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Da soja às frutas: como possível greve dos caminhoneiros pode impactar o agro

Cenário atual amplia a preocupação por coincidir com um momento decisivo da safra de soja 2025/26

Porto de Santos (SP): No país, modal rodoviário responde por entre 60% e 75% de toda a movimentação de cargas. (Germano Lüders/Exame)

Porto de Santos (SP): No país, modal rodoviário responde por entre 60% e 75% de toda a movimentação de cargas. (Germano Lüders/Exame)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 18 de março de 2026 às 12h03.

Última atualização em 18 de março de 2026 às 12h07.

A possibilidade de uma nova greve dos caminhoneiros reacende o alerta no agronegócio brasileiro, um dos setores mais dependentes do transporte rodoviário. No país, esse modal responde por entre 60% e 75% de toda a movimentação de cargas.

Da soja ao leite, passando por carnes e hortaliças, uma paralisação tem potencial para interromper fluxos logísticos, comprometer exportações e gerar prejuízos bilionários — como já ocorreu em 2018.

Na terça-feira, 17, caminhoneiros iniciaram uma mobilização por uma paralisação nacional, ainda sem data definida. O movimento reúne tanto motoristas autônomos quanto profissionais contratados por empresas.

A principal insatisfação da categoria está ligada ao aumento do preço do diesel e ao descumprimento da tabela de frete mínimo.

Na semana passada, o governo zerou PIS/Cofins sobre o combustível e criou uma subvenção que poderia reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro. No dia seguinte, a Petrobras anunciou aumento de R$ 0,38 no diesel A, anulando, na avaliação dos caminhoneiros, os efeitos da medida.

A categoria também cobra maior fiscalização do piso do frete, além de demandas como isenção de pedágio em viagens sem carga e maior previsibilidade de custos.

O cenário atual amplia a preocupação por coincidir com um momento decisivo da safra de soja 2025/26. Segundo Adriano Gomes, analista da consultoria agrícola AG Rural, o país atravessa um período de concentração da colheita de soja e de intensificação do escoamento.

“Segundo os nossos dados, até a última quinta-feira, 60,5% da área de soja no Brasil estava colhida, com Mato Grosso já na reta final e o Rio Grande do Sul ainda mais atrasado em relação à média”, afirma.

De acordo com o analista, o Brasil caminha para uma safra robusta, próxima de 178 milhões de toneladas. O atraso na colheita, causado por chuvas e pelo plantio tardio em alguns estados, acabou concentrando ainda mais o escoamento entre março e abril.

“Março e abril são os períodos de pico dos embarques de soja nos portos brasileiros. Uma greve nesse período pegaria em cheio o transporte da safra”, diz Gomes.

No caso da soja, o impacto tende a se concentrar na logística e nas exportações, com efeitos sobre prazos, contratos e preços internacionais.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, além das perdas diretas, há dificuldades na recomposição da produção e aumento de custos, especialmente em cadeias mais sensíveis, como leite e proteínas animais. Nesses casos, o produtor acaba absorvendo a maior parte dos prejuízos.

Soja ao leite

Segundo estudo do Ipea, em 2018, a paralisação na coleta de leite levou ao descarte de cerca de 280 milhões de litros em apenas cinco dias, gerando prejuízo estimado em R$ 360 milhões. Altamente dependente de logística diária, a produção levou semanas para se normalizar.

Na produção de aves e suínos, a falta de ração resultou na morte de milhões de animais e em perdas que chegaram a R$ 3 bilhões. O principal entrave foi a baixa capacidade de estocagem nas propriedades, que dependem de entregas frequentes.

No caso das exportações, o setor deixou de embarcar 120 mil toneladas de carne de aves e suínos, com impacto direto de US$ 350 milhões na balança comercial.

Além disso, frutas e hortaliças foram perdidas ainda no campo ou nas estradas, enquanto a carne bovina deixou de ser exportada, pressionando preços e afetando o saldo comercial.

De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), os segmentos de frutas e hortaliças registraram perdas estimadas em R$ 920 milhões.

As frutas mais afetadas foram mamão, manga, uva, goiaba e acerola, devido à sua fragilidade e alta perecibilidade. Assim como as hortaliças, muitas foram descartadas nas estradas, nos armazéns das propriedades ou sequer chegaram a ser colhidas.

O setor de carne bovina deixou de embarcar 40 mil toneladas no período, o equivalente a US$ 170 milhões.

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