Para Pessoa, essa é uma diferença importante entre o atual ciclo econômico e o período de crescimento observado entre meados dos anos 2000 e 2014. (Eduardo Frazão/Exame)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 25 de agosto de 2026 às 11h37.
A economia brasileira acelerou e o desemprego caiu para níveis historicamente baixos, mas o crescimento recente não veio acompanhado de avanço da produtividade, afirmou o economista Samuel Pessoa durante evento do Movimento Brasil Competitivo (MBC) e da EXAME, em São Paulo, nesta terça-feira, 25.
Para Pessoa, essa é uma diferença importante entre o atual ciclo econômico e o período de crescimento observado entre meados dos anos 2000 e 2014. Nos dois momentos, houve expansão da atividade e redução do desemprego, mas, segundo ele, o comportamento da produtividade foi diferente.
“Agora o PIB acelerou, o desemprego caiu muito”, afirmou. Na avaliação do economista, desta vez, o aumento da demanda gerou crescimento 'sem produtividade'. “Lá em 2003, 2004, a gente colocou demanda, gerou crescimento com produtividade”, disse.
Laura Carvalho, professora da FEA-USP, também reconheceu a melhora dos indicadores econômicos, mas ponderou que o avanço ainda não foi suficiente para produzir uma percepção de prosperidade entre os brasileiros.
“Houve uma melhora significativa em relação ao que estava sendo observado, mas a percepção é de um alívio ainda insuficiente”, afirmou.
Segundo Carvalho, o país levou cerca de dez anos para recuperar o nível de PIB per capita registrado em 2014. Em termos de poder de compra dos salários, afirmou, a maior parte da população só voltou no ano passado ao patamar anterior à crise iniciada há uma década.
“Isso é importante porque, sim, tivemos indicadores positivos de crescimento econômico, acima das previsões, taxa de desemprego em nível histórico. Isso tudo é verdade”, disse.
A economista ponderou, porém, que esses resultados não necessariamente são percebidos pela população como um grande avanço. Entre os motivos, citou a dificuldade para fazer o salário chegar ao fim do mês e o elevado nível de endividamento das famílias.
Para Carvalho, o Brasil precisaria sustentar um crescimento mais robusto por mais tempo para recuperar a sensação de ascensão social observada nos anos 2000.
“As pessoas querem, precisam de um crescimento ainda mais robusto, por mais tempo para que, de fato, elas sintam aquilo que eu acho que sentiram nos anos 2000, que foi um sentimento de ascensão social, de maior prosperidade, de maior possibilidade”, disse.
Ao discutir como elevar a produtividade nos próximos anos, Pessoa apontou a reforma tributária como uma mudança capaz de produzir efeitos estruturais sobre a economia.
Para o economista, a reforma é “o grande legado do terceiro mandato do presidente Lula” e permitirá ao país chegar a 2032 com uma estrutura tributária melhor que a atual.
“Eu acho que ela vai gerar elevações expressivas da produtividade do trabalho”, afirmou.
Pessoa destacou, entre os possíveis efeitos, a redução do custo de conformidade e dos litígios tributários, especialmente relevantes para setores com cadeias produtivas mais longas.
“A indústria de transformação, como ela tem cadeias longas, o Custo Brasil e a dificuldade de fazer negócios no Brasil pioram muito”, disse.
Na avaliação do economista, a simplificação do sistema pode retirar parte desse peso e abrir espaço para outras mudanças, entre elas a revisão dos regimes tributários especiais e uma maior integração da economia brasileira ao mercado internacional.
Para Pessoa, esses movimentos podem ampliar os efeitos da reforma sobre a produtividade e ajudar a enfrentar justamente uma das fragilidades que ele identifica no atual ciclo de crescimento brasileiro.