Ciência

Metade dos peixes de cativeiro no mundo têm ouvido deformado

E, acredite, os cientistas estão surpresos e preocupados com isso. Entenda

Osso do ouvido: o esquerdo (de um salmão selvagem) é normal e o da direita (de um salmão de cativeiro) é deformado.
 (Tormey Reimer)

Osso do ouvido: o esquerdo (de um salmão selvagem) é normal e o da direita (de um salmão de cativeiro) é deformado. (Tormey Reimer)

Vanessa Barbosa

Vanessa Barbosa

Publicado em 30 de abril de 2016 às 07h28.

São Paulo – Uma nova pesquisa científica, publicada no jornal científico Scientific Reports, revelou pela primeira vez que metade dos peixes criados em cativeiro no mundo apresentam perdas de audição devido a uma deformidade no ouvido.

Assim como em outros vertebrados, os peixes possuem um aparelho auditivo que é essencial não só para audição como também para o equilíbrio. Seus ouvidos são internos, embutidos nos ossos do crânio.

Os pesquisadores da Universidade de Melbourne, que lideraram o estudo, descobriram que metade dos peixes marinhos do mundo criados em cativeiros, como o salmão do Atlântico, apresentam uma deformidade nos otólitos, os corpos calcários situados no ouvido interno, algo incomum de se verificar em peixes selvagens.

Segundo o principal autor do estudo, Tormey Reimer, os peixes de viveiro são 10 vezes mais propensos a ter a deformidade do que aqueles que se desenvolvem livremente no mar.

"A deformidade ocorre quando a estrutura típica de carbonato de cálcio no ouvido do peixe é substituída por uma forma cristalina diferente. Esses ‘ossos de ouvido’ deformados são maiores, mais leves e mais frágeis”, disse Reimer.

De acordo com o pesquisador, a deformidade aparece em idade precoce, na maioria das vezes quando os peixes estão em uma incubadora, mas seus efeitos sobre a audição se tornam cada vez mais graves a medida que eles crescem.

A pesquisa sugere que os peixes que sofrem com esta deformidade podem perder até 50% de sua sensibilidade auditiva.

Para testar se o problema era um fenômeno global, os pesquisadores da Universidade de Melbourne se uniram ao Instituto Norueguês para Pesquisa da Natureza e recolheram amostras de salmão nas principais nações produtoras do mundo: Noruega, Canadá, Escócia, Chile e Austrália.

As equipes compararam a estrutura dos otólitos de salmão criado em viveiro e do selvagem e também a audição dos peixes. Eles descobriram que, independentemente do país onde o salmão é cultivado, a deformidade é muito maior em peixes de viveiro do que nos animais selvagens.

Está claro que algo sobre o processo de cultivo está causando essa deformidade, mas agora os pesquisadores precisam descobrir o que origina isso.

Violações

Segundo os pesquisadores, a produção de animais em cativeiro com deformidades viola definições de bem estar que constam na declaração Universal do Bem Estar Animal e que constituem a base da legislação para garantir um manejo adequado dos animais de criadouro em muitos países.

Ainda segundo os pesquisadores, a deformidade também poderia explicar por que muitos programas de conservação de pescados não estão funcionando conforme o esperado.

Todos os anos, milhares de salmões jovens criados em cativeiro são liberados nos rios na América do Norte, Ásia e Europa, para impulsionar as populações selvagens, mas sua sobrevivência é 10 a 20 vezes mais baixa do que a do salmão selvagem.

A perda auditiva, neste caso, pode impedir que os peixes detectem a presença de predadores além de restringir a sua capacidade de seguir o fluxo migratório da espécie para a reprodução.

"Nós pensamos que a audição comprometida poderia ser parte do problema. Todos os programas de repovoamento de peixes nativos agora devem avaliar se o peixe tem deformidades no ouvido e qual o efeito que isso tem sobre as suas taxas de sobrevivência", disse o coautor do estudo Steve Swearer, da Universidade de Melbourne. 

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