Carne bovina em supermercado na China: o principal desafio, caso a autorização ocorra, será o prazo. Considerando o trânsito marítimo entre Brasil e China, estimado entre 45 e 60 dias. (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 06h00.
O anúncio de que o Brasil poderia utilizar parte da cota de exportação de carne bovina do Uruguai para a China animou frigoríficos e pecuaristas brasileiros, mas a medida ainda não foi confirmada pelo governo chinês.
Segundo estudo da consultoria Safras & Mercado, o volume em discussão seria de aproximadamente 80 mil toneladas de carne bovina. No entanto, a utilização desse saldo depende da aprovação chinesa e da definição de um mecanismo que permita contabilizar a carne de origem brasileira dentro da cota uruguaia.
Nesta segunda-feira, 21, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nas redes sociais, que o Uruguai autorizou o Brasil a utilizar o excedente não utilizado de sua cota de exportação de carne bovina para o mercado chinês.
Segundo Lula, a medida poderia ampliar o espaço para a carne bovina brasileira na China, depois de os frigoríficos nacionais atingirem o limite estabelecido por Pequim para 2026.
O principal desafio, caso a autorização ocorra, será o prazo. Considerando o trânsito marítimo entre Brasil e China, estimado entre 45 e 60 dias, outubro seria praticamente a última janela para concentrar embarques com possibilidade de internalização ainda em 2026, estima a Safras & Mercado.
Cargas enviadas a partir de novembro já teriam maior risco de chegar à China apenas em 2027, o que reduziria a possibilidade de utilização integral do volume disponível.
Segundo o levantamento, esse volume representaria aproximadamente 320 mil a 400 mil cabeças de gado.
"Uma autorização rápida poderia estimular a retomada das compras de boi destinado ao mercado chinês em outubro, período em que a indústria começa a preparar cargas para a cota chinesa de 2027", diz Fernando Iglesias, analista de pecuária da consultoria.
Até o momento, porém, não há confirmação oficial da China sobre uma eventual transferência ou utilização pelo Brasil do saldo da cota uruguaia. Não foram identificadas manifestações do Ministério do Comércio da China (MOFCOM), da Administração Geral de Alfândegas da China (GACC) ou da Embaixada da China sobre o tema.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) avaliou como positiva qualquer iniciativa que amplie o acesso da proteína brasileira ao mercado chinês.
Para a entidade, entretanto, um eventual aproveitamento da cota uruguaia teria efeito limitado em 2026 devido ao tempo necessário para negociação, embarque e transporte.
No fim de 2025, a China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina em 2026, dentro do mecanismo de salvaguarda adotado pelo país asiático. O limite é definido por origem e vale para importações realizadas com a tarifa regular.
Os volumes que ultrapassam a cota ficam sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, além da alíquota de 12% já aplicada à carne bovina brasileira. Na prática, a carga tributária chega a 67%.
O Brasil atingiu o limite em menos de sete meses, reduzindo de forma significativa o ritmo dos embarques para a China. Segundo dados da Abiec, as exportações chegaram a 154,8 mil toneladas em maio e 158,3 mil toneladas em junho. Em agosto, o volume caiu 88%, para cerca de 16,1 mil toneladas.
Apesar da retração, a China continua liderando o ranking de destinos da carne bovina brasileira no acumulado de janeiro a agosto de 2026.
No período, o país asiático comprou 899,2 mil toneladas, com receita de US$ 5,51 bilhões. O volume representa uma queda de 6,6% na comparação com o mesmo intervalo de 2025, mas o mercado chinês ainda concentra 40,8% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil em 2026, segundo a Abiec.
Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec, a cota chinesa para 2027 pode ser esgotada já entre março e abril, em ritmo mais acelerado do que o observado neste ano.
A avaliação considera o ritmo médio das vendas para a China e a possibilidade de não haver uma distribuição da cota entre as empresas exportadoras brasileiras, como ocorreu em 2026.
Sem essa divisão, a competição entre frigoríficos poderia acelerar o preenchimento do limite disponível.
“Pode haver, sim, uma antecipação das vendas para a China, mas o país asiático está com um alto estoque de carne bovina. Então precisamos avaliar se haverá esse apetite pela carne bovina brasileira. Esse ainda é um enigma”, afirmou Perosa na semana passada.