance, da OCDE.

É uma evolução de renda tentadora no Brasil e que, vista pelo lado positivo, pode ajudar jovens de baixa renda a ascender socialmente por meio da educação, mesmo se vindos de famílias pobres. Mas a possibilidade é restrita a poucos.

O Censo da Educação Superior divulgado há algumas semanas pelo Inep, instituto de pesquisas educacionais do Ministério da Educação, mostra que o acesso à faculdade vem evoluindo. O número de estudantes cursando o Ensino Superior no Brasil aumentou 44,6% nos últimos dez anos, entre 2008 e 2018. Em 2018, cerca de 8,45 milhões de pessoas estavam cursando a educação superior (a maioria, 75%, em instituições privadas).

Ainda assim, mais de 70% dos jovens entre 18 e 24 anos não se formou no Ensino Superior nem está cursando faculdade atualmente. Mesmo o Ensino Médio é um pequeno privilégio. Um a cada quatro jovens entre 18 e 24 anos (ou 25% deles) não concluiu esta etapa escolar e abandonaram a escola, segundo dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros 39% nesta faixa etária até concluíram o Ensino Médio, mas hoje não estão no Ensino Superior.
 
O Censo do Ensino Superior deste ano mostra ainda que, dos que conseguiram uma graduação, boa parte dos novos alunos estão indo para educação a distância (EaD): no ano passado, 40% dos novos ingressantes foi para EaD.

O número de novas matrículas na última década subiu 51% na EaD, ante alta de 11% na educação presencial. A oferta de matrículas na educação presencial inclusive vem caindo desde 2013, acumulando queda de 13% nos últimos cinco anos.

O censo aponta que o total de vagas oferecidas na EaD passou as ofertas em educação presencial pela primeira vez na história em 2018. Por outro lado, nesta modalidade, é maior a possibilidade de que o aluno abandone o curso no meio: só 28% dos mais de 1 milhão de alunos que se formaram na rede privada no ano passado vieram da EaD, ante 72% da educação presencial.

De qualquer forma, mesmo com as novas possibilidades de educação a distância e cursos mais baratos surgindo no Brasil, nossa taxa de graduados ainda é baixa, mesmo na comparação com países de renda parecida. Segundo o Education at a Glance (que usou dados de 2017), só 14% dos brasileiros entre 55 e 64 anos se formou no Ensino Superior.

Entre os jovens de 25 a 34 anos, a taxa aumenta para quase 20%, mas ainda abaixo de outros países em desenvolvimento. Na Colômbia, 29% dos jovens entre 25 e 34 anos se formou na faculdade; no México, 23%; no Chile, 34%; na Argentina, 40%; na Rússia, 63% dos jovens se formou. A média da OCDE é de 44% de diplomados no Ensino Superior entre 25 e 34 anos.

Essa desigualdade no acesso explica a enorme diferença de renda que se pode obter com um diploma de graduação no Brasil na comparação com os países desenvolvidos.

Quanto menor o número de pessoas com Ensino Superior, mais o diploma pode se tornar um diferencial (nos países ricos, onde diploma de graduação é quase regra, o oposto também gera algumas crises, com pessoas graduadas podendo enfrentar desemprego ou baixos salários em tempos de recessão econômica, como após a crise de 2008).

Um conceito da economia é usado por pesquisadores de educação para explicar o cenário. É o chamado signalling model, ou modelo de sinalização, desenvolvido pelo Nobel de economia canadense Michael Spence na década de 1970.

Ao ter um diploma de Ensino Superior — algo que mais de 70% da população brasileira não possui — um jovem sinaliza a seus potenciais empregadores que tem certas habilidades, mesmo antes de uma entrevista de emprego ou dinâmica em que possa detalhar melhor sua qualificação.

O potencial de ganhos é intensificado se a instituição é vista como prestigiada pelo mercado de trabalho, caso das universidades de ponta — que, no geral, têm ou vestibulares super concorridos no caso das públicas, ou vestibulares concorridos e mensalidades altas, no caso das privadas.

Outro desafio é que, apesar do avanço no número de matrículas no Ensino Superior na última década, o acesso à faculdade ainda é maior entre a população de maior renda. A população de renda 25% menor tem, em média, 9,7 anos de estudo formal (somente completar o Ensino Médio exigiria 11 anos de estudo).

Um estudo também da OCDE, de 2018, mostra que uma criança da menor classe social no Brasil levaria nove gerações para chegar à classe mais alta, o que levou a organização a descrever a desigualdade social no país como um “elevador quebrado”, em que torna-se quase impossível ascender socialmente.

Vale lembrar, ainda, que um diploma de graduação que possibilite ganhar o dobro da média da população brasileira não representa sequer uma renda grandiosa. Quem ganha 3.000 reais no Brasil, por exemplo, já ganha mais do que 89% da população, segundo a Pnad, do IBGE. A renda média não chega a 1.400 reais.

Assim, a renda maior proporcionada pela escolaridade no Brasil é uma prova de como a sociedade brasileira ainda é desestruturada e desigual.

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