Centro de Florianópolis: a tecnologia reduz roubos e muda a rotina nas principais cidades (Jonata Rocha/Divulgação)
EXAME Solutions
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 09h38.
Enquanto a violência se consolida como a maior preocupação dos brasileiros, Santa Catarina vai na contramão da tendência nacional e mantém, de forma consistente, o status de estado mais seguro do país. Os dados mais recentes confirmam que o desempenho catarinense não é pontual nem circunstancial, mas resultado de uma política pública estruturada, investimentos contínuos e integração entre forças de segurança, inteligência e sistema prisional.
Levantamentos como o Ranking de Competitividade dos Estados, do Centro de Liderança Pública (CLP), apontam Santa Catarina como líder nacional da segurança pública pelo sétimo ano consecutivo. O Anuário das Cidades Mais Seguras do Brasil reforça o cenário, com municípios catarinenses dominando o topo do ranking, enquanto o Atlas da Violência, com base em dados do Ministério da Saúde e do IBGE, classifica o estado como um dos principais casos de sucesso na redução da violência letal no país.
Em 2024, a taxa de homicídios em Santa Catarina foi de 8,6 mortes por 100.000 habitantes, menos de um terço da média nacional, que chegou a 25,7. Em 2025, o indicador avançou ainda mais: no primeiro semestre, a taxa caiu para 2,8 homicídios por 100.000 habitantes, com um dado simbólico e relevante — cerca de 70% dos municípios catarinenses não registraram nem sequer um homicídio no período. Entre junho e setembro de 2025, o estado registrou os menores índices de homicídio dos últimos 18 anos para esses meses.
Para o secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Flávio Graff, os números refletem uma mudança estrutural. “Os resultados não surgem por acaso. Eles são consequência de planejamento, integração entre as forças, investimentos históricos em tecnologia, inteligência e valorização profissional. Santa Catarina construiu um modelo que combina prevenção, repressão qualificada e controle rigoroso do sistema prisional”, afirma.
Os indicadores de segurança pública em Santa Catarina caminham lado a lado com um ambiente socioeconômico estruturalmente favorável, que atua como fator de contenção da criminalidade. O estado apresenta a menor taxa de desemprego do Brasil, em torno de 2,3%, índice inferior ao observado em países desenvolvidos como Alemanha, Estados Unidos e Canadá. Em um cenário nacional marcado por informalidade elevada e desemprego estrutural, esse dado tem impacto direto sobre a dinâmica social e urbana.
Santa Catarina também registra a menor proporção de beneficiários de programas sociais federais, sinalizando maior autonomia econômica das famílias. Soma-se a isso a segunda menor taxa de analfabetismo do país, um indicador relevante quando se observa a correlação entre escolaridade, inserção produtiva e redução da criminalidade. O estado ainda lidera em distribuição de renda, com o menor Índice de Gini do Brasil, além de apresentar a menor taxa de pobreza e extrema pobreza entre as unidades da federação.

Esses fatores ajudam a explicar por que a violência encontra menos espaço para se estruturar. Menor vulnerabilidade social, maior acesso ao mercado formal de trabalho e renda mais distribuída reduzem a pressão sobre o sistema de segurança pública e dificultam o recrutamento de jovens por organizações criminosas. Em Santa Catarina, o crime encontra menos terreno fértil para se consolidar como alternativa econômica.
Santa Catarina transformou investimento em segurança pública em política estruturante de longo prazo. Atualmente, o estado destina cerca de 12% de todo o seu orçamento à área — um dos maiores percentuais do país e bem acima da média nacional. Apenas em 2024, os investimentos diretos em custeio, infraestrutura, equipamentos e tecnologia superaram 700 milhões de reais, sem considerar os gastos com pessoal. Os recursos foram direcionados à modernização de unidades policiais, aquisição de viaturas, armamentos, equipamentos de proteção individual e ampliação de sistemas de inteligência.
A valorização profissional é outro pilar central desse modelo. Em 2025, o governo estadual concedeu reajuste de 21,5%, o maior aumento real da história das carreiras da segurança pública em Santa Catarina, beneficiando mais de 35.000 profissionais, entre ativos e inativos. O impacto financeiro do reajuste será de aproximadamente 1,4 bilhão de reais por ano quando totalmente implementado. A medida teve efeito direto na motivação do efetivo, na redução da evasão de profissionais e no fortalecimento institucional das corporações.
