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Como cotas da China para carne bovina devem afetar Brasil e comércio global

Segundo o BTG, medida deve provocar uma reconfiguração no comércio global do setor, causar inflação na China e afetar diretamente o Brasil

Carne bovina em supermercado: inflação deve aumentar na China com decisão sobre cotas de importação da proteína. (Freepik)

Carne bovina em supermercado: inflação deve aumentar na China com decisão sobre cotas de importação da proteína. (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 2 de janeiro de 2026 às 11h03.

A decisão da China de limitar suas importações de carne bovina a partir de 2026 deve provocar uma reconfiguração no comércio global do setor, causar inflação na China e afetar diretamente o Brasil, seu maior fornecedor. Essa é a avaliação de um relatório divulgado nesta sexta-feira, 2, pelo BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME).

Na quarta-feira, 31, o país asiático fixou uma cota anual de 2,7 milhões de toneladas, volume inferior às 3 milhões estimadas para 2025. Para o Brasil, o limite sem tarifa será de 1,1 milhão de toneladas — uma redução de quase 600 mil toneladas em relação ao volume exportado ao país no último ano.

A medida impacta especialmente o mercado brasileiro, que enviou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina à China em 2025 — o equivalente a 48,3% do volume exportado, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Com isso, aproximadamente 5% da produção brasileira precisará ser redirecionada para outros destinos, o que pode pressionar os preços pagos aos exportadores.

“O desafio não é redirecionar os volumes, mas encontrar mercados dispostos a pagar o que a China paga por cortes específicos do Brasil”, afirmaram os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla no relatório.

Estimativa da Associação Brasileira dos Frigoríficos (Abrafrigo) aponta que a medida de salvaguarda adotada pela China pode gerar uma perda de até US$ 3 bilhões em receita para o Brasil em 2026.

Segundo o relatório, a decisão do governo chinês está associada a uma estratégia de fortalecimento da cadeia interna de produção, que sofre pressão diante do crescimento acelerado do consumo local.

O país asiático mais que dobrou sua demanda por carne bovina nos últimos 15 anos, chegando a quase 12 milhões de toneladas em 2025 — com boa parte desse aumento suprido por importações.

Para o BTG, embora o cenário traga desafios imediatos, nem todos os efeitos são negativos. Países como Argentina e Uruguai terão cotas superiores aos volumes que já exportam atualmente, o que pode aliviar a pressão sobre a oferta global.

Além disso, as cotas estão programadas para subir 2% ao ano até 2028, justamente num momento em que o Brasil pode entrar em um ciclo de retenção de gado, por conta do ciclo pecuário, o que naturalmente limitaria o crescimento da oferta.

“O setor brasileiro já mostrou resiliência antes. Em 2025, os EUA impuseram tarifas e os exportadores conseguiram realocar volumes com sucesso. Mas o caso da China é mais sensível, pois ela representa o principal motor de crescimento do setor”, disseram os analistas.

Enquanto o Brasil busca alternativas para escoar a produção excedente, o consumidor chinês deve enfrentar aumento de preços. Segundo os analistas, a decisão do governo é inflacionária para o mercado doméstico e deflacionária para os demais.

Ainda assim, empresas com presença em diferentes países da América Latina podem mitigar parte dos impactos por meio da diversificação geográfica. Segundo o BTG, companhias com esse perfil estão melhor posicionadas para enfrentar esse novo cenário de restrições.

Carne bovina na China

A indústria chinesa de carne bovina enfrenta forte pressão desde 2023, atribuída principalmente ao aumento das importações, não apenas do Brasil, mas também da Argentina, Uruguai e Austrália.

Criadores de gado, associações setoriais e especialistas afirmam que a presença crescente da carne estrangeira no mercado doméstico tem comprimido as margens de lucro, gerado prejuízos generalizados e ameaçado a sustentabilidade da cadeia produtiva local, segundo o jornal chinês Global Times.

Segundo Liu Qiangde, vice-secretário-geral da Associação Chinesa de Agricultura Animal (CAAA), o setor de criação de bovinos acumula perdas desde 2023, na maioria em função ao crescimento das importações.

“Muitos criadores foram forçados a abater vacas reprodutoras para reduzir custos”, disse Liu em entrevista ao jornal.

O aumento dos custos de alimentação antes do inverno agravou ainda mais o quadro, levando muitos pecuaristas a tentar vender os animais sem sucesso, em razão dos preços baixos.

Nos últimos anos, as importações chinesas de carne bovina cresceram de forma expressiva, com alta acumulada de 73,2% entre 2019 e 2024. Nesse período, os preços da carne importada chegaram a ficar mais de 50% abaixo dos praticados no mercado interno, diz a CAAA.

Segundo a entidade, o número de vacas reprodutoras no país caiu 3% em 2024. Já as empresas de abate domésticas relataram prejuízos de 500 a 1.000 yuans (aproximadamente R$ 400 a R$ 800) por cabeça abatida.

No Brasil, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmaram que, diante das novas cotas impostas pela China, serão necessários ajustes ao longo de toda a cadeia produtiva, da criação à exportação, para minimizar impactos mais amplos.

“A carne bovina brasileira, reconhecida por sua qualidade, exerce papel complementar no abastecimento do mercado chinês e contribui para a estabilidade da oferta ao consumidor”, destacaram em nota conjunta.

Em entrevista à EXAME, Luis Rua, secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária, afirmou que o governo está analisando detalhadamente os documentos divulgados por Pequim.

O secretário destacou ainda que o Acordo de Salvaguardas da Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê a possibilidade de compensações, dependendo do impacto sobre os países exportadores.

“Vamos fazer essa análise técnica e, se necessário, recorrer aos fóruns internacionais ou aprofundar o diálogo bilateral com a China”, afirmou Rua.

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