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ACM Neto explora voto casado com Lula na Bahia e acende alerta na campanha do PT

Candidato da União Brasil explora eleitorado lulista e provoca reação das campanhas do governador Jerônimo Rodrigues e do presidente

ACM Neto fala a jornalistas durante debate da TV Globo na Bahia

ACM Neto fala a jornalistas durante debate da TV Globo na Bahia

Leo Almeida
Leo Almeida

Colaborador

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 14h50.

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Salvador, Bahia — A campanha de Jerônimo Rodrigues (PT) entrou na reta final com a preocupação de evitar a disseminação indesejada do voto de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre seus opositores, o chamado "Lula-Neto".

O voto casado com o presidente tem sido explorado pela candidatura do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), gerando uma batalha judicial e “elevação do tom” de Lula e do governador contra seu principal opositor.

Nos bastidores da campanha governista, a avaliação é de que o "Lula-Neto" se tornou um dos principais obstáculos à reeleição de Jerônimo Rodrigues. A lógica é simples: se o eleitor baiano, que aprova Lula com índices acima de 60%, decidir separar o voto presidencial do voto estadual, o governador perde o principal ativo que construiu para 2026 — a associação direta com o presidente.

O alerta foi aceso pelas próprias pesquisas internas. Levantamentos encomendados pelo PT mostraram que a menção espontânea ao voto casado cresceu em relação a 2022, especialmente entre eleitores de Salvador e da Região Metropolitana, onde ACM Neto mantém base eleitoral sólida desde os oito anos em que governou a capital.

A campanha de Jerônimo reagiu em duas frentes. A primeira foi intensificar a presença de Lula na Bahia. O presidente já visitou o estado oito vezes neste ano, incluindo duas agendas em Salvador no período eleitoral. A segunda foi judicial: a coligação "Mais Bahia, Mais Brasil" entrou com ações na Justiça para tentar remover do ar conteúdos que associam Lula a ACM Neto.

Elevação do tom

Na caminhada desta terça-feira, 29, na região do Farol da Barra, em Salvador, Jerônimo e Lula foram explícitos ao tentar desconstruir a combinação de votos.

"Não existe a possibilidade do 'Neto-Lula'. Esse Neto já inventou até que era negro para enganar o povo da Bahia. Não é possível um cara que eu conheci como 'jockey de cabrito'. A gente tratava ele como 'jockey de cabrito', porque do tamanho dele só pode ser de cabrito", disse Lula durante discurso na capital baiana.

Nos bastidores, auxiliares do governador avaliam que o discurso precisou ser endurecido porque a mensagem anterior — de que Jerônimo era o candidato de Lula — não estava sendo suficiente para conter o avanço do voto cruzado.

A ordem na campanha é repetir a associação "Lula é 13, Jerônimo é 13" em todos os palanques e materiais de campanha.

“Portanto, eu quero pedir a vocês, até o dia 4, estão faltando 5 dias, para a gente poder garantir que o Brasil continue sonhando", disse Jerônimo no mesmo ato. "Não existe um Lula-Neto, não existe."

LEIA MAIS: Com 5 das 10 cidades mais violentas, segurança pública pauta eleição na Bahia

A resposta do ex-prefeito

ACM Neto reagiu no mesmo dia. O ex-prefeito defendeu a liberdade de escolha do eleitor e classificou a fala do adversário como sinal de “desespero”.

"O eleitor é livre para fazer as suas escolhas. E não há nada que possa suprimir isso do eleitor, não há nenhuma palavra de quem quer que seja que possa impedir que o eleitor chegue no dia, nas urnas, e escolha o presidente que for do seu coração, o governador, os senadores, os deputados", afirmou Neto momentos antes do último debate entre os candidatos ao governo da Bahia.

O ex-prefeito também ironizou o tom adotado pelo governador. "Quando o Jerônimo eleva o tom, a gente percebe o nível de desespero que toma conta da candidatura do atual governador. Vocês estão me vendo partir para agressão, para baixaria, para perder a cabeça? Eu não estou fazendo isso. Já o governador, como percebe que os seus dias à frente do Governo do Estado estão contados", complementou.

