Ciência

Os testes secretos com antraz que transformaram uma ilha em área proibida por décadas

Experimentos secretos durante a Segunda Guerra Mundial contaminaram a Ilha Gruinard, que só voltou a ser considerada segura em 1990

Ilha Gruinard: testes secretos com antraz deixaram a pequena ilha escocesa interditada por quase 50 anos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Ilha Gruinard: testes secretos com antraz deixaram a pequena ilha escocesa interditada por quase 50 anos (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 09h12.

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Durante quase meio século, uma pequena ilha na costa noroeste da Escócia permaneceu interditada por causa de uma das bactérias mais perigosas conhecidas: o antraz. O local, chamado Ilha Gruinard, foi usado pelo governo britânico para testes secretos de armas biológicas durante a Segunda Guerra Mundial e só voltou a ser considerado seguro em 1990, após uma ampla operação de descontaminação.

A história foi recontada pela revista Popular Science, que detalhou como a ilha passou décadas isolada após experimentos militares realizados em 1942.

Testes buscavam desenvolver uma arma biológica

Em 1942, diante do temor de que a Alemanha nazista desenvolvesse armas biológicas, o então primeiro-ministro Winston Churchill autorizou cientistas do centro de pesquisas militares de Porton Down a avaliar o potencial do antraz como arma de guerra.

Para isso, a equipe escolheu a Ilha Gruinard por ser isolada, desabitada e de fácil acesso por barco.

Durante os testes, recipientes contendo esporos de Bacillus anthracis foram posicionados próximos a rebanhos de ovelhas levados até a ilha. Todos os animais morreram após a exposição, confirmando a alta capacidade de disseminação da bactéria.

Por que o antraz é tão perigoso?

O antraz é causado pela bactéria Bacillus anthracis, encontrada naturalmente no solo. Quando enfrenta condições desfavoráveis, o microrganismo produz esporos extremamente resistentes, capazes de sobreviver ao calor, ao frio, à radiação e a diversos agentes químicos.

Estudos publicados na revista Applied and Environmental Microbiology mostraram que esses esporos podem permanecer dormentes por muitos anos, aguardando um novo hospedeiro.

Em animais, a infecção costuma provocar morte rápida. Em humanos, a doença pode ocorrer pelo contato com a pele, pela ingestão ou pela inalação dos esporos, causando desde lesões cutâneas até infecções graves que podem atingir todo o organismo.

Contaminação permaneceu por quase cinco décadas

Os pesquisadores acreditavam que a queima e o enterramento das carcaças das ovelhas seriam suficientes para eliminar a bactéria, mas os esporos permaneceram ativos no solo.

Sem informar a população sobre os verdadeiros experimentos, segundo a Popular Science, o governo britânico indenizou os proprietários das ovelhas e atribuiu a morte dos animais a uma suposta toxina liberada por um navio grego naufragado nas proximidades.

Sendo assim, a ilha permaneceu fechada ao público durante décadas. As primeiras placas de advertência não chegaram a mencionar a presença de antraz, informação que só passou a aparecer no fim da década de 1960.

Grupo ativista expôs o caso ao público

Na década de 1980, um grupo conhecido como Dark Harvest Commandos decidiu chamar atenção para a situação da ilha.

Os ativistas recolheram amostras de solo contaminado em Gruinard e deixaram baldes contendo esse material em frente ao centro de pesquisas de Porton Down e durante uma conferência do Partido Conservador, acompanhados de cartas denunciando a existência da área contaminada.

A ação ganhou repercussão nacional e aumentou a pressão para que o governo descontaminasse definitivamente a ilha. Poucos anos depois, o governo iniciou uma ampla operação de descontaminação em Gruinard.

Os trabalhos incluíram a remoção da camada superficial do solo e a aplicação repetida de uma solução de formaldeído misturada com água do mar em toda a ilha. Como o formaldeído elimina uma ampla variedade de microrganismos, o tratamento conseguiu destruir os esporos remanescentes de Bacillus anthracis.

Após novas análises confirmarem que a área estava livre da contaminação, o governo britânico declarou a Ilha Gruinard segura em 1990 e retirou as placas que proibiam o acesso.

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