O efetivo catarinense soma mais de 16.000 agentes, distribuídos entre Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Científica, Corpo de Bombeiros Militar e Polícia Penal. A taxa chega a 215 agentes por 100.000 habitantes, superior à média brasileira e compatível com padrões internacionais de policiamento em países com baixos índices de criminalidade. A distribuição territorial do efetivo foi ajustada com base em análise de dados, priorizando regiões estratégicas, corredores logísticos e áreas de maior fluxo populacional.
A tecnologia passou a ocupar papel central na estratégia de segurança. O projeto de reconhecimento facial, com investimento inicial de 40 milhões de reais, prevê a instalação de 1.000 câmeras inteligentes em 60 municípios. A tecnologia é integrada a bancos de dados estaduais e interestaduais, permitindo a identificação em tempo real de pessoas com mandados de prisão em aberto. O sistema já foi testado em grandes eventos e operações especiais, resultando na prisão de foragidos e na prevenção de ocorrências, inclusive em festas populares, como a Oktoberfest Blumenau.
Além do reconhecimento facial, Santa Catarina consolidou uma das maiores redes estaduais de videomonitoramento do país, com mais de 5.300 câmeras em operação e 3.400 leitores automáticos de placas veiculares, fundamentais para o combate a crimes patrimoniais, roubo de veículos e deslocamento de organizações criminosas entre estados.
Sistema prisional: 1,4 bilhão de reais será o investimento, até 2028, em ampliação e modernização (Marco Favero/Divulgação)
Santa Catarina mantém atualmente 54 unidades prisionais distribuídas em 33 municípios, com cerca de 30.300 pessoas privadas de liberdade e outras 4.100 monitoradas por meio de tornozeleira -eletrônica. Diferentemente do cenário observado em outros estados, o sistema opera sem perda de controle territorial interno, com gestão centralizada, protocolos rígidos e integração permanente com as demais forças de segurança.
Para sustentar esse modelo, o governo estadual colocou em execução um programa de investimentos de 1,4 bilhão de reais até 2028, voltado à ampliação e modernização da estrutura prisional. O plano prevê a criação de quase 9.600 vagas, o que permitirá eliminar o déficit histórico, reduzir a superlotação e separar presos por perfil criminal, grau de periculosidade e vínculo com facções — medida considerada estratégica no enfraquecimento das organizações criminosas.
O diferencial catarinense está na gestão do sistema. O estado mantém domínio absoluto sobre as unidades, com isolamento rigoroso de lideranças de facções, controle permanente de comunicações ilícitas, revistas sistemáticas e monitoramento constante dos fluxos internos.
Outro pilar relevante é o foco na ressocialização e no trabalho prisional. Atualmente, mais de 33% da população carcerária catarinense exerce atividade laboral remunerada, percentual significativamente superior à média nacional. Os presos atuam em oficinas internas, serviços de manutenção, produção industrial e parcerias com empresas privadas, reduzindo o ócio carcerário e contribuindo para a disciplina interna. Além disso, 54% dos detentos participam de atividades educacionais, entre alfabetização, ensino fundamental, ensino médio e cursos profissionalizantes.
Em 2024, o sistema prisional arrecadou 28 milhões de reais com a retenção legal de parte dos salários pagos aos detentos trabalhadores, recursos integralmente reinvestidos nas próprias unidades para melhoria de infraestrutura, compra de equipamentos e fortalecimento da ressocialização. Para 2025, a arrecadação deve ser de 33 milhões de reais. O modelo cria um círculo virtuoso: reduz custos ao Estado, melhora a gestão interna e amplia as chances de reintegração social após o cumprimento da pena.
Policiamento: SC tem 215 agentes por 100.000 habitantes, superior à média brasileira (Roberto Zacarias/SECOM/Divulgação)
O enfrentamento às organizações criminosas em Santa Catarina combina repressão qualificada, inteligência financeira, controle territorial e integração interestadual e federal. Em 2025, o estado registrou o maior volume de apreensões de drogas da sua história, superando 60 toneladas, das quais 56,5 toneladas foram de maconha, além de volumes expressivos de cocaína, crack e haxixe. O dado reflete uma estratégia voltada não apenas à prisão de executores, mas principalmente à desarticulação de cadeias logísticas e financeiras do tráfico.
