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Na Faria Lima, Cury diz que não apoiaria Lula em 'hipótese nenhuma' no 2º turno

Escritor afirma que poderia apoiar Flávio Bolsonaro caso ele "prove que não é corrupto"

 (André Martins/Exame)

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André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 10 de setembro de 2026 às 10h32.

Última atualização em 10 de setembro de 2026 às 11h30.

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O escritor e candidato à presidência da República, Augusto Cury (Avante), afirmou nesta quinta-feira, 10, que não apoiaria em hipótese nenhuma o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).

"Não apoiaria nem 0,01%. O modelo do PT tem que ser aposentado", disse durante evento da Genial Investimentos, na Faria Lima, em São Paulo.

Terceiro colocado nas últimas pesquisas eleitorais, com percentuais entre 8% e 11% a depender do levantamento, Cury virou a grande novidade de uma eleição em que Lula e Flávio concentram quase 80% das intenções de voto.

Questionado se apoiaria Flávio ou declararia neutralidade, o escritor disse que o senador "está atolado com o banco Master", mas disse que poderia declarar apoio caso ele prove que "não é corrupto".

"Eu não ficaria neutro. Ele teria que provar que não é corrupto e explicar o Dark Horse. [...] Se ele se explicar, todo mundo apoia", afirmou.

Durante mais de uma hora, Cury arrancou aplausos da plateia de investidores da Faria Lima quando afirmou que pretende realizar uma reforma no Supremo Tribunal Federal e defendeu uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes.

Com um tom professoral, característica presente em suas palestras e livros de desenvolvimento humano, o escritor conduziu a conversa com perguntas retóricas, referências a filósofos e exemplos pessoais. Em alguns momentos, interagiu com a plateia, fez brincadeiras e transformou o encontro em uma mistura de apresentação política e reflexão sobre comportamento.

Em determinado momento, tirou o celular do bolso e iniciou uma conversa com uma ferramenta de inteligência artificial para ilustrar uma de suas reflexões sobre tecnologia e futuro.

Ao falar sobre instituições, Cury afirmou que considera o presidencialismo um modelo que pode favorecer desequilíbrios de poder. Segundo ele, a América Latina enfrenta três grandes problemas: o desequilíbrio entre os Poderes, a fragilidade institucional e a proximidade de regimes presidencialistas com práticas autoritárias.

“O que tem ocorrido no STF é que o vácuo do Congresso tem feito com que o Supremo tivesse uma musculatura que ele não deveria ter”, afirmou Cury.

O candidato disse que o Supremo Tribunal Federal, como guardião da Constituição, não deveria exercer funções que, em sua avaliação, pertencem ao Legislativo. Ele defendeu uma reforma na Corte, com mandatos de oito anos para ministros e mudanças no processo de escolha.

“Dois terços têm que ser de carreira de magistrado”, disse. Cury afirmou ainda que seu modelo ideal seria que a indicação dos ministros fosse feita por entidades como a associação dos magistrados, Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), reduzindo a participação direta do presidente da República.

O escritor também afirmou que não tem problemas pessoais com integrantes do Supremo e disse manter diálogo com alguns ministros. Durante a fala, porém, defendeu que autoridades públicas sejam submetidas a investigações quando houver questionamentos.

“Eu defendo, sem fazer juízo de valor, que até as últimas consequências o doutor Alexandre de Moraes seja investigado. Se ele não deve, continua. Se deve, deve ser impedido”, afirmou.

Cury disse que a regra deveria valer para qualquer autoridade. “Todos devem ser investigados, qualquer ato”, afirmou. Para ele, o país precisa passar por um processo de revisão institucional. “Ou o Brasil é passado a limpo ou continuamos do jeito que está.”

Economia, ajuste fiscal e plano de governo

Na área econômica, Cury afirmou que seu objetivo seria promover um ajuste das contas públicas, ampliar investimentos privados e criar condições para o crescimento. Questionado sobre como cumpriria promessas como déficit zero, o candidato afirmou que não teria todas as respostas e que o país poderia enfrentar um período de sacrifícios.

“Falar uma meta zero é uma irresponsabilidade. Eu estou querendo ser a transição desse processo”, disse Cury.

O candidato afirmou que pretende realizar auditorias, reduzir cargos comissionados e revisar gastos públicos. Também defendeu mudanças na tributação, citando a necessidade de cobrança sobre setores como as apostas esportivas, conhecidas como bets, que já possuem regras de tributação no país.

Cury citou nomes de economistas como referências para sua visão de política econômica, entre eles Ian, Armínio Fraga, Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Roberto Benevides. Segundo ele, pretende montar uma equipe técnica para conduzir as reformas.

"A equipe vai ser melhor que o técnico", afirmou.

Sobre programas sociais, disse que pretende manter mecanismos de proteção, mas defendeu mudanças para estimular a mobilidade social. Ele citou o Bolsa Família e afirmou que um benefício de R$ 600 não seria suficiente para garantir autonomia financeira às famílias.

“Bolsa Família de 600 é 150 [reais] e não dá dignidade”, afirmou. Cury defendeu uma transição em que o trabalhador que conseguir emprego não perca imediatamente o benefício social, medida que também já é implementada.

O candidato também falou sobre o salário mínimo e afirmou que o aumento da renda deve ocorrer de forma gradual para evitar impactos sobre empresas. Segundo ele, o objetivo seria construir uma classe média mais ampla.

“Um salário mínimo é injusto. Temos que formar uma classe média robusta, não para aumentar de uma vez, porque senão quebra as empresas. Além de repor a inflação, um aumento de 1% real pode fazer com que, quem sabe, possamos dobrar a renda mínima daqui a 15 anos”, afirmou.

Entre as propostas econômicas, Cury citou a intenção de ampliar o mercado de capitais brasileiro e afirmou que seu projeto seria dobrar o número de empresas listadas na bolsa por meio de novas ofertas públicas iniciais de ações, os IPOs, processo pelo qual companhias passam a negociar ações na bolsa.

O candidato também defendeu mudanças no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com uma divisão da instituição entre um banco voltado para grandes empresas e outro direcionado para micro e pequenas empresas.

Na agenda de reformas, Cury defendeu o fim da reeleição, a adoção do voto distrital misto, modelo que combina representantes eleitos por regiões e por listas partidárias, e mandatos de oito anos para ministros do Supremo.

Ao falar sobre o futuro do mercado de trabalho, afirmou que o Brasil precisa se preparar para os impactos da inteligência artificial e da robótica. Segundo ele, pela primeira vez, profissões de alta qualificação, como médicos, engenheiros, advogados e assistentes sociais, podem sofrer substituições em larga escala.

Cury citou Elon Musk e afirmou que previsões sobre redução do trabalho humano precisam responder como será financiada essa transição. “Na ingenuidade, ele não fala quem vai pagar a conta”, disse.

O escritor encerrou a participação defendendo uma postura de diálogo entre diferentes setores políticos e empresariais. Disse que não pretende construir uma carreira política de longo prazo e se apresentou como alguém que deseja conduzir uma transição.

“Eu não quero fazer carreira política, quero ser um tampão para ir embora e nunca mais voltar, e outro político assumir”, afirmou.

Ele também defendeu uma aproximação com empresários e investidores e disse que pretende “derrubar muros” entre grupos que hoje não conversam. “Pior que a ação dos maus é a omissão dos bons”, afirmou.

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