Brasil

Governo acelera negociação de pauta econômica em meio à crise com Congresso

O Executivo quer aprovar corte de benefícios fiscais e aumento da taxação de bets antes de votar a Lei Orçamentária de 2026

Lula com Motta e Alcolumbre em momento de harmonia  (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)

Lula com Motta e Alcolumbre em momento de harmonia (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)

Publicado em 16 de dezembro de 2025 às 07h46.

O governo federal montou uma operação neste início de semana para acelerar a negociação de projetos que incrementam a arrecadação da União em 2026 e viabilizam a aprovação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) do próximo ano.

Dois parlamentares da base aliada afirmaram à EXAME sob reserva que a ordem do Palácio do Planalto é evitar o confronto e descolar a agenda econômica de temas polêmicos pautados para esta semana, como a redução de penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Em público, contudo, os deputados governistas aproveitaram o bom número de participantes na manifestação do final de semana para engrossar as críticas à condução do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em relação ao PL da Dosimetria e do PL Antifacção, o que pode atrapalhar o ambiente das negociações.

Nos bastidores, a articulação política do Planalto se uniu à equipe econômica para garantir a aprovação de três projetos que dão mais tranquilidade ao governo em 2026 e reduzem as chances de contingenciamento orçamentário em ano eleitoral.

Dois deles têm potencial para aumentar a receita da União em 2026: um corta de maneira linear em 10% os incentivos fiscais, enquanto o outro aumenta a taxação de bets e fintechs. O cálculo é que cada um pode gerar uma receita de até R$ 20 bilhões.

O segundo conta com maior resistência de partidos de centro, mas o primeiro é visto com mais otimismo por governistas. O discurso é que um deles seria suficiente para tornar o terceiro item importante, o Projeto de Lei Orçamentária de 2026, possível de ser cumprido, mas os dois juntos evitariam mais um ano de déficit fiscal e viabilizariam o cumprimento do centro da meta estabelecido pelo arcabouço fiscal, e não o piso.

Corte de benefícios tributários e bets

O presidente da Câmaraindicou o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), para relatar o corte de benefícios fiscais e demonstrou otimismo quanto à aprovação.

“O relator levará em consideração tanto o corte quanto a revisão periódica desses benefícios, para constatar a eficiência. Benefício fiscal sem retorno para a sociedade é privilégio”, afirmou Motta na semana passada.

A taxação de bets e fintechs, porém, já foi enterrada na Câmara uma vez e pode ter o mesmo destino nesta reta final de ano. O Senado aprovou o aumento da alíquota para fintechs, que hoje pagam 9% de Contribuição Social do Lucro Líquido (CSLL), para 20% até 2028, com ampliação gradual ano a ano.

Já as bets, que atualmente pagam 12%, terão taxação de 15% em 2026 e 2027. A partir de 2028, passa para 18%. O mesmo tema, porém, foi arquivado na Câmara em outubro, quando a Casa deixou perder a validade uma medida provisória do governo sobre o tema.

Na tentativa de apaziguar a relação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu o tom que o governo deve adotar nesta semana importante para o Executivo no Congresso. Em evento na manhã desta segunda-feira, 15, ele fez elogios ao Legislativo e minimizou os atritos.

"Eu queria dizer para vocês que eu sou muito grato a tudo que o Congresso tem feito por nós nesses três anos de governo, tanto o Senado como a Câmara. Aquilo que não foi aprovado, foi possivelmente porque a gente não teve capacidade de convencê-los a aprovar”, disse.

A declaração ocorre poucas semanas após uma troca de farpas com Hugo Motta e um estremecimento na relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Lula afirmou no fim de novembro que o PL Antifacção, da forma como foi aprovado e que contou com apoio de Motta, "enfraquece o combate ao crime organizado e gera insegurança jurídica". Motta usou a mesma rede social para dizer que “não se pode desinformar a população, que é alvo diariamente do crime, com inverdades”.

O projeto em questão voltou à Câmara após mudanças implementadas pelo Senado e deve voltar à pauta da Casa. O objetivo dos deputados é votar esta proposta e a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, de autoria do Executivo, antes do fim do ano.

A pauta da segurança, porém, costuma isolar a esquerda e o governo no Congresso e pode gerar mais embates nesta semana, que deve ser a última de trabalho do Legislativo.

No Senado, por sua vez, a crise foi desencadeada após a indicação de Messias ao STF. O preferido da cúpula da Casa era o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). O discurso entre parlamentares é que a escolha para o Supremo, assim como as outras duas, de Cristiano Zanin e Flávio Dino, foi feita de maneira isolada e sem negociar com os senadores.

Na Casa, o desafio do governo é evitar a aprovação do PL da Dosimetria, que reduz penas de condenados pelo 8 de janeiro e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Além disso, o governo tentará criar o mínimo de arestas possível com a Casa para não prejudicar a análise da indicação de Messias ao Supremo, que deve ocorrer no começo do próximo ano.

Acompanhe tudo sobre:Senado FederalCâmara dos DeputadosLuiz Inácio Lula da Silva

Mais de Brasil

Eleições 2026: o calendário que todo eleitor precisa acompanhar

Governo de SP avança para concessão do Parque Bruno Covas

Boulos diz que governo vai articular no Congresso para manter veto de Lula ao PL da Dosimetria

Defesa de Bolsonaro pede ao STF autorização para reduzir pena por meio da leitura