Revista Exame

Um estado à frente

Santa Catarina combina qualidade de vida com competitividade econômica. Atrai moradores, cria oportunidades e vira destaque global

Vista das pontes que ligam a Ilha de Santa Catarina ao continente: equilíbrio entre capital e interior dá força à economia catarinense (Leandro Fonseca /Exame)

Vista das pontes que ligam a Ilha de Santa Catarina ao continente: equilíbrio entre capital e interior dá força à economia catarinense (Leandro Fonseca /Exame)

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Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.

Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 09h42.

A imagem de Santa Catarina sempre contou com uma boa dose de charme e encantamento. Pode ser por causa da bela composição de paisagens entre praias e montanhas, dos indicadores sociais relativamente melhores que os do restante do país, ou de uma economia que produziu algumas das marcas mais bem-sucedidas do mercado brasileiro ao longo das últimas décadas.

Esse capital simbólico, no entanto, por muito tempo funcionou mais como atributo histórico do que como um ativo com potencial transformador para o futuro. Santa Catarina era vista como um bom lugar para viver e produzir, mas raramente como um projeto claro de liderança econômica nacional.

Mas esse jogo mudou. O que há de diferente agora é a disposição dos catarinenses para ir mais longe — e firmar uma posição de destaque no que diz respeito à competitividade e ao potencial do estado para atrair investimentos e prosperar numa competição não só nacional, mas também global.

Beto Carreiro World, em Penha (SC): o estado tem vocação para gerar empresas capazes de disputar as primeiras posições em seus setores (Leandro Fonseca /Exame)

Historicamente, o estado sempre teve um peso econômico superior a seu tamanho: é apenas o décimo em população, mas o sexto maior PIB estadual. De uns anos para cá, Santa Catarina tem feito um esforço para se tornar tão ou mais competitiva quanto São Paulo (a maior economia do país) e construir uma marca internacionalmente reconhecida (como o Rio de Janeiro ainda é) — mas sem incorrer em mazelas como a falta de segurança e problemas insolúveis de mobilidade.

Trata-se de uma ambição rara no contexto brasileiro: crescer sem reproduzir os custos sociais e urbanos normalmente associados à escala. Em vez de apostar em megacidades ou projetos concentrados, o estado aposta em um modelo distribuído, fundamentado em cidades médias, infraestrutura funcional e diversificação produtiva.

“Santa Catarina não tem as mazelas sociais de outras regiões, inclusive de grandes metrópoles, e isso pesa diretamente na decisão de investimento que empresas e investidores precisam tomar”, diz Pablo Bittencourt, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc).Em outras palavras, o estado faz o possível para, definitivamente, brilhar.

Um dos indicadores de que essa ambição começa a dar frutos está no Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado anualmente pelo Centro de Liderança Pública (CLP) para mensurar a capacidade das unidades federativas de gerar bem-estar para a população. Santa Catarina ocupa a segunda posição dessa lista desde 2016 — mas de uns anos para cá a distância para São Paulo, que é o líder, vem diminuindo.

De 2024 para 2025, Santa Catarina manteve a primeira colocação em Segurança Pública e Capital Humano. No ano passado, o estado também ocupou a segunda posição em Inovação e em Sustentabilidade Social, e a terceira em Potencial de Mercado, em que subiu sete posições em relação a 2024.

Centro de Inovação em Santa Catarina: uma nova geração de negócios em formação (Jonatã Rocha/Secom/Divulgação)

Esses rankings são relevantes não apenas como fotografia estatística, mas porque refletem decisões acumuladas ao longo do tempo — muitas delas administrativas, técnicas e pouco visíveis — que moldam o ambiente de negócios e a qualidade de vida de forma duradoura.

Outros números mais recentes também mostram os resultados de um trabalho coletivo de melhoria no ambiente de negócios catarinense. Desde a pandemia, a economia do estado cresce acima da média nacional. A estimativa da Secretaria de Planejamento é de que o PIB de Santa Catarina tenha crescido 5,2% em 2024 (ante 3,4% de aumento no Brasil) e outros 4,5% em 2025, quando o crescimento do país deve ter ficado em meros 2,25%. O estado se tornou uma fábrica de novas empresas. Foram abertos 278.000 novos negócios em 2025 — o maior resultado em uma década. Mais do que um surto empreendedor episódico, esse movimento indica confiança estrutural no ambiente econômico local. Empresas tendem a nascer — e a sobreviver — onde regras são previsíveis, o mercado consumidor é sólido e a mão de obra está disponível.

Esses bons resultados se devem a uma combinação de atitudes que deveriam ser óbvias, embora a história brasileira mostre quanto têm sido raras: melhorar o que pode ser melhorado — e não estragar o que funciona bem.

