Aplicação de fertilizante no campo: soja, milho e cana-de-açúcar respondem por 73% do consumo no Brasil (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)
diretora executiva do Imaflora
Publicado em 31 de março de 2026 às 05h30.
Última atualização em 31 de março de 2026 às 05h54.
Eduardo Trevisan e Marina Piatto*
A atual guerra no Irã e o estrangulamento do Estreito de Ormuz trazem consequências à produção de alimentos que vão muito além do encarecimento do transporte pelo aumento exponencial do custo do petróleo.
Ao bloquear parcial ou totalmente a passagem de navios pelo principal canal de exportação de ureia e enxofre do planeta, o conflito atinge diretamente a agricultura moderna, prejudicando o fluxo de compostos que sustentam metade da produção mundial de alimentos.
Os fertilizantes mais usados atualmente têm como base três nutrientes essenciais ao crescimento das plantas – nitrogênio, fósforo e potássio, o famoso ‘NPK’. Para compor esse trio, a ureia, sintetizada a partir de gás natural, é a principal fonte de nitrogênio, enquanto os compostos fosfatados e potássicos são obtidos por meio de mineração.
Parte significativa da ureia e de matérias-primas para fosfatos (como o enxofre) saem justamente do Golfo Pérsico e precisam atravessar o Estreito de Ormuz para chegarem às lavouras.
Com o conflito na região e a redução do fluxo marítimo, entre 30% e 50% do comércio mundial de ureia, enxofre e fosfatos ficaram ameaçados ou encarecidos. A redução na oferta fez os preços dos fertilizantes dispararem, elevando o custo da produção agrícola e, consequentemente, do preço dos alimentos no mundo todo.
Quanto mais tempo durar a tensão na passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, maior será a dificuldade de acesso a milhões de toneladas de ureia e enxofre, uma vez que grande parte desses insumos sai do Irã, Qatar, Emirados e Arábia Saudita com destino a portos da África, da Ásia e da América Latina, principalmente.
Os saltos de mais de 30% nos preços internacionais de ureia, além da forte pressão sobre o enxofre usado na fabricação de ácido sulfúrico e, consequentemente, de fertilizantes fosfatados, afeta a todos os produtores, independentemente do porte.
Quando o valor da tonelada de ureia sobe de 30% a 40%, a tendência do setor não é “absorver o custo”, mas aplicar menos adubo, reduzir área plantada ou simplificar o manejo – em suma, produzir menos comida, o que no atual momento acontece exatamente quando os preços internacionais dos alimentos ameaçam uma nova alta.
O Brasil importa praticamente toda a ureia que usa e depende de forma relevante do enxofre e derivados que cruzam o Estreito de Ormuz, diretamente ou via grandes misturadores globais.
Desde o início da escalada da guerra, a ureia importada para o mercado brasileiro saltou para patamares acima de 600 dólares por tonelada nos portos, alta de 36% em comparação aos preços no fim de 2025, enquanto analistas projetam risco de déficit de até 20% da demanda de fosfatados em 2026, se o bloqueio persistir.
As principais janelas de importação de fertilizantes no Brasil se concentram entre o segundo e o quarto trimestres do ano. O aumento de preços atual deve acertar em cheio os custos de produção da safra 2026/27. O produtor nacional, já um tanto afetado pelas altas taxas de juros, terá sua margem mais apertada e maior dificuldade de investimento na próxima safra.
Em países mais pobres, onde o uso de fertilizantes é baixo, a alta dos preços vai prejudicar ainda mais a produtividade e o acesso a alimentos de qualidade por parte das populações.
Nesse contexto, a guerra no Irã se traduz em roças mal adubadas, safras menores e inflação no custo dos alimentos, corroendo o poder de compra das populações em locais onde não se ouvirão bombas, mas o peso da fome será sentido.
São vítimas que se somam às milhões de pessoas atingidas diretamente pelo conflito, seja pela retirada forçada do território ou pelos ataques. É um risco claro, de consequências globais e que poderá ampliar muito rapidamente as desigualdades sociais, em especial nos países já vulneráveis.
Eduardo Trevisan é diretor de ESG e Certificações e Marina Piatto é diretora executiva, ambos do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora)