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Guerra na Ucrânia: 65% dos brasileiros concordam com neutralidade do país

Pesquisa EXAME/IDEIA mostra o que os brasileiros pensam sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia

 (SERGEY BOBOK/AFP/Getty Images)

(SERGEY BOBOK/AFP/Getty Images)

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Gilson Garrett Jr

8 de março de 2022, 11h30

Há quase duas semanas a Rússia iniciou uma guerra contra a Ucrânia. Apesar de ter repudiado e condenado a invasão russa durante as votações da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança, ambos na Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente Jair Bolsonaro (PL) adotou uma postura neutra em relação ao conflito. A maior parte dos brasileiros, 65%, concorda com a imparcialidade do país.

É o que mostra a mais recente pesquisa EXAME/IDEIA que ouviu 1.269 pessoas entre os dias 5 a 8 de março. As entrevistas foram feitas por telefone, com ligações tanto para fixos residenciais quanto para celulares. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa EXAME/IDEIA é um projeto que une EXAME e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. Clique aqui para ler o relatório completo.

(Arte/Exame)

Maurício Moura, fundador do IDEIA e professor da George Washington University, nos Estados Unidos, explica que a opinião pública brasileira normalmente não apoia o envolvimento do país em questões de política externa. Ele destaca, no entanto, que há um número significativo de quem acha que o país deveria tomar algum partido, seja em favor da Ucrânia ou da Rússia.

“A questão sobre neutralidade é muito mais do Brasil não se envolver diretamente na guerra do que a posição do presidente Jair Bolsonaro. Foi assim que os entrevistados perceberam a questão. Mas há um número significativo que acha que o Brasil não deveria ficar neutro [35%], o que é um número alto, dado o histórico do Brasil em questões geopolíticas militares pelo mundo”, diz Maurício Moura.

Entre os entrevistados, 62% acham que a Ucrânia está certa no conflito, e apenas 6% entendem que a Rússia tem razão. Há ainda uma parcela de 32% que dizem não saber qual dos dois países está certo.

“A maioria esmagadora da população brasileira é favorável à causa ucraniana. Chama a atenção que quanto maior a escolaridade e a renda esse número passa de 70%. Então, é bastante claro o apoio da opinião pública brasileira em relação à Ucrânia”, diz Maurício Moura.

Impactos da guerra na economia

Por mais que a guerra esteja a quilômetros de distância do Brasil, os impactos já chegaram ao país. Um dos mais imediatos é o preço do barril de petróleo, que ultrapassou os 130 dólares, na segunda-feira, 7, e tende a subir ainda mais. Isso tudo pressiona o valor da gasolina e do diesel nos postos, já que a tabela praticada pela Petrobras é atrelada ao preço internacional.

Para 65%, o conflito armado na Europa vai refletir na economia brasileira. Outros 57% acreditam que a consequência será no agronegócio. A preocupação com o setor agro cresce em algumas regiões que dependem mais economicamente da atividade, como o Norte (65%) e o Centro-Oeste (58%).

(Arte/Exame)

Analistas do setor agro têm falado em cautela sobre os impactos que a guerra entre Rússia e Ucrânia podem gerar por aqui. O principal ponto de atenção está no grupo de adubos e fertilizantes químicos, que responde por mais de 60% de tudo o que o Brasil importa da Rússia. O país europeu é o principal fornecedor destes insumos a todo o planeta.

“O Brasil é bastante dependente da Rússia no caso dos fertilizantes. É o nosso principal parceiro comercial, com 23% das importações. Mas não só o Brasil, todo o mundo depende da Rússia para a compra de fertilizantes”, detalha Bruno Fonseca, analista setorial para o mercado de insumos do Rabobank Brasil, especializado em mercado do agronegócio.

Na semana passada, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, disse que o Brasil tem estoque de fertilizantes garantidos até outubro. Mas a safra de verão, que começa a ser plantada entre setembro e outubro, gera preocupação.

Outro item que deve sofrer impactos com a guerra é o trigo. Grandes produtores de grão, Rússia e Ucrânia representam quase 30% do mercado exportador da commodity, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O Brasil, apesar de não ter compras significativas dos dois países (a maior parte vem da Argentina), sentirá os efeitos no aumento do preço geral.

(Arte/Exame)

O preço mais altos dos alimentos e dos combustíveis em consequência da guerra é justamente a maior preocupação dos brasileiros. “Isso leva a uma sensação de que teremos meses ruins em relação à inflação. O tema que já estava muito forte na mente das pessoas no pré-guerra vai continuar presente porque há essa expectativa de piora de preços, o que alimenta ainda mais a inflação”, diz Maurício Moura, fundador do IDEIA.