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Quem são os três xerifes da Petrobras

Como um ex-comandante do Bope, uma especialista em segurança pública e o engenheiro que ajudou a desbaratar máfia em SP tentam transformar a empresa

A Petrobras é um gigante com 69 mil funcionários, mas poucos têm chamado tanta atenção quanto os três das fotos acima. O coronel Alberto Pinheiro Neto, a advogada Regina de Luca e o engenheiro Mário Spinelli têm qualificações incomuns para o mundo corporativo. Ex-comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Pinheiro Neto também chefiou o Bope, batalhão especial onde seu apelido era “Caveira 41”. Regina foi a primeira mulher a assumir a Secretaria Nacional de Segurança Pública e Spinelli estava na equipe que desmontou uma máfia envolvendo fiscais do ISS em São Paulo em 2013. Contratados pela Petrobras entre novembro de 2015 e janeiro deste ano, o trio é responsável por chefiar departamentos encarregados de promover uma nova onda de ajustes nas áreas de segurança, inteligência e ouvidoria. O objetivo é ter mais instrumentos para evitar desvios e fraudes e proteger o patrimônio e as informações sigilosas da empresa. Os primeiros resultados começam a aparecer, mas os desafios são enormes.   

Regina chefia as áreas de inteligência e segurança, que foram completamente desmoralizadas pelas descobertas da Operação Lava-Jato. Pedro Aramis Arruda, ex-gerente de segurança empresarial da Petrobras, disse em depoimento que muitos funcionários eram credenciados para ter acesso a qualquer documento da empresa — por isso era difícil identificar se alguém desviava ou expunha uma informação de forma imprópria. Documentos sigilosos da estatal chegaram a ser encontrados no escritório da matriz da empresa holandesa SBM, fornecedora da Petrobras, em 2016. Anos antes, informações estratégicas sobre as atividades de exploração de petróleo da Petrobras foram furtadas de um contêiner da fornecedora Halliburton. Para conter esse tipo de vazamento, a estatal passou a adotar uma diferenciação maior de níveis de acesso à informação — no chamado grau 4 de confidencialidade, somente diretores, executivos e conselheiros têm acesso.

Pinheiro Neto responde para Regina e é responsável pela segurança patrimonial da empresa. Na Polícia Militar, Pinheiro Neto atuou no cerco a um esquema de roubo de combustível na capital fluminense, um dos maiores problemas da Petrobras. Nos últimos sete anos, a Petrobras registrou 71 casos desse tipo somente no estado de São Paulo, uma média de dez ocorrências por ano. Regina e Pinheiro Neto têm voltado esforços principalmente para ações preventivas, com convênios e definições de estratégias com Bombeiros, PM, Receita Federal, defesa civil, governos estaduais e prefeituras.

“A Petrobras também se articula com órgãos de investigação e repressão ao crime, como as polícias, o Ministério Público e a Justiça criminal, contribuindo com informações técnicas que podem ser decisivas nas investigações, como identificar a origem de determinado tipo de petróleo”, diz a empresa em nota. “Regina e Pinheiro Neto têm grande experiência em segurança pública, o que auxilia em saber a competência de cada órgão, facilitando a articulação com eles para o enfrentamento da atividade criminosa”, completa.

Responsável pela ouvidoria da Petrobras há dois anos, Spinelli é um dos poucos que sobreviveram à troca de gestão da estatal, por responder diretamente ao conselho de administração. Ele tem percorrido refinarias, plataformas e reunido os funcionários da empresa nos refeitórios para explicar o que é e como funciona sua área, que tem a função de receber denúncias — sejam elas de corrupção ou de assédio — e apurá-las. Spinelli deslocou o departamento que recebe denúncias para um escritório fora da Petrobras e implementou um novo sistema, que garante o anonimato.

No passado, para determinados casos, a estatal exigia identificação do denunciante. Houve ainda reclamações de funcionários afirmando que, mesmo fazendo denúncias anônimas, foram identificados pelo número IP de seu computador. Outros denunciantes dizem não ter visto providências ser tomadas sobre o que reportaram. EXAME apurou que um funcionário havia informado, em 2013, que Paulo Roberto Costa, então diretor de abastecimento, tinha recebido um presente suspeito. Ele ganhara um carro Range Rover do doleiro Alberto Yousseff (o caso veio a público na investigação da Lava-Jato mais de um ano depois). Após as mudanças, a área tem recebido mais denúncias. Neste ano, até outubro, foram quase 15.000 denúncias e pedidos de informação. Em 2016 inteiro, foram 8.903.

