Colheita de soja: Segundo Trump, entre outros temas, foi discutida a ampliação da cota de compras chinesas de soja americana para 20 milhões de toneladas nesta safra e 25 milhões na próxima. (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 10 de fevereiro de 2026 às 07h13.
O mercado de soja está cético quanto à possibilidade de a China aumentar as compras do grão dos Estados Unidos. Segundo análise da S&P Global, operadores e analistas duvidam que o país asiático vá efetivar aquisições em grandes volumes, em função da falta de competitividade da soja americana em relação ao produto brasileiro.
Na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou, em publicação feita na Truth Social, que conversou por telefone com o presidente chinês, Xi Jinping. Segundo Trump, entre outros temas, foi discutida a ampliação da cota de compras chinesas de soja americana para 20 milhões de toneladas nesta safra e 25 milhões na próxima.
A possibilidade de aumento ocorre na esteira do acordo firmado entre China e EUA no ano passado, quando, como sinal de uma trégua tarifária, o país asiático se comprometeu a ampliar as compras de soja americana.
A declaração provocou reação imediata no mercado: os contratos futuros da soja na bolsa de Chicago (CBOT) subiram 26,5 centavos naquele dia, com o contrato de março fechando a US$ 10,92 por bushel. Isso elevou o preço da soja FOB no porto de Nova Orleans em mais de US$ 10 por tonelada para embarque em março. A tendência de alta se manteve nos dias seguintes.
Apesar da movimentação, o ceticismo persiste. Na sexta-feira, 6, o preço FOB da soja em Nova Orleans para embarque em março era de US$ 454,98 por tonelada, enquanto no porto de Santos, no Brasil, o valor era de US$ 415,31. Já o preço CFR China da soja brasileira estava em US$ 451,86 — inferior ao produto americano.
“A soja brasileira tende a permanecer mais barata nos portos chineses ao longo de 2026, sustentada por uma safra recorde e por uma estrutura logística consolidada ao longo das últimas décadas. Os compradores chineses seguem orientados por critérios econômicos, priorizando origens com melhor relação custo-benefício”, afirma Carlos Cogo, da Cogo Consultoria.
Segundo análise da S&P, comerciantes chineses reconhecem a boa qualidade da soja americana, mas destacam que a diferença de mais de US$ 30 por tonelada no preço FOB, somada ao custo do frete marítimo, inviabiliza a compra comercial em larga escala.
Na avaliação de operadores, compras pontuais por motivação política ainda são possíveis, mas em volumes reduzidos.
“Não há sinais claros de redirecionamento imediato da demanda chinesa, sobretudo em um momento de avanço acelerado da colheita na América do Sul, onde a soja tende a apresentar maior competitividade logística e de preço”, diz Cogo.
Para analistas, a lógica de compra da China permanece centrada na preservação de margens. As processadoras chinesas são extremamente sensíveis a preços e tendem a priorizar fornecedores mais baratos.
Já as empresas estatais, que compram para formação de reservas, podem considerar aspectos políticos ou estratégicos, mesmo com preços mais elevados. Ainda assim, segundo participantes do mercado, o fator comercial segue sendo decisivo.
Jack Larimer, analista sênior da S&P Global, afirma que uma entrada expressiva da China no mercado americano pressionaria os preços da soja nos EUA, reduzindo sua competitividade global.
Segundo ele, isso pode gerar uma perda líquida de 1 a 2 milhões de toneladas em exportações, com impactos também sobre a demanda no início da próxima safra. O cenário amplia o risco de revisão para baixo nas projeções futuras de exportação dos EUA.
Nos Estados Unidos, operadores criticam a interferência política no mercado de grãos. Muitos expressaram frustração com as declarações de Trump, consideradas desestabilizadoras.
Um deles, atuante no mercado CIF de Nova Orleans, questionou como se pode operar quando o mercado se baseia em fundamentos, mas é constantemente afetado por publicações políticas.
Além disso, diz a S&P, fontes americanas apontam que o governo ainda não definiu as regras da obrigação de volume renovável (RVO), fator essencial para sustentar a demanda por soja destinada à produção de biocombustíveis nos EUA.
A sinalização de Trump ocorre em um cenário de margens apertadas e custos elevados enfrentados pelos produtores rurais americanos. No ano passado, os agricultores americanos foram afetados pela guerra tarifária de Trump uma vez que a China comprou mais soja brasileira, e também Argentina.
Uma pesquisa do Federal Reserve (Fed) mostra que os empréstimos agrícolas cresceram 40% no último trimestre de 2025. Além disso, o valor médio desses financiamentos foi 30% maior do que no ano anterior — o que indica que os produtores estão tomando empréstimos maiores para cobrir custos operacionais, segundo o banco americano.
O sentimento no campo também piorou. Segundo pesquisa da Universidade Purdue em parceria com o CME Group, a proporção de agricultores que esperam enfrentar dificuldades financeiras no próximo ano subiu de 47% em dezembro para 59% em janeiro.
Na semana passada, o presidente da Comissão de Agricultura do Senado americano afirmou que os produtores rurais do país estão enfrentando grandes prejuízos.
Além disso, líderes do setor alertaram sobre o risco de um “colapso generalizado da agricultura americana”, provocado pela escalada nos preços dos insumos e pela guerra tarifária liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Nem mesmo o pacote de US$ 12 bilhões anunciado em 2025 pelo governo republicano deve aliviar os custos para os produtores.
"Esse apoio servirá como uma tábua de salvação para aqueles que estão simplesmente tentando chegar ao próximo ano. Mas é apenas uma tábua de salvação, não uma solução a longo prazo", afirmou à Reuters, Mike Stranz, vice-presidente de defesa de interesses da National Farmers Union, quando Trump anunciou o pacote.