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Por que o conflito no Irã encarece os fertilizantes e ameaça a safra dos EUA

Com a intensificação do conflito no Oriente Médio, fornecedores retiraram ofertas dos insumos, o que aumenta a incerteza sobre os preços, avalia analista

Agro dos EUA: Os Estados Unidos estão em plena alta temporada de compras, entre janeiro e março, período de recomposição de estoques para a safra de primavera. (Freepik)

Agro dos EUA: Os Estados Unidos estão em plena alta temporada de compras, entre janeiro e março, período de recomposição de estoques para a safra de primavera. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 3 de março de 2026 às 16h01.

Última atualização em 3 de março de 2026 às 16h03.

O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel provocou um choque imediato no mercado global de fertilizantes e deve atingir os produtores americanos, que estão em plena temporada de compras para a safra de primavera. A avaliação é de Tomás Pernías, analista de fertilizantes da StoneX.

Segundo ele, a tensão no Oriente Médio já vinha sendo monitorada nas últimas semanas, mas o cenário mudou com a escalada recente.

“Até então, era algo que trazia mais incerteza para o mercado de nitrogênio, que já estava com um balanço global bem apertado. Agora, com o estouro desse conflito, a situação é completamente diferente”, afirma.

Na manhã de sábado, 28, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Os bombardeios coordenados mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando o Irã em instabilidade e desencadeando um conflito que pode envolver grande parte do Oriente Médio.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 2, que a ofensiva pode durar até cinco semanas.

O peso da região é significativo: o Oriente Médio é a maior região exportadora de ureia do mundo, com cerca de 20 milhões de toneladas por ano — o equivalente a 35% do comércio marítimo global do produto. Além disso, responde por 28% dos embarques de amônia e por 29% das exportações de fosfato diamônico (DAP).

O próprio Irã tem participação relevante nesse mercado: o país concentra 11% das exportações globais de ureia e 5% das de amônia, segundo dados da Argus Media e da StoneX.

Com a intensificação do conflito, fornecedores retiraram ofertas do mercado, reduzindo a disponibilidade e ampliando a incerteza sobre a formação de preços, avalia o analista.

“Os vendedores que possuem cargas para vender optam por não vender para entender melhor qual é o tipo de precificação que está sendo feita”, disse Pernías.

Além da redução da oferta, surgem impactos logísticos. Navios estão evitando o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento de fertilizantes da região.

Ormuz — por onde passa cerca de um terço da ureia global, além de volumes expressivos de energia — está “efetivamente fechado”. Ao mesmo tempo, o tráfego pelo corredor do Mar Vermelho, Bab el-Mandeb e Canal de Suez foi interrompido por diversas companhias.

“Só essa maior cautela com relação a essa rota já é suficiente para trazer, no mínimo, atrasos na entrega de fertilizantes”, afirma.

Os primeiros movimentos de preço já apareceram. No mercado futuro, a ureia registrou alta de cerca de 50 dólares, enquanto no mercado físico houve reajustes entre 30 e 50 dólares por tonelada. As referências ainda são preliminares, mas indicam uma mudança imediata de patamar.

O ponto, segundo Pernías, é a sazonalidade. Os Estados Unidos estão no período de alta temporada de compras de fertilizantes, que vai de janeiro a março, época de recomposição de estoques para a safra de primavera.

“Eles estão em plena preparação para a próxima safra. Esse evento cai numa hora muito ruim para os compradores norte-americanos”, afirmou. Diferentemente do Brasil, que está em baixa temporada de aquisições de nitrogenados, os importadores americanos têm pouca margem para postergar as decisões.

A dependência externa amplia o risco. Em 2025, 22% das importações de ureia dos EUA vieram do Catar, enquanto 65% das compras de DAP tiveram origem na Arábia Saudita — país que utiliza o Estreito de Ormuz para escoar sua produção.

“Se olharmos as importações de DAP dos Estados Unidos em 2025, 65% vieram da Arábia Saudita. Isso coloca o mercado americano de fosfatos em uma posição especialmente sensível", diz Pernías.

A valorização do petróleo é outro vetor de pressão. O encarecimento dos combustíveis eleva o frete marítimo — um custo relevante para países importadores — e adiciona mais uma camada de alta aos fertilizantes.

O agro dos EUA

O conflito iniciado por Donald Trump ocorre em um momento já delicado para o agro dos Estados Unidos, uma vez que as perspectivas para o setor em 2026 não são otimistas.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que a dívida agrícola total aumentará 5,2% neste ano, atingindo o recorde de US$ 624,7 bilhões — movimento que reforça a necessidade de apoio financeiro aos produtores nas condições atuais.

Uma pesquisa do Federal Reserve (Fed) aponta que os empréstimos agrícolas cresceram 40% no último trimestre de 2025.

Além disso, o valor médio desses financiamentos foi 30% superior ao registrado no ano anterior, sinalizando que os produtores estão recorrendo a volumes maiores de crédito para cobrir custos operacionais, segundo o banco central americano.

O sentimento no campo também se deteriorou. Levantamento da Universidade Purdue em parceria com o CME Group mostra que a proporção de agricultores que esperam enfrentar dificuldades financeiras no próximo ano subiu de 47%, em dezembro, para 59%, em janeiro.

Líderes do setor têm alertado para o risco de um “colapso generalizado da agricultura americana”, impulsionado pela escalada nos preços dos insumos e pela guerra tarifária liderada por Trump.

Segundo Tomás Pernías, da StoneX, há relatos de margens apertadas, aumento nos pedidos de recuperação judicial e pressões externas, como a guerra comercial com a China. No mercado de fosfatos, a situação é considerada ainda mais sensível.

“Existe bastante receio sobre qual será a decisão do agricultor norte-americano. Se haverá redução na aplicação de fosfatos ou migração para produtos menos concentrados”, afirma.

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