Plataforma da Petrobras: para funcionários, o clima é “policialesco” | Renata Mello/Pulsar Imagens

A Petrobras é a empresa que mais gasta em segurança patrimonial e em inteligência no país, com um orçamento anual de cerca de 1 bilhão de reais, segundo três executivos com conhecimento do assunto. Os gastos aumentaram 30% durante a gestão de Aldemir Bendine, de fevereiro de 2015 a maio de 2016. EXAME apurou que as despesas da empresa com a proteção pessoal do executivo foram multiplicadas por 5. As áreas de segurança e de inteligência eram comandadas por ex-funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e um executivo e um conselheiro da Petrobras dizem que o objetivo de Bendine era monitorar o que estava sendo denunciado e investigado. “Os ajustes de Bendine nas áreas de segurança e de inteligência deixaram claro que a intenção era mais de esconder do que descobrir”, afirma o executivo.

Bendine está preso desde julho,  ele é acusado de ter recebido 3 milhões de reais da empreiteira Odebrecht, quando ainda era presidente do Banco do Brasil. Em outubro, advogados da Petrobras pediram à Justiça que o preso esclareça contratos fechados sob sua gestão com a holding J&F, também denunciada na Lava-Jato, e considerados “pouco usuais” pela investigação conduzida na estatal. Questionada sobre o aumento de gastos de segurança na gestão Bendine, a Petrobras diz que isso se deveu à junção dos orçamentos de segurança empresarial e segurança patrimonial, que tinham gerências separadas. A empresa não cita Bendine, mas ressalta que segue “adotando medidas jurídicas contra empresas e pessoas que causaram danos financeiros e à imagem da companhia” e que é coautora em 13 ações de improbidade administrativa e assistente de acusação em 41 ações penais.

À frente da Petrobras desde maio de 2016, Pedro Parente conseguiu reduzir os gastos das áreas de segurança e de inteligência. Neste ano, as despesas diminuíram 70 milhões de reais. Foram feitas revisões de contratos com fornecedores e houve redução de equipes. Na divisão de inteligência, hoje há apenas empregados próprios. Já na área de segurança patrimonial os sindicatos reclamam de um processo de terceirização (caso da operação no litoral paulista). Alguns funcionários também têm criticado a atuação das novas equipes. “O clima na Petrobras hoje é policialesco”, diz José Maria Rangel, coordenador-geral da Federação Única de Petroleiros. Ele e outros funcionários ouvidos por EXAME reclamam que passam por programas de combate à corrupção, mas que isso não se reflete no alto escalão. Referem-se ao diretor de governança, João Alberto Elek Junior, que, em agosto, foi afastado por dois meses pelo conselho de administração por ter contratado a consultoria Deloitte sem licitação — empresa na qual sua filha trabalha. Em outubro, ele voltou ao cargo.

O passado de Regina também foi alvo de críticas. Além de ter sido secretária de Segurança no mandato de Dilma Rousseff, ela é amiga de José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça — Parente teve de enviar uma mensagem na intranet defendendo seu profissionalismo e rechaçando vínculos partidários. Especialistas em investigação defendem seu histórico. Quando assumiu a Secretaria de Segurança de Diadema em 2002, o município paulista era disparado o mais violento do país. Com uma série de estratégias, como a implementação de um programa de lei seca restringindo o funcionamento de bares, Regi-na fez despencar os índices de homicídios, acidentes de carros e roubos na cidade na época. Spinelli também foi criticado por sua passagem como controlador-geral do estado de Minas Gerais, no mesmo período em que o governador petista Fernando Pimentel e sua mulher eram suspeitos de corrupção. Nada é simples quando se trata da Petrobras. Os novos xerifes da empresa têm um plano e alguns resultados — mas, para ficar claro que a empresa mudou de fato, será necessário bem mais que isso. 

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