Tecnologia

Brasileiro lança startup que promete pagar usuários por dados usados por IAs

André Vellozo aposta na monetização de informações geradas por motoristas, consumidores e donos de carros conectados para enfrentar big techs

André Vellozo, da Drumwave: dados pessoais podem gerar até US$ 10 bilhões por ano — apenas no caso de donos de carros da Tesla

André Vellozo, da Drumwave: dados pessoais podem gerar até US$ 10 bilhões por ano — apenas no caso de donos de carros da Tesla

Publicado em 30 de dezembro de 2025 às 10h19.

Última atualização em 30 de dezembro de 2025 às 10h20.

“Você está guiando há anos, 12 horas por dia, produzindo dados que estão treinando a IA que vai te substituir, e não recebe nada por isso”. A frase resume a tese central do novo negócio do empreendedor brasileiro André Vellozo, fundador da Drumwave, startup lançada oficialmente nos Estados Unidos em julho com a promessa de devolver aos usuários parte do valor econômico gerado pelos seus dados.

Enquanto toma seu primeiro expresso do dia em sua casa em Palo Alto, na Califórnia, Vellozo afirma que a empresa nasce como um “golpe direto” contra os gigantes da tecnologia. O objetivo é criar uma espécie de poupança digital que permita às pessoas serem remuneradas por informações produzidas ao usar aplicativos, dirigir para a Uber ou comprar online.

A Drumwave quer compartilhar com os usuários o valor dos zilhões de terabytes gerados diariamente em plataformas digitais. Segundo Vellozo, esses dados se tornaram um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea, especialmente com a expansão da IA, inteligência artificial. “As máquinas precisam de cada vez mais dados, mas quem produz dados são as pessoas”, diz.

A visão do empreendedor combina negócios e história econômica. Para ele, o impacto da inteligência artificial pode repetir o efeito dos computadores pessoais sobre a economia global. “O último paradigma tecnológico fez o PIB global saltar de US$ 8 trilhões para US$ 100 trilhões entre 1977 e 2022”, afirma. Caso a IA siga caminho semelhante, a economia mundial poderia atingir US$ 1 quatrilhão nas próximas décadas — valor que hoje tende a se concentrar em poucas empresas.

“Não quero um mundo em que meia dúzia acumule tudo”, diz Vellozo. “O Vale do Silício promete há décadas que todos ganharão com a tecnologia, mas essa hora nunca chega.”

A Drumwave já reúne 108 funcionários no Vale do Silício, com profissionais vindos de Apple, Google, Nasa, PayPal e eBay. O escritório exibe símbolos de inovação precoce, como uma jaqueta emoldurada de um dos fundadores da General Magic, empresa precursora dos smartphones.

Os primeiros alvos

Os primeiros focos da startup são três grupos que, segundo Vellozo, concentram grande valor oculto em dados. Um deles são motoristas da Uber. A empresa lançou uma campanha incentivando esses profissionais a criar uma “dwallet”, carteira digital onde os dados de viagens passariam a ser acumulados.

A ideia é, depois, comunicar à Uber que as informações geradas devem ser direcionadas para essa carteira. Em seguida, esses dados seriam monetizados para usos como mobilidade urbana, publicidade e seguros. A Drumwave estima que, até 2030, os dados de motoristas possam valer US$ 8 bilhões.

Outro alvo são proprietários de carros da Tesla. “O carro é um computador sobre rodas”, diz Vellozo, afirmando que esses veículos geram dezenas de terabytes de dados por dia. A empresa calcula que, até 2030, esses dados possam ultrapassar US$ 10 bilhões por ano.

O terceiro caso envolve a 23andMe, empresa de testes genéticos que entrou em falência com dados de DNA de cerca de 15 milhões de pessoas. Para Vellozo, o episódio evidencia a fragilidade do modelo atual de controle de dados pessoais.

Vai funcionar?

Em sua campanha, a Drumwave afirma que não compartilha, vende nem armazena dados, atuando apenas como intermediária para gerar valor entre indivíduos e empresas. Um desafio será convencer usuários de que o esforço compensa. Segundo apuração da EXAME, um brasileiro poderia receber entre R$ 300 e R$ 500 por mês, valor que tende a crescer.

Outro obstáculo é a reação das big techs. Na teoria, leis como a LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados, garantem ao cidadão o direito sobre suas informações. A empresa afirma que começará a notificar companhias para “devolver” dados aos clientes. “Estamos operacionalizando as leis”, diz Vellozo, reconhecendo que a prática será complexa.

O piloto no Brasil

O primeiro teste prático da tese ocorreu no Brasil, em parceria com a Dataprev, estatal que processa dados da Previdência e de programas sociais. O piloto foi apresentado no Web Summit Rio, em maio, e atraiu interesse imediato de governos e entidades internacionais.

Segundo Patrick Hruby, executivo contratado pela Drumwave após passagens por Google e Facebook, representantes de países como Escócia, Bélgica, África do Sul e Arábia Saudita buscaram a empresa após a apresentação. “O mundo estava pedindo isso”, afirma.

O projeto usa contratos de crédito consignado. Ao contratar o serviço pela carteira digital do governo, o cidadão pode optar por guardar os dados em uma dwallet e decidir se deseja apenas armazenar ou também monetizar. Cada uso autorizado gera remuneração direta, registrada em um extrato acessível ao titular.

Hruby compara o sistema ao Pix, do Banco Central: simples para o usuário, mas sofisticado por trás. "O impacto real virá quando as pessoas perceberem que podem ganhar com os dados que já produzem todos os dias".

Esta matéria foi originalmente publicada em julho de 2025.

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