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B16: 'Se o governo quiser, dá para fazer', diz setor sobre aumento de biodiesel

Para Daniel Furlan Amaral, diretor da Abiove, aumento da mistura pode reduzir a dependência externa e ajudar a amortecer choques de preços no diesel

Daniel Furlan Amaral, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove: O que está em discussão agora é a possibilidade de realizar uma avaliação com o mesmo rigor técnico, mas que permita uma decisão mais ágil.

Daniel Furlan Amaral, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove: O que está em discussão agora é a possibilidade de realizar uma avaliação com o mesmo rigor técnico, mas que permita uma decisão mais ágil.

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 23 de março de 2026 às 06h00.

Última atualização em 23 de março de 2026 às 06h19.

O avanço do biodiesel no Brasil entrou em compasso de espera — não por falta de capacidade. Enquanto o setor afirma que está pronto para ampliar a mistura no diesel, o governo adiou, mais uma vez, a discussão sobre a elevação do B15 para o B16, prevista para a última quinta-feira, 19, e agora sem nova data definida pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

“Dá para fazer se o governo quiser, mas exige um esforço enorme também do setor”, diz Daniel Furlan Amaral, diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Hoje, o biodiesel representa 15% da mistura no diesel. O plano, definido pela Lei do Combustível do Futuro, é elevar esse percentual gradualmente até 20% em 2030, com aumentos anuais de um ponto percentual. O próximo passo seria justamente o B16 — agora sem data para acontecer.

O impasse tem efeitos diretos sobre a cadeia produtiva. Atualmente, o óleo de soja responde por mais de 75% da produção nacional de biodiesel, o que faz com que qualquer mudança no cronograma impacte desde o processamento do grão até os investimentos no setor.

Mais do que uma simples decisão regulatória, o adiamento evidencia a complexidade do tema. A ampliação da mistura envolve exigências técnicas previstas em lei, seus efeitos sobre os preços dos combustíveis e um cenário internacional pressionado — especialmente diante das tensões recentes, como a guerra no Irã.

Diante desse contexto, o setor tenta reposicionar o biodiesel como parte da solução. A avaliação é que o aumento da mistura pode reduzir a dependência externa e ajudar a amortecer choques de preços no diesel, que saltaram 20% no Brasil, desde o conflito no Irã.

Não por acaso, a expectativa de avanço no percentual já mobiliza investimentos: segundo a Abiove, cerca de R$ 5,9 bilhões devem ser aportados na cadeia nos próximos 12 meses, impulsionados justamente pela perspectiva de expansão do biodiesel no país.

Leia a entrevista completa

O governo adiou, mais uma vez, a discussão sobre o aumento do B15 para o B16. Como o setor enxerga essa movimentação?

A reunião do CNPE sempre reúne múltiplas pautas — não se trata de um único tema, mas de uma agenda extensa. Nesse contexto, a leitura é que o governo ainda está ajustando as engrenagens para entender todos os impactos e até onde essa crise pode chegar. Não é uma decisão simples. Existem efeitos diretos e indiretos, e tudo é extremamente delicado.

Mas o que falta para o B16 avançar então?

A Lei do Combustível do Futuro estabelece que aumentos de mistura a partir de 16% precisam ser respaldados por avaliações que comprovem a viabilidade técnica. Nesse sentido, o Ministério de Minas e Energia (MME) vem conduzindo um trabalho amplo, com uma série de ensaios e testes, para garantir essa viabilidade — primeiro até o B20 e, posteriormente, até o B25. O que está em discussão agora é a possibilidade de realizar uma avaliação com o mesmo rigor técnico, mas que permita uma decisão mais ágil. Hoje, esse conjunto de testes demanda um tempo de execução relativamente longo. É possível acelerar o processo com a ampliação de equipes, mas ainda assim não se trata de algo imediato. A avaliação do setor é de que, caso o governo considere pertinente, seria possível estruturar uma proposta tecnicamente robusta para garantir a viabilidade ao menos até o B17 em cerca de 45 dias.

Essa proposta já foi apresentada ao governo?

