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Potencial que aflora

Autistas de alto desempenho começam a ganhar espaço em empresas no Brasil e lá fora. Esses profissionais têm conquistado gestores em busca de inovação
Por Marina FilippePublicado em 27/02/2020 05:30 | Última atualização em 27/02/2020 05:30Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Com autismo e síndrome de Asperger, Bruno Rosa Machado, de 30 anos, é uma exceção. Ele faz parte do grupo de apenas 20% de autistas empregados no mundo todo, segundo a Organização das Nações Unidas. Diagnosticado há três anos, quando seu filho de então 4 anos recebeu a mesma avaliação, Machado passou a entender por que, por exemplo, não conseguiu completar o ensino médio. Uma pessoa com autismo tem, em geral, dificuldade para se comunicar e interagir socialmente.

“Só com o laudo em mãos consegui encontrar sentido em tudo o que eu tinha feito até ali”, diz Machado, que começou a trabalhar com 11 anos e sempre teve uma vida dura. Nos últimos anos, ele trabalhou como operador de máquina de terraplenagem, sem a adaptação necessária que levasse em conta o autismo. Só recentemente a situação começou a mudar. Há quatro meses, Machado foi contratado como coletor de mídias na empresa de inteligência de mercado Kantar Ibope Media.

A oportunidade surgiu graças a um programa de inclusão de autistas iniciado pela companhia em 2018 e que, atualmente, conta com dez profissionais. “O trabalho aqui é tranquilo. Tenho acompanhamento, outros amigos com Asperger e não sofro preconceito”, afirma.

O projeto da Kantar reflete um momento embrionário de dezenas de empresas. Estima-se que no Brasil haja 2 milhões de pessoas com autismo — e 70 milhões no mundo —, mas pouco se sabe sobre a participação delas no mercado de trabalho. As razões são várias: muitas não são diagnosticadas, parte delas não recebe tratamento adequado e outras não se enquadram em espectros funcionais para o mercado. Também são recentes os projetos especializados para ajudar a mudar o cenário.

“Grande parte das empresas ainda contrata o profissional com deficiência -apenas para cumprir a Lei de Cotas e, quando faz isso, prioriza pessoas com deficiência física leve e deixa de lado as diversidades intelectuais”, afirma Ricardo Sales, consultor da Mais Diversidade, que atua nas áreas de diversidade e inclusão no mercado de trabalho.

Em países como os Estados Unidos, o quadro não é muito diferente. Na unidade americana da Microsoft há poucas dezenas de autistas, na consultoria Deloitte eram oito profissionais e na empresa de tecnologia Dell havia apenas três pessoas com esse perfil em 2019.

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As companhias que desejam mudar esse cenário não têm muita referência de como começar. Um dos poucos exemplos é a Specialisterne, consultoria dinamarquesa que atua no Brasil desde 2015 auxiliando na contratação de profissionais autistas com alto desempenho. Até agora, cerca de 120 profissionais foram contratados por 20 empresas no Brasil.

Os autistas são treinados por psicólogos durante quatro meses para aprender, por exemplo, a evitar crises de ansiedade e a pedir ajuda à equipe e aos gestores. “Nossa prioridade é oferecer um ambiente seguro para o contratado para que ele se integre bem e produza melhor”, diz Ramon Bernat, presidente da Specialisterne.

A Kantar, porém, percebeu os benefícios dos novos funcionários e patrocinou um curso para torná-los efetivos logo na entrada. “Eles apresentaram resultados imediatos em tarefas repetitivas, que exigem alta concentração e organização”, diz Suzana Kubric, diretora de recursos humanos da Kantar Ibope Media. Características como essas estão no radar das empresas que contratam autistas e pessoas com outras diversidades intelectuais.

Segundo a Specialisterne, esses indivíduos conseguem ser, em média, duas vezes mais produtivos do que os neurotípicos, ou seja, aqueles que não estão no espectro da diversidade intelectual. “Temos relatos de funcionários autistas que analisam 200 documentos por dia, enquanto o melhor funcionário da equipe até então analisava 100”, diz Bernat.

As habilidades demonstradas por pessoas com autismo de alto desempenho são semelhantes às buscadas em profissionais de tecnologia e inovação. Até 2024, a procura por profissionais com habilidades digitais e tecnológicas chegará a 70.000 por ano no Brasil, mas o número de formados na área será de 46.000, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação.

No banco Itaú, essa lacuna começa a ser preenchida também pelos autistas. Em 2016, três profissionais foram contratados em um projeto piloto. Com os bons resultados, o total atual chega a 28. Segundo o banco, os gestores pedem por mais profissionais quando percebem o alto desempenho e a melhora no clima de toda a equipe, que desenvolve a empatia ao lidar com as diferenças.

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A diversidade é importante não apenas para a mão de obra mas também para a geração de valor ao cliente, como percebeu o grupo de medicina diagnóstica Fleury. Em novembro, a empresa, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo, lançou um serviço de atendimento para autistas na unidade do Morumbi, em São Paulo.

