Ciência

Após exoesqueleto da Copa, Nicolelis agora conecta cérebros de macacos com sua Brainet

Mais de um ano depois do exoesqueleto na Copa, o neurocientista brasileiro publica estudos formando rede cerebral entre animais

Macacos Rhesus (jinterwas/Flickr)

Macacos Rhesus (jinterwas/Flickr)

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Da Redação

Publicado em 10 de julho de 2015 às 16h36.

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, responsável pela demonstração do exoesqueleto na abertura da Copa do Mundo, está envolvido em uma nova pesquisa relacionada ao funcionamento cerebral. Dessa vez, porém, o objetivo foi criar uma “rede cerebral” (“brainets”) que permitisse comunicação direta entre cérebros de animais.

Em conjunto com um grupo de cientistas vinculados à Universidade Duke, na Carolina do Norte, Nicolelis realizou dois experimentos independentes com macacos e ratos, formando uma espécie de cooperação cerebral. Num primeiro momento, eles conectaram o cérebro de três macacos para que eles conseguissem, juntos, controlar o braço de um avatar. Na segunda experiência, foram ratos que tiveram seus cérebros ligados, com a missão de solucionar uma tarefa simples de previsão de tempo.

"Essencialmente, nós criamos um supercérebro", disse Nicolelis ao jornal The Guardian. "Um cérebro coletivo criado a partir de três cérebros de macacos. Ninguém nunca fez isso antes".

Os pesquisadores observaram que os macacos aprenderam de maneira independente a controlar o braço daquele avatar em 3D que estava na frente deles, apenas imaginando realizar o movimento. Apesar de seus cérebros não estarem diretamente ligados entre si, apenas a um computador em comum, cada um deles contribuiu um pouco para realizar a tarefa, controlando duas das três dimensões (eixos x, y e z). Eles, afinal, conseguiram fazer com que o braço alcançasse um bola virtual e a colocasse no alvo, ainda que um deles estivesse distraído.

“Mesmo se um macaco saísse de sintonia, a rede cerebral é resiliente”, disse Nicolelis. “Imagine se você tivesse não três, mas um milhão. Isso seria extremamente resiliente".

Já no estudo com ratos, também publicado no jornal Scientific Reports, os cientistas ligaram os cérebros dos animais diretamente, por meio de conexões elétricas que permitiam tanto enviar estímulos quanto ler a atividade elétrica.

Quando enviaram impulsos elétricos a um dos ratos, os outros, conectados, aprenderam a sincronizar sua atividade cerebral, como se imitassem a resposta que o primeiro rato havia sentido. E na tarefa da previsão de tempo, em que eles deveriam prever uma possibilidade maior ou menor de chuva, ao interpretar informações de temperatura e pressão, os ratos se saíram melhores quando conectados pela “ rede de cérebros” do que quando sozinhos.

Os cientistas esperam que o conceito de “brainet” pode ser estendido para produzir “enxames” de ratos neurologicamente conectados, formando uma espécie de inteligência coletiva – ou “computadores orgânicos”, como definiram.

Segundo Nicolelis, a longo prazo, o estudo poderia trazer “enormes benefícios” à reabilitação cerebral. Após um acidente vascular cerebral, por exemplo, as habilidades linguísticas de um paciente seriam mais rapidamente restauradas se sincronizadas diretamente com o cérebro de uma pessoa saudável. Nos seres humanos, essa ligação não seria invasiva, mas por meio de eletrodos anexados no couro cabeludo.  

No entanto, o cientista apontou que seria improvável que humanos compartilhassem experiências mentais complexas. “Você não vai compartilhar suas emoções ou personalidade em uma rede cerebral", disse Nicolelis. "Estes não são redutíveis a um algoritmo digital. Você não pode reproduzir esses atributos humanos individuais". Sobre a conexão direta entre duas pessoas, os cientistas apontam que não há garantia que seria algo sensível na prática.

O trabalho de Nicolelis com maior repercussão até agora, denominado Projeto Andar de Novo, prometia que pessoas amputadas ou paralíticas conseguissem controlar diretamente os membros protéticos e exoesqueletos. Após a cerimônia da Copa do Mundo, porém, o trabalho foi criticado no mundo inteiro – sendo, inclusive, considerado um dos fracassos tecnológicos em 2014 pelo MIT. Em 12 de junho deste ano, ele publicou uma nota na sua página no Facebook, afirmando que o trabalho continuava “sem interrupção” com o mesmo grupo de pacientes e que o time havia avançado e registrado importante constatações, como a melhora da sensibilidade tátil e de controle voluntário motor.

“Nesse momento, estamos empenhados na continuidade das nossas pesquisas clínicas, do desenvolvimento tecnológico e na ampliação do número de pacientes atendidos pelo projeto, nos nossos laboratórios em São Paulo (SP) e Natal (RN). Em paralelo, estamos submetendo os resultados científicos e clínicos para publicação nos mais conceituados periódicos científicos mundiais. Assim que eles sejam publicados, os nossos resultados serão amplamente divulgados à sociedade”, escreveu.

Fonte: The Guardian

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