Foi levada uma primeira ideia. O governo, quando recebe uma avaliação do setor, precisa validar com outros órgãos governamentais e entidades. Então foi levado em um primeiro momento, não tivemos uma resposta conclusiva, mas esperamos que, se o governo entender que é preciso mais biodiesel no Brasil para ajudar a reduzir tensões e amortecer os efeitos dessas crises, o setor estará disposto a discutir.

É ano de eleição no Brasil. Há receio de que o calendário eleitoral atrase ainda mais essa discussão sobre o aumento da mistura?

Eu não tenho a questão eleitoral como uma preocupação. Para mim, ela não está no radar como elemento preocupante, porque estamos falando de uma questão estrutural brasileira, que é preço e energia. O Brasil não pode ficar sem diesel. O que mais preocupa hoje é o cenário internacional. Estamos vendo um mundo com muitas tensões, guerra, incertezas. Nesse contexto, o Brasil tendo biodiesel e refinarias deveria olhar para esses insumos estratégicos para não ficar tão sujeito a crises externas, já que temos capacidade de produzir aqui.

Os preços do diesel saltaram mais de 20% nos últimos dias por conta da guerra no Irã. O biodiesel pode ajudar a reduzir o impacto do preço do diesel?

Quando produzimos biodiesel, deixamos de exportar soja in natura e passamos a agregar valor aqui. Parte vira óleo para biodiesel, parte vira farelo para ração, ajudando setores como o de carnes. Isso gera emprego, renda e fortalece o PIB. Em um cenário de crise internacional, é uma oportunidade para o Brasil reduzir a dependência externa e amortecer impactos de preço.

Nos últimos dias surgiram rumores de que o aumento da mistura poderia sair de B15 para B20. Isso está no radar do setor?

Dá para fazer se o governo quiser, mas exige um esforço enorme também do setor. Não é uma questão simples sair de 15% para 20%. Temos que fazer todo um trabalho de alinhamento com o governo, não pode ser também uma coisa de colocar 20% e depois voltar atrás. Tem que ser um processo duradouro e firme, porque envolve investimento. Estamos falando de usinas trabalhando com muito mais intensidade, aumento do esmagamento, alinhamento na questão do escoamento do farelo, porque vamos ter muito mais farelo. Então não é uma decisão simples. Agora, se o governo entender que o Brasil precisa dar esse salto, no limite conseguimos, mas é um esforço grande no curto prazo. Por isso que a gente tem falado de aumentos mais graduais, como 16% e 17%.

Na previsão da Abiove, o Brasil deve bater recorde no esmagamento de soja em 2026. Essa perspectiva deve se manter mesmo sem o B16?

A nossa perspectiva é essa. Claro que, nas nossas projeções, nós contamos com o B16 pelo menos por uma parte do ano. Nós acreditamos que o B16 é sim parte de uma estratégia de crescimento sustentável da indústria. No entanto, se o B16 não vier a se confirmar, muito provavelmente a gente também vai ter que revisar esse ponto e olhar se o mercado internacional consegue absorver esse óleo que iria para o biodiesel.

Geralmente, quando uma lei funciona, na prática, dizemos que ela 'pegou'. Nessa linha, a lei do Combustível do Futuro 'pegou' no setor?

Ela está sendo regulamentada. Esse conjunto de testes para viabilizar B20 e B25 é justamente para fazer cumprir a lei. Agora, é um setor bastante sensível para o governo, porque envolve abastecimento e preços. Mas enxergamos isso como uma oportunidade para o Brasil substituir diesel importado por um produto nacional limpo.

Qual é o peso da produção de biodiesel para o Brasil para além da questão energética?

O biodiesel reduz em cerca de 80% as emissões de gases de efeito estufa e em cerca de 50% os poluentes urbanos. Estamos falando de quase 80 mil famílias da agricultura familiar envolvidas no processo. É um produto descentralizado, com usinas em diversas regiões do Brasil, o que traz segurança de abastecimento. Em momentos de crise, isso é fundamental. Além disso, cada tonelada de soja processada no Brasil para biodiesel e ração gera 4,3 vezes mais emprego e PIB do que a soja exportada in natura. Isso mostra o potencial de agregar valor dentro do país.

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