No mesmo período, entre 2023 e 2025, as forças de segurança retiraram de circulação 7.039 armas de fogo, muitas delas de uso restrito, utilizadas por facções criminosas em disputas territoriais e em ações de alto poder ofensivo. A retirada desse arsenal reduziu de forma significativa a letalidade potencial das organizações criminosas e contribuiu diretamente para a queda dos crimes violentos letais no estado.
As operações se concentram, de forma estratégica, nas regiões de fronteira e nos principais corredores logísticos, rotas historicamente utilizadas para tráfico de drogas, armas, contrabando e descaminho.
O principal eixo dessa atuação é o Centro Integrado de Comando e Controle da Fronteira, localizado em Dionísio Cerqueira, que opera de maneira permanente com monitoramento em tempo real, análise de dados e atuação conjunta entre Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Polícia Rodoviária Estadual, além de integração com a Polícia Federal, Receita Federal e forças de segurança de estados vizinhos.
A inteligência policial catarinense é outro pilar central da estratégia. Em 2025, 99% dos inquéritos envolvendo organizações criminosas foram concluídos com identificação dos envolvidos e responsabilização penal. Nos casos de lavagem de dinheiro, a taxa de resolutividade chegou a 95%, com bloqueio de contas, sequestro de bens e descapitalização de grupos criminosos. O foco no estrangulamento financeiro tem se mostrado decisivo para enfraquecer facções, reduzir sua capacidade de recrutamento e limitar a reincidência criminal.
A Oktoberfest Blumenau consolidou-se como um dos principais cases nacionais de segurança em grandes eventos de massa — e, em 2025, atingiu um patamar inédito no país. Ao longo de 19 dias, cerca de 700.000 pessoas circularam pelo Parque Vila Germânica, em uma operação que combinou multidões diárias superiores a 80.000 visitantes, consumo elevado de bebidas alcoólicas e intensa programação cultural. Ainda assim, o balanço final registrou apenas um furto de telefone celular e nenhuma ocorrência grave, consolidando a edição como a mais segura da história da festa.
O resultado não foi casual. A edição de 2025 marcou a consolidação de um modelo de segurança com base em monitoramento inteligente, reconhecimento facial, análise de comportamento e resposta integrada em tempo real. O parque contou com centenas de câmeras de alta resolução, conectadas a centros de controle operados de forma conjunta pela organização do evento e pelas forças de segurança pública. Parte dos equipamentos utilizou tecnologia de reconhecimento facial integrada a bancos de dados de pessoas com mandados de prisão em aberto, permitindo identificação e abordagem preventiva ainda na entrada do evento.
Além do videomonitoramento, o planejamento envolveu controle rigoroso de acessos, setorização do público, monitoramento de fluxo em tempo real e presença ostensiva, porém discreta, de equipes de segurança privada, Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. O uso de dados históricos e de inteligência permitiu antecipar pontos de maior risco, ajustar escalas de efetivo e agir antes que situações evoluíssem para ocorrências policiais.
Para Guilherme Benno Guenther, presidente da Oktoberfest Blumenau, a segurança deixou de ser apenas um requisito operacional e passou a integrar o posicionamento estratégico do evento. “A -Oktoberfest é hoje a festa mais segura do Brasil. Isso é resultado de planejamento técnico, investimento em tecnologia e integração total com as forças de segurança. A segurança não é mais apenas reação; ela é prevenção”, afirma.
Segundo Guenther, a percepção do público é parte central do sucesso. “As pessoas se sentem seguras para circular, consumir, trazer a família e permanecer mais tempo no evento. Isso se reflete diretamente na experiência, na reputação da festa e nos resultados econômicos”, diz.
A experiência catarinense mostra que segurança pública eficaz vai além do policiamento ostensivo. Ela depende de investimento contínuo, inteligência, gestão do sistema prisional e integração institucional. Ao combinar esses fatores, Santa Catarina transformou a segurança em ativo econômico e social. Em um país marcado por instabilidade e violência, o estado oferece previsibilidade, controle territorial e qualidade de vida — uma segurança que se vê, se mede e se sustenta no longo prazo.