De fato, parte do sucesso recente de Santa Catarina pode ser atribuída a uma boa base — o que está diretamente ligado à diversificação produtiva. Diferentemente de estados excessivamente dependentes de um único setor — como commodities, serviços públicos ou consumo —, a economia catarinense se apoia em um tripé relativamente equilibrado entre indústria, serviços e agropecuária, o que dilui riscos e amplia a capacidade de adaptação a choques externos. “A coisa mais relevante para o investimento em Santa Catarina, ou para a manutenção do ciclo de investimento, é a presença de uma estrutura produtiva diversificada”, diz -Bittencourt, da Fiesc. “Isso não só permite aproveitar conjunturas econômicas diferentes como também estimula a presença de fornecedores e clientes próximos, formando uma massa crítica que promove novos investimentos industriais.”

Fábrica da Oxford em Pomerode (SC): a indústria é um dos pilares de Santa Catarina (Leandro Fonseca /Exame)

Essa massa crítica cria um efeito de autoalimentação: empresas atraem fornecedores, fornecedores atraem novos investimentos, e o mercado de trabalho se qualifica de forma contínua, elevando a produtividade média do estado.

A indústria continua sendo um dos principais pilares. O estado mantém uma das bases industriais mais diversificadas do país, com destaque para alimentos e bebidas, metalmecânica, máquinas e equipamentos, têxtil, cerâmica, móveis e produtos químicos.

Em vários desses segmentos, Santa Catarina ocupa posições de liderança nacional em participação no valor da transformação industrial e nas exportações, apoiada por cadeias produtivas densas, capital humano qualificado com a ajuda de uma rede robusta de escolas técnicas e forte integração com centros de pesquisa e universidades.

Rendeira de bilro: o estado tem um pé na tradição e outro no futuro (Jonatã Rocha/SecomGOVSC/Divulgação)

Essa proximidade entre indústria, formação técnica e pesquisa aplicada ajuda a explicar por que o estado conseguiu preservar competitividade mesmo em períodos de valorização cambial, juros elevados e desaceleração econômica nacional.

A agropecuária mantém um papel que vai muito além da produção primária. As boas safras de grãos e o desempenho da indústria de proteína animal — especialmente aves e suínos — continuam exercendo forte efeito multiplicador sobre os setores de alimentos, transporte e serviços. Em períodos de desaceleração industrial, o agronegócio funciona como um amortecedor cíclico, sustentando emprego, renda e exportações em diversas regiões do estado.

O setor de serviços, por sua vez, deixou de ser apenas complementar. Serviços logísticos, tecnologia da informação, engenharia, saúde, educação privada e turismo avançaram de forma consistente nos últimos anos, acompanhando o crescimento da renda e a formalização do mercado de trabalho. Mesmo em um ambiente de juros elevados, o volume de serviços no estado cresceu 5% nos últimos 12 meses, acima da média nacional de 3,1%, refletindo o maior dinamismo da economia local e a robustez da demanda interna.

Essa diversidade aparece de forma clara no comércio exterior. Santa Catarina exportou cerca de 11,7 bilhões de dólares em 2024, com uma pauta relativamente pouco concentrada e presença em dezenas de mercados internacionais. O equilíbrio entre produtos industriais, agroindustriais e bens de maior valor agregado reduz a vulnerabilidade a oscilações de preços ou a choques específicos de demanda global.

Há por trás de tudo isso uma substancial capacidade de renovação sem perder certa vocação para gerar negócios capazes de disputar a liderança em seus setores. Há 10 ou 20 anos, uma lista das principais empresas catarinenses conteria nomes como Weg e Tupy, do setor metalmecânico; Hering na indústria têxtil; Sadia e Perdigão na produção de alimentos e o parque Beto Carrero World. Boa parte dessas marcas continua forte no mercado, ainda que elas tenham passado por transformações estruturais e societárias. Algumas, como a Weg e a Tupy, aprofundaram-se em processos de internacionalização muito bem-sucedidos. Hoje, elas dividem espaço com empresas mais jovens, nascidas em um ambiente de inovação, tecnologia e serviços avançados — um sinal claro de renovação do tecido produtivo —, como fabricantes de softwares, empresas de logística e as construtoras que fizeram de Balneário Camboriú a cidade mais verticalizada do país, com seus arranha-céus que ultrapassam 200 metros de altura. E já há uma nova geração de companhias nascidas no século 21 com raízes na inovação e na tecnologia que consolidam suas marcas, muitas das quais com vocação global.

“Existe uma raiz empreendedora muito forte no estado, muito ligada à sua formação histórica e à imigração”, diz Diego Ramos, presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate).

