Plantação de soja: No ano passado, em razão da guerra tarifária implementada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, a China optou por comprar mais soja brasileira do que americana. (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 15h08.
Os produtores de soja dos Estados Unidos estão pessimistas com a safra deste ano — e apontam o Brasil como o principal motivo. Segundo o Ag Barometer, levantamento da Universidade de Purdue em parceria com o CME Group, os agricultores americanos estão preocupados com a competitividade das exportações de soja dos EUA frente aos embarques do Brasil. A pesquisa foi realizada em dezembro
O estudo mostra que, embora as expectativas gerais para as exportações agrícolas permaneçam positivas, o cenário se torna mais incerto quando o foco é a soja.
“O aumento da concorrência do Brasil está pesando na mente dos produtores", afirma o documento. Ao todo, 84% dos produtores de milho e soja disseram estar preocupados ou muito preocupados com a competitividade da soja brasileira. Desse total, 45% afirmaram estar “muito preocupados” com o cenário futuro.
O clima de pessimismo vem na esteira da safra de 2025. No ano passado, em razão da guerra tarifária implementada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, a China optou por comprar mais soja brasileira do que americana.
O resultado: em 2025, as exportações brasileiras de soja para a China somaram aproximadamente 90 milhões de toneladas, segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), um recorde. Para 2026, a entidade projeta embarques de cerca de 77 milhões de toneladas ao mercado chinês.
Em meio à disputa com o Brasil, os EUA e a China firmaram um acordo pelo qual o país asiático voltaria a comprar volumes maiores de soja americana.
Em 2025, foram exportadas 12 milhões de toneladas. Para 2026 e os próximos anos, a expectativa é de que esse número retorne aos patamares de 25 milhões de toneladas, segundo Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA.
“Tive uma reunião com meu homólogo chinês aqui em Davos ontem à noite. Ele me disse que, nesta semana, eles concluíram suas compras de soja e que estão ansiosos pelas 25 milhões de toneladas do próximo ano”, afirmou Bessent durante participação no Fórum Econômico Mundial (WEF), em Davos.
A pesquisa da Purdue com o CME também mostra que o percentual de produtores que acreditam em um crescimento das exportações de soja recuou de 47% para 39% — movimento atribuído à percepção de perda de competitividade frente ao Brasil.
O sentimento de insegurança sobre o desempenho da soja é um dos fatores que mais influenciam negativamente as expectativas futuras do setor agrícola nos EUA. Já o número de produtores que projetam queda nas exportações subiu de 8% para 13%.
Na semana passada, entidades como a Federação Americana de Escritórios Agrícolas (American Farm Bureau Federation) e a Associação Americana de Soja (American Soybean Association) enviaram uma carta para o Congresso dos EUA solicitando apoio econômico adicional para compensar perdas ainda não cobertas.
A mobilização vem após o anúncio, em dezembro, de um pacote emergencial de US$ 12 bilhões pelo governo Trump, para mitigar os prejuízos sofridos pelo setor agrícola.
Em paralelo ao aumento da preocupação com a soja, o estudo detectou uma queda no apoio ao uso de tarifas comerciais como instrumento de política agrícola.
Em dezembro, 54% dos entrevistados disseram esperar que tarifas fortaleçam a economia agrícola dos EUA, contra 59% no mês anterior — essa é a terceira queda mensal consecutiva do indicador, que atingiu 70% em abril.
A incerteza também aumentou: 19% dos produtores afirmaram estar inseguros quanto ao impacto de longo prazo das tarifas sobre o agro dos EUA, mais do que o dobro da taxa observada na primeira vez em que a pergunta foi feita, na primavera de 2025.
“A porcentagem de produtores que dizem estar incertos sobre como a política tarifária afetará a economia agrícola no longo prazo mais que dobrou desde que esta questão foi colocada pela primeira vez”, afirma o relatório.
Apesar disso, o sentimento sobre o cenário doméstico demonstrou força: 75% dos entrevistados disseram acreditar que o país está na “direção certa” – o maior nível desde julho, quando a pergunta foi incluída nas pesquisas do levantamento.