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Como uma decisão do Irã deve pôr em risco a oferta mundial de pistache

Oleaginosa é um dos produtos agrícolas que sustentam a base econômica iraniana

Pistache: Irã e EUA disputam o título de maior produtor mundial da oleaginosa (Freepik)

Pistache: Irã e EUA disputam o título de maior produtor mundial da oleaginosa (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 5 de março de 2026 às 06h01.

A decisão do Irã de proibir as exportações de produtos agrícolas e alimentos em meio à guerra acende um alerta no mercado global, uma vez que o país é o segundo maior produtor mundial de pistache.

A oleaginosa é um dos produtos agrícolas que sustentam a base econômica iraniana. Na safra 2025/2026, a produção de pistache no Irã deve alcançar 200 mil toneladas, o que corresponde a 18% da oferta global da commodity, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Na manhã de sábado, 28, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Os bombardeios coordenados mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país por quase quatro décadas, mergulhando o Irã em instabilidade e desencadeando um conflito que pode envolver grande parte do Oriente Médio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na segunda-feira, 2, que a ofensiva pode durar até cinco semanas.

Hoje, o Irã é um dos principais fornecedores de pistache para a China, Índia, União Europeia (com destaque para Alemanha e Itália), Rússia e Emirados Árabes Unidos, segundo a Iran Pistachio Association (IPA). Qualquer medida nesse sentido deve afetar toda a cadeia global de fornecimento — do snack ao sorvete, passando por pratos gourmet e alta confeitaria.

A exportação do pistache movimenta cerca de US$ 1,5 bilhão por ano para o Irã e gera 350 mil empregos diretos. Entre 70% e 80% da produção é destinada ao mercado externo, tornando-se uma das principais fontes de receita não ligada ao petróleo.

Em 2025, as exportações globais de pistache atingiram um recorde de 650 mil toneladas, puxadas pelos embarques iranianos. Enquanto isso, os EUA enfrentaram uma queda de quase 20% nas vendas externas, exportando 350 mil toneladas no período, diz o USDA.

A China tem sido um dos principais vetores de crescimento da demanda mundial. Segundo o relatório Pistachio Market Update 2025, do USDA, o consumo chinês da semente atingiu 160 mil toneladas em 2024, consolidando o país como o segundo maior importador global, atrás apenas da União Europeia. As importações totalizaram 134 mil toneladas no ano passado.

“A demanda vem sendo impulsionada pela crescente conscientização dos consumidores chineses sobre os benefícios nutricionais das oleaginosas e pela popularização do pistache como snack saudável”, diz o relatório.

Além do pistache, a produção agrícola do Irã também inclui maçã, pêssego, trigo e cevada.

Brasil e Irã

O Brasil não importa alimentos essenciais do Irã. As principais compras agrícolas concentram-se em pistache e uva-passa, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Nos primeiros meses de 2026, o Brasil importou 49 toneladas de pistache do Irã — volume superior às 35,5 toneladas adquiridas dos Estados Unidos no mesmo período, segundo o  sistema Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).

Em 2025, o país importou cerca de 1400 mil toneladas de uva-passa iraniana. No mesmo período, as compras de nozes, amendoins e outras sementes somaram 221,2 toneladas líquidas, enquanto as importações de tâmaras chegaram a 42,8 toneladas.

Sem produção local em função das condições climáticas, todo o pistache consumido no Brasil é importado. E o consumo tem crescido de forma expressiva. Os Estados Unidos são os principais fornecedores para o país, seguidos pelo Irã.

Após uma queda entre 2018 e 2021 — quando as importações chegaram a apenas 311 toneladas —, o mercado brasileiro voltou a se aquecer.

Em 2022, o volume importado subiu para 352 toneladas, saltou para 601 toneladas em 2023 e atingiu 1.100 toneladas em 2024, segundo dados do governo federal.

Atento ao avanço da demanda, o USDA, por meio de seu escritório de comércio agrícola em São Paulo, vem realizando uma série de ações promocionais desde 2020 para fortalecer a presença do pistache no Brasil.

As iniciativas incluem participação em feiras internacionais, parcerias com restaurantes renomados, ações com chefs influentes e aulas de culinária com mais de 40 criadores de conteúdo do setor gastronômico.

Em relatório publicado em 2024, o USDA classificou o Brasil como um “terreno fértil para os exportadores” e destacou o potencial de crescimento do mercado, especialmente entre a classe média urbana, que vem incorporando o pistache à rotina — seja como lanche saudável, ingrediente de pratos doces e salgados ou item premium nas prateleiras dos supermercados.

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