A resiliência catarinense, portanto, não é fruto de acaso nem de conjuntura favorável isolada. Ela resulta de uma economia que distribui riscos, -combina setores tradicionais e modernos e transforma diversidade produtiva em estabilidade — um atributo raro em um país historicamente marcado por ciclos extremos.

Parte dos bons resultados se deve a um esforço recente para aprimorar e modernizar a infraestrutura, que por muito tempo foi um dos principais gargalos do estado. Começou pelos portos — hoje situam-se em Santa Catarina dois dos três maiores terminais de contêineres do país e alguns dos melhores, como mostram os indicadores de eficiência da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

Praia de Itapema: entre Balneário Camboriú e Porto Belo, ela se destaca pela orla extensa e pela infraestrutura completa (Leo Munhoz/Divulgação)

Outro caso emblemático é o das rodovias. Em poucos anos, Santa Catarina promoveu uma inflexão histórica na qualidade de sua malha viária. O estado está investindo mais de 5,1 bilhões de reais nas estradas estaduais, o que, somado a 1,45 bilhão de reais em manutenção e conservação, reduz tempo de deslocamento, custos logísticos e riscos operacionais para empresas.

Mais importante do que o volume de obras foi a mudança institucional. Por meio da Invest SC, o governo de Santa Catarina estruturou as primeiras parcerias público-privadas de sua história, inaugurando um modelo de execução de projetos. A estreia ocorreu com o Aeroporto de Jaguaruna, seguida pelo contrato para a dragagem da Baía da Babitonga. Mais recentemente, o estado leiloou uma PPP em busca de uma empresa para manter e administrar um complexo prisional em Blumenau. Entre as próximas iniciativas está o lançamento de uma parceria público-privada para construir e operar a Zona de Processamento de Exportação de Imbituba — um projeto de cerca de 40 anos que só agora dá sinais de que será posto em prática. “O diferencial de Santa Catarina é que os projetos não ficam no anúncio”, diz Renato Lacerda, presidente da Invest SC.

Nesse ambiente de negócios, os indicadores sociais continuam fortemente positivos. O estado opera próximo do pleno emprego. No terceiro trimestre de 2025, a taxa de desemprego ficou em 2,3%, a menor do Brasil — e inferior à de praticamente todos os integrantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais desenvolvidos. No final do terceiro trimestre de 2025, 97,6% da força de trabalho catarinense estava ocupada — um nível mais comum em economias desenvolvidas do que em mercados emergentes.

Mais revelador do que a quantidade de empregos é a sua qualidade. Quase 88% dos trabalhadores do setor privado têm carteira assinada, o maior percentual entre os estados brasileiros, enquanto a taxa de informalidade recuou para 24,9%, bem abaixo da média nacional.

A renda acompanha esse desempenho. O rendimento médio real mensal alcançou 4.199 reais, o segundo maior do país, após um crescimento de 10,1% em apenas um ano. A massa salarial mensal do estado chegou a 18,5 bilhões de reais, avançando quase 11% no mesmo período. Em termos práticos, isso se traduz em cidades médias com comércio ativo, serviços dinâmicos e uma base de arrecadação menos dependente de choques externos.

O baixo desemprego, a renda elevada, a alta formalização do trabalho e os indicadores de qualidade de vida acima da média nacional ajudam a explicar por que o estado se tornou, nos últimos anos, o destino preferido para muitos brasileiros. Segundo dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE, o estado registrou o maior saldo migratório interestadual do país, com aproximadamente 350.000 pessoas a mais entrando do que saindo ao longo da última década. O resultado colocou Santa Catarina à frente de outros estados tradicionalmente receptores de migrantes, como São Paulo e Minas Gerais.

Em Santa Catarina, essas pessoas encontram condições convidativas. O estado apresenta um dos menores déficits habitacionais do Brasil, com apenas 7,3% das famílias em moradias precárias, abaixo da média nacional. Os indicadores de segurança também estão entre os melhores do país.

No conjunto, Santa Catarina oferece uma combinação incomum no Brasil: crescimento econômico sustentado, instituições funcionais e qualidade de vida mensurável. Nem todos os desafios foram eliminados — pressão urbana, demanda por mão de obra qualificada e necessidade de manter disciplina fiscal permanecem no horizonte. Mudanças estruturais na economia global causadas pelo avanço de tecnologias, como a inteligência artificial e os crescentes riscos geopolíticos, têm tudo para pôr à prova, mais uma vez, a capacidade de adaptação de Santa Catarina. A necessidade de investimentos em saúde, educação e infraestrutura também é crescente num país com lacunas históricas como o Brasil. Até agora, porém, o estado conseguiu se sair bem diante de ciclos adversos. Em um país acostumado a avanços intermitentes, o estado se destaca pela constância. E é isso que poderá mantê-lo na rota para posições mais proeminentes no mapa econômico brasileiro.

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