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Empreendedorismo supera concurso público como sonho de moradores de favela

Pesquisa da Data Favela mostra que 38% dos moradores querem ter o próprio negócio, enquanto apenas 16% desejam passar em concurso; moradia, saúde e educação aparecem como pilares da ascensão

Favela: casa própria é sonho dos moradores (Leandro Fonseca/Exame)

Favela: casa própria é sonho dos moradores (Leandro Fonseca/Exame)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 10h30.

Pela primeira vez, o desejo de empreender supera o sonho da estabilidade do concurso público nas favelas brasileiras.

Segundo a pesquisa "Sonhos da Favela 2026", realizada pelo instituto Data Favela, 38% dos entrevistados disseram sonhar em ter um negócio próprio, contra 16% que almejam um cargo público.

O dado indica uma virada no imaginário de futuro de milhões de brasileiros e reforça o protagonismo de quem vê no próprio esforço o motor de sua ascensão, segundo o levantamento.

“Hoje existe um desejo muito maior pelo empreendedorismo do que, por exemplo, em se tornar funcionário público — o que há 20 anos era o caminho padrão”, diz Marcus Vinícius Linhares Athayde, presidente do Data Favela, em entrevista à EXAME.

“É uma mudança de mentalidade que vem com a internet, as novas profissões e, principalmente, com a consciência de que é preciso contar com o próprio esforço", afirma.

A pesquisa mostra ainda que a maioria dos moradores de favela acredita que o agente principal da mudança é o próprio esforço. O Estado aparece apenas como terceira força — atrás até mesmo da fé em Deus.

“Essas pessoas já entenderam que precisam correr atrás, com ou sem apoio. Por isso discursos políticos baseados em prosperidade, mesmo sem propostas concretas, ganham espaço”, afirma Athayde. Ele alerta, porém, para o risco de esses discursos se tornarem apenas retórica vazia em 2026.

Apesar das ausências do poder público, metade dos entrevistados acredita que conseguirá realizar seus sonhos. Para 64%, o caminho passa por acesso ao capital e disciplina financeira — o que inclui limpar o nome (37%) e evitar dívidas (7%).

Bolsa Família e perfil de renda

O levantamento também desconstrói uma máxima: 56% dos entrevistados não recebem nenhum benefício social, enquanto apenas 29% mencionam o Bolsa Família ou o Auxílio Brasil como fonte de renda.

“Esse dado quebra um senso comum que muitas vezes serve para difamar quem vive nas favelas. A maioria trabalha ou empreende. Não depende de benefício, como muitos acreditam”, afirma o presidente do Data Favela.

Mais da metade dos entrevistados (58%) vivem com até um salário mínimo por mês, sendo que em regiões como Norte e Nordeste esse número chega a 7 em cada 10 moradores.

A maioria da renda vem de empregos informais ou do próprio negócio — apenas 25% dos empreendedores têm CNPJ ou formalização como MEI.

Esse cenário de informalidade reforça a exclusão de políticas públicas.

“Muitas pessoas nem sabem o que é MEI, ou os benefícios que ele oferece. Isso mostra como o Estado ainda está distante dessas comunidades”, afirmou Athayde.

Mesmo diante da urgência por renda, a educação aparece como um dos pilares para mobilidade social. Cursos técnicos, faculdade e pós-graduação são parte dos planos de quem vê no estudo um meio de mudar de vida. Para 13% dos entrevistados, a educação é o principal caminho para a ascensão.

Casa própria é prioridade, mas empreender é o meio

Apesar da mudança de ambição profissional, a principal meta de vida de quem vive na favela ainda é ter uma moradia melhor, segundo 31% dos entrevistados — dado que aparece à frente de saúde (16%) e educação (13%).

A escolha, segundo Athayde, está diretamente relacionada à precariedade habitacional e à informalidade econômica.

“Esse sonho está ligado a condições materiais, à estabilidade e ao direito de viver com dignidade. É um reflexo claro da ausência de políticas públicas eficazes em habitação”, pontua.

Além da moradia em si, os moradores associam qualidade de vida ao que está no entorno: saúde, segurança, saneamento e acesso a serviços.

“Se você não pode levar sua mãe ao hospital ou seu filho à creche, isso também é um problema habitacional”, disse Athayde.

Os dados demonstram que a saúde já ultrapassou a educação como prioridade emergencial dentro das favelas.

“A precariedade dos serviços de saúde tem sido tão grande que virou a nova urgência. Isso mostra o quanto o básico ainda não chega.”

O déficit estrutural também se reflete no saneamento básico, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde os índices de acesso são menores que a média nacional.

“A gente só fala de saneamento depois que há enchente ou surto de doença. A favela quer prevenção, não apenas resposta”, diz Athayde.

Violência e racismo ainda bloqueiam o futuro

A desigualdade estrutural também se manifesta de forma direta: metade dos entrevistados acredita que a cor da pele influencia negativamente na busca por oportunidades de emprego. Entre as mulheres, a violência doméstica é outro obstáculo grave: 60% afirmam que o problema impede sua ascensão econômica.

A pesquisa "Sonhos da Favela 2026" foi realizada pelo instituto Data Favela entre os dias 11 e 16 de dezembro de 2025. Foram ouvidos 4.471 moradores de favelas com 18 anos ou mais, em todas as regiões do Brasil, com destaque para os estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

O levantamento seguiu os critérios técnicos de amostragem por região e ponderação por peso populacional, com margem de erro de 1,47 ponto percentual e intervalo de confiança de 95%. O questionário estruturado foi aplicado de forma online, via WhatsApp.

Acompanhe tudo sobre:FavelasCUFA - Central Única das Favelas

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