Para isso, 200 profissionais, entre atendentes e médicos, foram treinados. “Percebemos que alguns autistas não se sentiam confortáveis ao entrar em equipamentos de diagnóstico de imagem, mas os profissionais foram preparados para tranquilizá-los”, diz Eduardo Marques, diretor de pessoas e sustentabilidade do Grupo Fleury. A intenção é levar o padrão de atendimento também para outras unidades, assim como aumentar o número de contratados com autismo. Hoje, são três funcionários em áreas operacionais.

Além do pontapé dado pelas empresas, boas notícias começam a favorecer pessoas com autismo. Em julho, uma lei passou a incluí-las em pesquisas do IBGE e, no início de 2020, foi aprovada a lei que institui a Carteira Nacional do Autista, documento que dá a essa população prioridade no atendimento em serviços públicos e privados, especialmente nas áreas de saúde, educação e assistência social. Com iniciativas como essas, Machado espera que, diferentemente dele, seu filho tenha uma inclusão menos sofrida nas escolas e no mercado de trabalho.


“As empresas não estão preparadas para receber autistas”

Presidente de consultoria dinamarquesa de recrutamento de autistas de alto rendimento aponta barreiras para reconhecê-los como bons profissionais e aproveitar os ganhos

Ramon Bernat, presidente da Specialisterne: consultoria treina autistas para o mercado de trabalho | Germano Lüders

Pessoas com transtorno do espectro autista — o nome técnico para o autismo — são consideradas pouco sociáveis, com dificuldade de trabalhar em equipe, entender metáforas e suportar barulhos altos. Essas características fazem com que todas elas, até as mais sociáveis e adaptáveis, sofram preconceito e encontrem limitações para se inserir no mercado de trabalho. Para quebrar o estigma e promover a diversidade intelectual nas empresas, a consultoria dinamarquesa Specialisterne começou, em 2003, a treinar autistas com alto desempenho e indicá-los às companhias.

No Brasil, onde atua desde 2015, a consultoria colocou 120 profissionais no mercado, mas enxerga potencial de crescimento por meio do desenvolvimento social e econômico dos autistas. Acompanhe a entrevista com o presidente da consultoria, Ramon Bernat.

Qual é o impacto econômico e social da contratação de um autista?

Não há estudos que mostrem esse impacto, visto que muitos dos autistas ainda não receberam um diagnóstico adequado. Basta dizer que 40% de nossos contratados no Brasil tiveram o diagnóstico depois dos 18 anos. Estamos projetando mensurar em breve os impactos na empregabilidade e suas consequências sociais, mas, ao considerar que há 2 milhões de brasileiros com o transtorno, é possível perceber que o impacto é enorme.

Estimativas apontam que 20% dos autistas são diagnosticados com depressão. A empregabilidade, mais do que gerar renda, evita o estresse, a depressão e a ansiedade no autista — e também na família —, que consegue levar uma vida mais próxima da considerada normal.

Qual é a importância do Brasil no negócio da Specialisterne e na contratação de autistas?

Estamos em 38 cidades de 21 países. O Brasil está entre os cinco mais importantes para o negócio, ao lado de Dinamarca, Estados Unidos, Espanha e Austrália. Isso se deve ao acolhimento das pessoas e das empresas, mas também à dimensão territorial e econômica do país. Acredito que o Brasil tenha um enorme potencial para ser um modelo para seus vizinhos.

Por que é preciso um trabalho específico de inserção da população autista no mercado?

Muitas pessoas com autismo, mesmo com boa formação, não conseguem emprego porque as empresas não estão preparadas para recebê-las. Um autista pode, por exemplo, ser eliminado de um processo seletivo por dar respostas literais, diferentes das consideradas boas por um time de recursos humanos. Entre os autistas da Specialisterne no Brasil, 50% estão no primeiro emprego — em algumas empresas, o índice chega a 90%. Alguns tiveram dificuldade na formação educacional, apesar da ótima capacidade para o trabalho.

Como os profissionais se tornam aptos para ocupar as vagas abertas nas empresas?

Eles passam por um treinamento de quatro meses. Investimos 25.000 reais na formação de cada um, mas é gratuito para o autista. Lá eles têm o desenvolvimento social e técnico e passam a entender que precisam desde abotoar a camisa corretamente até ser mais abertos para compartilhar ideias com os gestores e com a equipe. No primeiro ano, eles também são acompanhados por psicólogos contratados por nós, que ajudam a diminuir os impasses da integração.

Quais são os benefícios para as empresas?

Os autistas de alto desempenho têm muita concentração e se dão bem com tarefas minuciosas e repetitivas. Empresas de todos os setores, especialmente na área de tecnologia, têm percebido os bons resultados. A taxa de retenção desses profissionais é de 93% após um ano de contratação.