Neto negou ter responsabilidade pelo voto cruzado, mas liberou a possibilidade para quem assim desejar. "Cada cidadão pode se manifestar como quiser. Não tenho nenhuma responsabilidade com isso. Na Bahia, as pessoas sabem que apoiamos a candidatura de Caiado a presidente. Eu não fico em cima para saber de cada eleitor em quem ele está votando para presidente", disse.

Lula durante ato de campanha em Salvador no final de setembro de 2026

O cálculo da oposição

Lideranças da campanha de ACM Neto estimam que cerca de um quarto dos votos do ex-prefeito esteja associado ao presidente Lula. Nos bastidores, eles confidenciam que o candidato vive um cenário delicado: precisa simultaneamente de votos lulistas e bolsonaristas para superar Jerônimo.

A equação é apertada. O eleitor bolsonarista na Bahia representa cerca de 25% do total, segundo pesquisas eleitorais, e, em tese, não rejeita o apoio de Neto a Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência. Já o eleitor lulista, que representa mais de 50%, precisa ser convencido de que votar em Neto para governador não significa trair Lula.

A aposta da oposição é que o desgaste de quase 20 anos de governo do PT no estado — e a percepção de que a segurança pública e a saúde não melhoraram — seja suficiente para convencer o eleitor a separar os votos. O voto "Lula-Neto" seria, nessa leitura, uma forma de manter o presidente e trocar o governo estadual.

A estratégia de apoiar Caiado neste ano também rebate uma cobrança realizada em 2022, quando ACM Neto permaneceu neutro sobre a disputa presidencial e sofreu cobranças de alas bolsonaristas e lulistas na Bahia. Aliado a isso, a escolha pelo ex-governador de Goiás perpassa uma tentativa de não se associar ao bolsonarismo e lulismo — considerados polos políticos heterogêneos.

Assim, Neto evitaria herdar a rejeição lulista ou bolsonarista em sua candidatura ao governo da Bahia.

A batalha judicial

A campanha de Jerônimo tem ido à Justiça Eleitoral para tentar conter o avanço do voto cruzado. Em agosto, a coligação "Mais Bahia, Mais Brasil" pediu a remoção de um vídeo publicado por influenciadores com a frase "Eu tô com Netinho" e "Eu tô com vovô Lula".

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-BA) negou o pedido. O juiz auxiliar Isaías Vinícius de Castro Simões entendeu que a publicação representa manifestação espontânea de preferência política e destacou que "não existe norma que obrigue o eleitor a manter coerência partidária ou a apoiar exclusivamente candidatos de uma mesma legenda ou coligação". Restringir a publicação, segundo o magistrado, poderia representar "censura prévia injustificada".

A campanha petista já obteve uma multa de R$ 5 mil contra o ex-prefeito de Jacobina, cidade do centro-norte baiano, Tiago Dias (PSDB), por publicar santinhos com Lula e Neto lado a lado. Na ocasião, o TRE-BA entendeu que houve irregularidade na peça de campanha.

Apesar das decisões pontuais favoráveis, a avaliação nos bastidores da campanha governista é de que a via judicial não resolve o problema. O conteúdo continua circulando em grupos de WhatsApp e redes sociais, fora do alcance das ações judiciais.

O fenômeno além da Bahia

O voto casado com Lula não é exclusivo da Bahia. Em Pernambuco e no Ceará, adversários do PT também tentam emplacar o "Cirula", referente a Ciro Gomes (PSDB), e o "Lulaquel", no caso de Raquel Lyra (PSD), combinando o voto no presidente com candidatos de centro-direita ou de oposição nos estados.

O fenômeno reflete a força do petista no Nordeste. Em 2022, Lula venceu em 1.774 cidades nordestinas, enquanto Jair Bolsonaro teve mais da metade dos votos em apenas 20 municípios da região, segundo dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na ocasião, o petista saiu vitorioso em 98,9% das cidades do Nordeste.

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