Ciência

Quanto pesa 1  quilo?

Metros, gramas, ampères, segundos. A padronização de sistemas de pesos e medidas é um dos pilares da globalização e do comércio internacional. Apesar de ter aceitação quase universal, a ciência de medir as coisas ainda enfrenta desafios sérios

O metro padrão em Paris: a unidade de medida foi substituída apenas em 1960 (AFP Photo)

O metro padrão em Paris: a unidade de medida foi substituída apenas em 1960 (AFP Photo)

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Da Redação

Publicado em 2 de abril de 2012 às 16h42.

São Paulo - Em setembro de 2007, um evento raro mexeu com os ânimos de parte da comunidade científica internacional. Diretamente do Bureau Internacional de Pesos e Medidas, prestigiada organização com sede em Sèvres, cidade ao sul de Paris, o físico Richard Davis fez um anúncio alarmante: o protótipo do quilograma perfeito, um cilindro de liga de platina usado desde 1889 como referência global para medidas de massa, havia encolhido.

Comparado a médias de uma dezena de cópias idênticas, o “quilo” teria perdido 50 microgramas. “O mistério é que eles são todos feitos do mesmo material”, disse Davis, espantado, na ocasião. “Não temos uma boa hipótese para o que está acontecendo.” 

À primeira vista, a história do quilo que emagreceu soa apenas como anedota. Mesmo para praticantes de dietas extremas, 50 microgramas, o equivalente ao peso de uma impressão digital, não parecem lá muita coisa. Em pleno século 21, porém, o incidente com uma unidade de massa universal, tida até pouco tempo atrás como constante, expôs ao mundo a fragilidade de sistemas de medida.

Os desafios e a história da “metrologia”, a ciência de medir as coisas, são tema do livro World in the Balance: The Historic Quest for an Absolute System of Measurement (“O mundo na balança: a história da busca de um sistema absoluto de medidas”, numa tradução livre), do filósofo americano Robert P.

Crease, professor da Stony Brook University. Mais do que um relato curioso sobre a evolução de métricas ao longo dos séculos, a publicação é um retrato do que, para muitos, representa uma das ferramentas mais caras — porém mais esquecidas — do processo de globalização.

Além de progresso científico, a unificação de sistemas de medidas significou um marco para o desenvolvimento do comércio internacional. Em 1875, a revista Nature chegou a chamar o sistema métrico de “um dos grandes trunfos da civilização moderna”. 

A história até chegar a um sistema internacional, porém, é tortuosa. Medidas, como se sabe, não existem na natureza. Elas são convenções, padrões ou marcos criados pelo homem para avaliar outras coisas. Morgen, na Alemanha medieval, era o nome da unidade que designava a área de terra que um cavalo era capaz de arar no período de um dia.


Na França, a mesma medida tinha o nome de journal. Mas, como não há cavalos e pedaços de terra iguais, a comparação de métricas como essas não poderia dar resultado mais distinto. Para se conectar, o mundo moderno precisaria de padrões mais precisos de medição.

A França do pós-revolução serviria de palco para o surgimento do primeiro sistema internacional de medidas. Em fins do século 18, com o desenvolvimento de máquinas cada vez mais complexas, a precisão se tornou um fator crítico para países em processo de industrialização.

A expansão de mercados internacionais também demandava a criação de medidas comuns. O metro, da palavra grega metron (medida), foi a unidade básica de comprimento proposta pelos franceses.

Ao contrário de códigos de medida anteriores, muitas vezes baseados em partes do corpo de representantes da monarquia (distância do nariz à ponta do dedo indicador, por exemplo), o novo sistema definiu o metro como uma fração de um meridiano que atravessa Paris.

Embora os benefícios de sistemas unificados fossem reconhecidos pela maioria dos governos na época, levou tempo para que algumas das maiores potências globais adotassem o padrão francês. Entre os principais motivos alegados estavam os custos financeiros ligados a uma possível conversão. 

Dois séculos após os primeiros esforços da diplomacia francesa, o sistema métrico, que depois deu origem ao sistema internacional de medidas, pode ser considerado um sucesso. Hoje, apenas os governos dos Estados Unidos, da Libéria e de Myanmar não reconhecem o sistema como oficial (embora o sistema americano leve em conta o padrão métrico como base de cálculo para suas próprias unidades).

Apesar do êxito quase absoluto, a metrologia está longe de ser uma ciência morta. Unidades de medida, como mostra o exemplo do quilograma de Sèvres, podem — e precisam — ser melhoradas. No mundo ideal, segundo a definição de François Arago, célebre físico francês, é preciso chegar a “uma medida que pode ser reproduzida mesmo após terremotos e cataclismas”.


Cientistas baseiam padrões em constantes naturais. O próprio metro é um exemplo disso. Até 1960, seu comprimento seguiu sendo uma referência a placas de metal espalhadas por Paris que representavam frações do meridiano.

Apenas em 1983 chegou-se à formulação atual, em que o metro está ligado a uma constante física fundamental, a distância que a velocidade da luz percorre em uma fração de segundo. 

Por ironia, o livro de Create chegou às livrarias dias antes de um dos eventos mais importantes da história da metrologia. No fim de outubro, representantes de 55 nações reuniram-se no mesmo Bureau Internacional de Pesos e Medidas para anunciar um novo marco para a padronização de medidas.

Na ocasião, os cientistas afirmaram ter chegado, finalmente, a uma constante física natural para o quilograma. Pelo novo padrão, 1 quilo poderá em breve ser definido por uma relação com a constante de Planck, uma formulação do terreno da mecânica quântica.

Para receber validação, a proposição precisa ser aprovada em novo encontro, agendado para 2014. Somente então, quem sabe, o quilo de Sèvres estará livre para perder peso sem causar maiores transtornos.

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