Agro em 2026: combinação de margens apertadas, juros elevados e volatilidade política — impulsionada pelas eleições presidenciais — deve testar a resiliência dos produtores rurais (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 06h01.
Mesmo com a expectativa de um novo recorde na produção de grãos do Brasil neste ano, o cenário para o agricultor brasileiro deve continuar desafiador em 2026. A combinação de margens apertadas, juros elevados e volatilidade política — impulsionada pelas eleições presidenciais — deve testar a resiliência dos produtores rurais, especialmente os mais alavancados.
Essa é a avaliação do Brazil Agribusiness Outlook 2026, elaborado pela RaboResearch, braço de pesquisa do banco holandês Rabobank.
Apesar do contexto macroeconômico adverso — com projeção de crescimento de 1,6% do PIB e taxa Selic em 12,5% ao fim do ano —, a expectativa é de continuidade na expansão de culturas como soja e milho, principais commodities agrícolas exportadas pelo Brasil.
O dólar, projetado em R$ 5,60, e as incertezas fiscais típicas de um ano eleitoral são apontados como fatores de risco que podem impactar o custo dos insumos e o comportamento dos preços domésticos.
“Mesmo com margens positivas sobre os custos operacionais, a renda agrícola sofreu um aperto” em 2025, e a expectativa é de que a situação “só comece a aliviar no final da safra 2026/27”, afirma o Rabobank.
Segundo o relatório, as margens pressionadas que marcaram a safra 2024/25 devem se manter na temporada atual.
O motivo, de acordo com o banco, é o endividamento de agricultores que investiram fortemente entre 2019 e 2023 e agora enfrentam dificuldades diante do elevado custo do crédito — atualmente, a taxa básica de juros está em 15% ao ano.
O reflexo disso é uma renda agrícola pressionada e o aumento nos casos de recuperação judicial no setor.
Ainda assim, os analistas do Rabobank projetam crescimento de 2% na área plantada de soja na safra 2025/26, atingindo produção recorde de 177 milhões de toneladas. A estimativa está em linha com as projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e de outras consultorias privadas.
O uso de fertilizantes também deve bater novo recorde, superando 46,5 milhões de toneladas. Já o mercado de defensivos tenta se recuperar após a crise de estoques e a entrada de novos concorrentes, especialmente chineses.
No caso do milho, a demanda doméstica deve superar a capacidade exportadora. Com 137 milhões de toneladas previstas para a safra 2025/26, a projeção do Rabobank é de que o cereal será absorvido principalmente pelas cadeias de etanol e proteína animal, especialmente aves e suínos.
A indústria de etanol de milho, concentrada no Centro-Oeste, projeta consumir até 28 milhões de toneladas do grão.
Atualmente, o Brasil conta com 24 usinas de etanol de milho em operação, 16 autorizadas a funcionar e outras 16 anunciadas para inauguração neste e nos próximos anos, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
Para a soja as previsões também são positivas. As exportações do grão devem alcançar cerca de 111 milhões de toneladas, beneficiadas por uma base firme de preços internos e pela demanda chinesa. No ano passado, o Brasil exportou 108 milhões de toneladas de soja.
A elevação do mandato de biodiesel para 16%, prevista na Lei do Combustível do Futuro, deve elevar o esmagamento doméstico para 60 milhões de toneladas. No entanto, segundo o Rabobank, “há dúvidas quanto à implementação dessa política em março”.
No setor de proteínas, os destaques são as carnes suína e de frango. Segundo análise do Rabobank, a continuidade dos surtos de peste suína africana na Ásia e na Europa, aliada às restrições impostas a exportadores como os Estados Unidos e a União Europeia, reforça a competitividade do Brasil no mercado internacional.
A expectativa é de que a produção de carne suína cresça entre 2% e 3% em 2026, impulsionada pela ampliação das exportações para novos mercados, como Filipinas e México.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a produção brasileira de carne suína deve crescer até 2,7% em 2026, alcançando 5,7 milhões de toneladas.
No caso do frango, o consumo interno — hoje em torno de 49 kg per capita — deve ser favorecido pela alta nos preços da carne bovina. Geralmente, quando há aumento nos preços de uma proteína, o consumidor opta por alternativas mais acessíveis.
Já a pecuária bovina entra em uma fase de recomposição de rebanho. Após anos de abate elevado de fêmeas, a oferta deve cair entre 5% e 6%, elevando os preços da arroba e provocando um possível efeito em cadeia.
Levantamento da Datagro, consultoria agrícola, estima uma queda de 7,5% no número de abates em 2026, para 38 milhões de cabeças, o que deve impactar toda a cadeia pecuária. A retração é atribuída ao estágio atual do ciclo pecuário.
Com a menor oferta, a previsão é de aumento nos preços, o que pode levar o consumo doméstico a cair 7,1%, para 6.043 toneladas em equivalente carcaça (TECs). Para as exportações de carne bovina, a estimativa também é de retração, de 1,9%, para 3.981 TECs.
Mas o mercado pode sofrer com a imposição de tarifas de 55% pela China sobre volumes acima de 1,1 milhão de toneladas, o que pode limitar as exportações no último trimestre de 2026.
No fim de 2025, o governo chinês anunciou a aplicação de tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como o Brasil, caso os embarques ultrapassem certos limites.
A cota total para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao país, ficou com a maior parte: 41,1%, ou 1,1 milhão de toneladas, segundo o Ministério do Comércio da China (MOFCOM). No ano passado, foram embarcadas 1,7 milhão de toneladas para o país asiático.