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'Haverá um impacto severo sobre a produtividade': o alerta do CEO da Yara

Guerra no Oriente Médio pressiona fertilizantes enquanto agricultores reduzem o uso do insumo para proteger as margens, diz Svein Tore Holsether, CEO global da Yara

Svein Tore Holsether, CEO global da Yara Fertilizantes: “Se você não fornecer os nutrientes adequados aos campos dos agricultores, a produção e a produtividade cairão. Em alguns casos, você pode adiar isso por algum tempo, mas eventualmente isso aparecerá na forma de rendimentos menores”, afirma. (César H.S. Rezende)

Svein Tore Holsether, CEO global da Yara Fertilizantes: “Se você não fornecer os nutrientes adequados aos campos dos agricultores, a produção e a produtividade cairão. Em alguns casos, você pode adiar isso por algum tempo, mas eventualmente isso aparecerá na forma de rendimentos menores”, afirma. (César H.S. Rezende)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 14 de setembro de 2026 às 11h24.

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SLUISKIL* (HOLANDA) – Cerca de metade da produção mundial de alimentos depende diretamente de fertilizantes, segundo Svein Tore Holsether, CEO global da Yara. Agora, a combinação da guerra no Oriente Médio, da energia mais cara e das margens apertadas dos agricultores ameaça justamente o insumo que sustenta essa produção.

Para o executivo, a guerra no Irã, em curso desde fevereiro deste ano, piora ainda mais esse quadro. Segundo ele, os impactos sobre energia, matérias-primas e logística mostram a fragilidade da cadeia global de fertilizantes.

“É um dos estreitos mais importantes para a exportação de fertilizante de ureia. Cerca de 30% da ureia comercializada passa pelo Estreito de Ormuz, mas ele também é importante para o enxofre, que é muito relevante para a produção de fertilizantes fosfatados”, diz o executivo.

A ureia, que custava cerca de US$ 80 por tonelada em 2024, chegou a aproximadamente US$ 1,2 mil por tonelada no auge da guerra no Irã, uma alta de quase 1.400%. Embora tenha recuado para a faixa de US$ 800 por tonelada, o preço continua elevado e pressiona a cadeia de fertilizantes.

Já o enxofre, embora não seja aplicado diretamente em grandes volumes nas lavouras, é uma matéria-prima essencial para a produção de ácido sulfúrico, usado na fabricação de fertilizantes fosfatados como MAP e DAP. São esses fertilizantes que entregam fósforo às plantas, nutriente importante para o desenvolvimento das raízes, a formação de energia celular e o ganho de produtividade no campo.

O problema não termina na oferta. Com fertilizantes mais caros, agricultores de diferentes mercados estão reduzindo a aplicação para proteger as margens já apertadas. Na safra 2026/27, o produtor deve ter uma das piores margens para a soja dos últimos 20 anos.

As exportações globais de enxofre caíram quase 40% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O preço médio do produto chegou a US$ 733 por tonelada, valor 2,7 vezes superior à média de 2025, segundo cálculos do Rabobank, banco holandês voltado para o agronegócio.

Para Holsether, essa decisão pode aliviar o caixa no curto prazo, mas cobra uma conta mais adiante: a menor disponibilidade de nutrientes no solo tende a reduzir a produtividade das lavouras.

“Se você não fornecer os nutrientes adequados aos campos dos agricultores, a produção e a produtividade cairão. Em alguns casos, você pode adiar isso por algum tempo, mas eventualmente isso aparecerá na forma de rendimentos menores”, afirma.

O efeito, segundo o executivo, não precisa aparecer imediatamente. O produtor pode postergar a reposição de nutrientes por algum tempo, mas a redução prolongada da aplicação tende a comprometer o rendimento das culturas.

“Todos os estudos de longo prazo mostram o mesmo resultado: haverá um impacto severo sobre a produtividade”, afirma Holsether.

Levantamento do Rabobank, mostra que o produtor rural brasileiro deve pisar no freio na atual temporada. Após um recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes entregues em 2025, o país deve reduzir o consumo para 45,1 milhões de toneladas em 2026, segundo projeções do banco.

A estimativa já caiu de 47 milhões de toneladas em abril, e o Rabobank ainda vê espaço para uma nova revisão para baixo. O banco estima que esse processo de ajuste financeiro dure mais um ano e meio.

O efeito El Niño

A preocupação ganha uma dimensão maior, diz o CEO da Yara, quando o El Niño, fenômeno climático que deve chegar ainda este mês ao Brasil, é adicionado à equação.

O executivo alerta para o risco de uma combinação entre eventos climáticos extremos, aplicação inadequada de fertilizantes e um El Niño mais forte. Isoladamente, cada fator já pode pressionar a produção; juntos, podem ampliar o impacto sobre a oferta mundial de alimentos.

“Se houver uma combinação de condições climáticas severas, aplicação inadequada de fertilizantes e talvez também um El Niño mais forte, a combinação de tudo isso pode ser grave”, afirma.

Para o Brasil, a questão é particularmente sensível. O país tem disponibilidade de terra agricultável, água e condições climáticas favoráveis, mas depende de uma quantidade significativa de fertilizantes para manter a produtividade dos solos. Cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.

“O fertilizante é particularmente importante no Brasil porque o país tem muitos elementos importantes para a produção de alimentos. Há terras agricultáveis disponíveis e boas condições climáticas, com sol e água. Mas o solo brasileiro precisa de uma quantidade significativa de fertilizantes para continuar produtivo”, afirma Holsether.

O executivo também chama atenção para o efeito econômico da redução do uso de fertilizantes. Agricultores estão administrando seus negócios e precisam tomar decisões diante de custos elevados. O problema é que uma economia feita hoje pode significar uma perda de produtividade nas próximas safras.

“Os agricultores também administram negócios, certo? Portanto, precisam fazer o que é adequado para seus resultados financeiros”, afirma.

*O repórter viajou a convite da Yara Fertilizantes

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