Phoebe e Bill Gates: startup cofundada pela jovem é acusada de usar técnica ilegal para inflar comissões de vendas online (Dimitrios Kambouris/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 10h59.
Phoebe Gates, filha do bilionário Bill Gates, está no centro de uma controvérsia envolvendo a Phia, startup de compras com inteligência artificial (IA) que ela cofundou em 2025.
Segundo reportagem da Bloomberg, a empresa teria usado uma prática conhecida como "cookie stuffing" para reivindicar comissões de afiliados sobre vendas que, na realidade, não ajudou a gerar.
A Phia funciona como uma assistente pessoal de compras: por meio de uma extensão instalada no navegador — compatível com Chrome e Safari —, o aplicativo ajuda usuários a encontrar cupons e códigos de desconto antes de finalizar uma compra online. Em troca, a empresa recebe uma comissão do varejista sempre que ajuda a concretizar a venda.
"Cookie stuffing" é um tipo de fraude em marketing de afiliados que consiste em inserir, de forma não autorizada, "cookies" — pequenos arquivos de rastreamento armazenados no navegador do usuário — em sites de compras, mesmo sem qualquer ação real do consumidor que justifique essa atribuição.
Na prática, isso permite que uma empresa reivindique comissão sobre vendas que não ajudou de fato a gerar, desviando dinheiro que deveria ir a outros publishers, criadores de conteúdo ou sites de comparação de preços que efetivamente influenciaram a compra.
Segundo a Bloomberg, a extensão da Phia adicionava automaticamente códigos de rastreamento às compras dos usuários — um esquema que permitia à empresa embolsar comissões sobre pedidos que não ajudou de forma significativa a concretizar.
Essas vendas mal atribuídas chegaram a representar cerca de 51% de todas as vendas creditadas à Phia em junho de 2026, segundo a Bloomberg.
De acordo com mensagens internas do Slack da empresa obtidas pela Bloomberg, Phoebe Gates e a cofundadora Sophia Kianni já sabiam da prática desde dezembro de 2025 — mensagens mostram Gates perguntando se um recurso que inseria cookies de rastreamento automaticamente estava ativo em todos os varejistas, e Kianni incentivando funcionários a manter os cookies ativos mesmo depois de um engenheiro apontar que a prática violava regras de compliance.
Esse cronograma contradiz uma declaração anterior das próprias fundadoras à Bloomberg, em 8 de julho, de que só haviam tomado conhecimento da situação "nas últimas 24 horas", atribuindo o problema a uma falha de software.
A Impact.com, rede de afiliados responsável por distribuir comissões a publishers como a Phia, suspendeu a startup de seu marketplace após a reportagem inicial sobre a prática.
Segundo a Phia, os recursos ligados ao esquema foram removidos em 7 de julho.
"Quaisquer recursos que causassem atribuições incorretas foram imediatamente removidos há mais de um mês. Estamos revisando cada transação, estamos totalmente comprometidos e já começamos a emitir estornos para as marcas parceiras em decorrência de qualquer atribuição incorreta, e estamos contratando um head de compliance para garantir que algo assim nunca mais aconteça", disse a empresa, em comunicado.
Especialistas em direito ouvidos pela imprensa americana apontam que "cookie stuffing" pode ser enquadrado nas leis federais de fraude eletrônica (wire fraud) dos Estados Unidos, com pena máxima de até 20 anos de prisão.
Até o momento, Phoebe Gates não foi indiciada criminalmente, e a reportagem da Bloomberg não afirma que ela tenha determinado pessoalmente a adoção da prática.
Lançada em abril de 2025, a Phia se posicionava como uma proposta para "redefinir as compras online".
A startup levantou US$ 30 milhões em uma rodada de dezembro daquele ano, que a avaliou em US$ 180 milhões — alta em relação aos US$ 8 milhões captados inicialmente.
Entre os investidores da rodada não está o próprio Bill Gates, cofundador da Microsoft e pai de Phoebe.