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Guerra no Irã dispara diesel e aperta o bolso do agro — e do consumidor

Combustível mais caro encarece produção e preocupa produtores, diz Rabobank em relatório

Colheita da soja em Mato Grosso: estado é um dos principais produtores do grão no país (Alexis Prappas/Exame)

Colheita da soja em Mato Grosso: estado é um dos principais produtores do grão no país (Alexis Prappas/Exame)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 26 de março de 2026 às 12h11.

Por causa da guerra no Irã, a safra 2026/27 deve ser marcada por uma pressão crescente nos custos de produção, com o diesel — assim como os fertilizantes — assumindo papel central na formação das margens do agro e do consumidor brasileiro. O diagnóstico consta no relatório do Rabobank, divulgado nesta quinta-feira, 26.

O aumento do diesel está diretamente ligado ao cenário geopolítico internacional. O conflito no Oriente Médio, envolvendo grandes produtores de petróleo — como o Irã —, elevou os preços de energia e trouxe maior volatilidade ao mercado global.

Esse movimento já tem reflexos no Brasil. O impacto mais imediato tende a aparecer no bolso do consumidor, já que o transporte representa uma fatia relevante do custo final de diversos produtos, especialmente no agronegócio. No país, o modal rodoviário responde por entre 60% e 75% da movimentação de cargas.

Além disso, entidades como a Associação Brasileira de Proteina Animal (ABPA) já estimam aumento de custos no preço dos ovos e carne suína.

“O agro brasileiro já está sentindo diretamente as consequências do conflito no Oriente Médio, com a elevação dos preços de ureia e de diesel no mercado local”, diz o relatório.

Na prática, o impacto é imediato e mensurável. Neste mês, a Petrobras reajustou o preço do diesel em 11,5% nas refinarias, refletindo a pressão internacional sobre o petróleo.

Ao mesmo tempo, o país segue exposto às oscilações externas: entre 25% e 30% do diesel consumido no Brasil é importado, o que amplia a transmissão dos choques globais para o mercado doméstico.

O efeito mais visível desse movimento aparece na logística, um dos principais componentes de custo do agronegócio.O encarecimento do diesel eleva o frete, tanto no transporte interno quanto nas exportações.

No caso da soja, por exemplo, o relatório aponta que o aumento do combustível já contribui para reduzir o valor ofertado ao produtor, mesmo em um cenário de safra recorde. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de uma produção de 179 milhões de toneladas.

No milho, a dinâmica é semelhante. Segundo o documento, a alta do petróleo pressiona o custo do diesel e, consequentemente, o frete interno, o que pode limitar o ritmo das exportações brasileiras em 2026.

Com custos logísticos mais elevados, o mercado doméstico tende a ganhar competitividade relativa — mas à custa de margens mais estreitas para o produtor.

Máquinas agrícolas

Esse encadeamento de efeitos coloca o diesel no centro das decisões produtivas para a próxima safra, que começa em 1º de julho, além do seu efeito cascata.

Além de impactar o transporte, o combustível é essencial para a operação de máquinas agrícolas, o que amplia seu peso no custo total de produção.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, um dos principais produtores de soja e arroz do Brasil, produtores relatam falta de diesel para as atividades de colheita. Na semana passada, entidades do agronegócio gaúcho relataram dificuldades para garantir diesel para a colheita.

Diante do cenário, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou ter recebido relatos pontuais de dificuldade na compra do combustível por produtores no estado, mas afirmou que os estoques são suficientes para garantir o abastecimento.

O resultado é um ambiente de maior cautela no campo, em que decisões de plantio, comercialização e investimento passam a considerar com mais intensidade a volatilidade dos insumos energéticos.

Segundo o Rabobank, o cenário pode desencadear ajustes estruturais. A elevação do custo do diesel pode acelerar discussões sobre alternativas energéticas, como o aumento da mistura de biodiesel, prevista na política de combustíveis.

Na quinta-feira, 19, o governo cancelou a reunião que aumentaria de 15% (B15) para 16% (B16) a mistura do biodiesel no diesel e não marcou uma nova data.

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